Objectivos: 

  • Compreender que a nossa atitude perante a vida condiciona a forma como interpretamos a realidade.

  • Reconhecer que a nossa adesão a valores e a escalas de valor depende da nossa atitude perante a vida.

  • Interpretar a relação entre a liberdade e o destino: cada homem constrói-se a partir das suas escolhas.

Filosofia     Ficha A10

Aulas 10º Ano

Sumário:  A atitude do ser humano perante a vida e a experiência axiológica do mundo.

Servia, havia vinte anos. Como ela dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se quando voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. Desde rapariga a sua ambição fora ter um negociozito, uma tabacaria, uma loja de capelista ou de quinquilharias, dispor, governar, ser patroa; mas, apesar de economias mesquinhas e de cálculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha então adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a última libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.

Ficou sempre adoentada desde então; perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, de amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.

E depois não tinha jeito, não sabia tirar partido das casas; via companheiras divertir-se, vizinhar, janelar, bisbilhotar, sair aos domingos às hortas e aos retiros; levar o dia cantando, e quando as patroas iam ao teatro, abrir a porta aos derriços — e patuscar pelos quartos! Ela não. Sempre fora embezerrada.

Outras companheiras eram muito das amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fora as histórias da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e para dentro e para fora, muito confidentes, — muito presenteadas também! Ela não podia. Era minha senhora isto! Minha senhora aquilo! E cada uma no seu lugar!

Desde que servia, apenas entrava numa casa sentia logo, num relance, a hostilidade, a malquerença; a senhora falava-lhe com secura, de longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia aparecia; punham-lhe alcunhas — a isca seca, a fava torrada, o saca-rolhas; imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos cantos.

As antipatias que a cercavam faziam-na assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua cólera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. Num só ano esteve em três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas  todas pálidas, todas nervosas...

A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Vitória, disse-lhe:

— Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!

O pão! Aquela palavra que é o terror, o sonho, a dificuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se “uma pobre mulher”, com afectações de zelo, um ar de sofrer tudo, os olhos no chão. Mas roía-se por dentro; veio-lhe a inquietação nervosa dos músculos da face, o tique de franzir o nariz; a pele esverdeou-se-lhe de bílis.

E muito curiosa; era fácil encontrá-la, de repente, cosida por detrás de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado.

Qualquer carta que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava em todos os papéis atirados ao lixo.

Tinha um modo de andar ligeiro e surpreendedor. Examinava as visitas. Andava à busca de um segredo, de um bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!

Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente as porções cortadas à mesa; e qualquer bom apetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua parte. De comer sempre os restos ganhara o ar aguado, — o seu cabelo tomara tons secos, cor de rato. Era lambareira; gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta réis, e bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da língua, a orla do vestido um pouco erguida, revendo-se no pé.

E nunca tivera um homem; era virgem. Fora sempre feia, ninguém a tentara; e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se oferecera, como vira muitas, claramente, O único homem que a olhara com desejo tinha sido um criado de cavalariça, atarracado e imundo, de aspecto facínora; a sua magreza, a sua cuia, o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de buldogue. Causara-lhe horror, — mas vaidade. E o primeiro homem por quem ela sentira atracção, um criado bonito e alourado, rira-se dela, pusera-lhe o nome de Isca seca!

Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança de si mesma. As rebeliões da natureza, sufocava-as; eram fogachos, flatos.

Passavam. Mas faziam-na mais seca e a falta daquela grande consolação agravava a miséria da sua vida.

Eça de Queiroz, O Primo Basílio

 

 


 

Actividades:

                        1 – Leia o texto, procurando colocar-se na pele da personagem nele representada. De seguida, descreva o mundo tal como é visto por ela: as pessoas, a forma como as coisas acontecem, o significado da realidade.

                        2 - Partindo do princípio de que a personagem não é feliz, podemos afirmar que ela pode ainda ser feliz? Justifique a sua resposta.

                        3 – Atendendo à descrição do texto, podemos considerar que ela é responsável pela sua situação? Ela poderia ter sido feliz? Porquê?

 

Exercício de Aprofundamento:

 

Procure um local sossegado, sente-se com as costas bem direitas, relaxe, feche os olhos e concentre-se na respiração. Procure ficar assim, com uma concentração plena na respiração, até começar a sentir que o seu corpo começa a ficar mais leve, como se ficasse transparente e sem peso (se não conseguir isso, não faz mal).

Depois imagine que a negatividade presente no mundo se dissolve e tudo se torna límpido e puro, como se todas as coisas e todas as pessoas tivessem acabado de surgir e nada está gasto, sujo ou estragado. Depois, responda à seguinte questão: o que é preciso para que tudo o que é negativo deixe de existir?

 

 

 

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         Eça de Queiroz

Pode ler esta obra na íntegra:

O Primo Basílio

 

 

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