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Servia, havia vinte anos. Como ela
dizia, mudava de amos, mas não mudava de sorte. Vinte anos a dormir em
cacifos, a levantar-se de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos
velhos, a sofrer os repelões das crianças e as más palavras das
senhoras, a fazer despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença,
a esfalfar-se quando voltava a saúde!... Era demais! Tinha agora dias em
que só de ver o balde das águas sujas e o ferro de engomar se lhe
embrulhava o estômago. Nunca se acostumara a servir. Desde rapariga a
sua ambição fora ter um negociozito, uma tabacaria, uma loja de
capelista ou de quinquilharias, dispor, governar, ser patroa; mas,
apesar de economias mesquinhas e de cálculos sôfregos, o mais que
conseguira juntar foram sete moedas ao fim de anos; tinha então
adoecido; com o horror do hospital fora tratar-se para casa de uma
parenta; e o dinheiro, ai! derretera-se! No dia em que se trocou a
última libra, chorou horas com a cabeça debaixo da roupa.
Ficou sempre adoentada desde então;
perdeu toda a esperança de se estabelecer. Teria de servir até ser
velha, sempre, de amo em amo! Essa certeza dava-lhe uma desconsolação
constante. Começou a azedar-se.
E depois não tinha
jeito,
não sabia tirar partido das casas; via companheiras divertir-se,
vizinhar, janelar, bisbilhotar, sair aos domingos às hortas e aos
retiros; levar o dia cantando, e quando as patroas iam ao teatro, abrir
a porta aos
derriços — e patuscar pelos
quartos! Ela não. Sempre fora embezerrada.
Outras companheiras eram muito das
amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fora as histórias
da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e para dentro e para fora,
muito confidentes, — muito presenteadas também! Ela não podia. Era
minha
senhora isto!
Minha senhora
aquilo! E cada uma no seu lugar!
Desde que servia, apenas entrava numa
casa sentia logo, num relance, a hostilidade, a malquerença; a senhora
falava-lhe com secura, de longe; as crianças tomavam-lhe birra; as
outras criadas, se estavam chalrando, calavam-se, mal a sua figura
esguia aparecia; punham-lhe alcunhas — a
isca seca,
a fava
torrada, o
saca-rolhas;
imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos
cantos.
As antipatias que a cercavam faziam-na
assanhada, como um círculo de espingardas enraivece um lobo. Fez-se má;
beliscava crianças até lhes enodoar a pele; e se lhe ralhavam, a sua
cólera rompia em rajadas. Começou a ser despedida. Num só ano esteve em
três casas. Saía com escândalo, aos gritos, atirando as portas, deixando
as amas todas pálidas, todas nervosas...
A
inculcadeira,
a sua velha amiga, a tia Vitória, disse-lhe:
— Tu acabas por não ter onde te
arrumar, e falta-te o bocado do pão!
O pão! Aquela palavra que é o terror, o
sonho, a dificuldade do pobre assustou-a. Era fina, e dominou-se.
Começou a fazer-se “uma pobre mulher”, com afectações de zelo, um ar de
sofrer tudo, os olhos no chão. Mas roía-se por dentro; veio-lhe a
inquietação nervosa dos músculos da face, o tique de franzir o nariz; a
pele esverdeou-se-lhe de bílis.
E muito curiosa; era fácil encontrá-la,
de repente, cosida por detrás de uma porta com a vassoura a prumo, o
olhar aguçado.
Qualquer carta que vinha era revirada,
cheirada... Remexia subtilmente em todas as gavetas abertas; vasculhava
em todos os papéis atirados ao lixo.
Tinha um modo de andar ligeiro e
surpreendedor. Examinava as visitas. Andava à busca de um segredo, de um
bom segredo! Se lhe caía um nas mãos!
Era muito gulosa. Nutria o desejo
insatisfeito de comer bem, de petiscos, de sobremesas. Nas casas em que
servia ao jantar, o seu olho avermelhado seguia avidamente as porções
cortadas à mesa; e qualquer bom apetite que repetia exasperava-a, como
uma diminuição da sua parte. De comer sempre os restos ganhara o ar
aguado, — o seu cabelo tomara tons secos, cor de rato. Era lambareira;
gostava de vinho; em certos dias comprava uma garrafa de oitenta réis, e
bebia-a só, fechada, repimpada, com estalos da língua, a orla do vestido
um pouco erguida, revendo-se no pé.
E nunca tivera um homem; era virgem.
Fora sempre feia, ninguém a tentara; e, por orgulho, por birra, com
receio de uma desfeita, não se oferecera, como vira muitas, claramente,
O único homem que a olhara com desejo tinha sido um criado de
cavalariça, atarracado e imundo, de aspecto facínora; a sua magreza, a
sua cuia,
o seu ar domingueiro tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de
buldogue. Causara-lhe horror, — mas vaidade. E o primeiro homem por quem
ela sentira atracção, um criado bonito e alourado, rira-se dela,
pusera-lhe o nome de Isca seca!
Não contou mais com os homens, por
despeito, por desconfiança de si mesma. As rebeliões da natureza,
sufocava-as; eram
fogachos,
flatos.
Passavam. Mas faziam-na mais seca e a
falta daquela grande consolação agravava a miséria da sua vida.
Eça de Queiroz,
O Primo Basílio
Actividades:
1 – Leia o texto, procurando
colocar-se na pele da personagem nele representada. De seguida, descreva
o mundo tal como é visto por ela: as pessoas, a forma como as coisas
acontecem, o significado da realidade.
2 - Partindo do
princípio de que a personagem não é feliz, podemos afirmar que ela pode
ainda ser feliz? Justifique a sua resposta.
3 – Atendendo à
descrição do texto, podemos considerar que ela é responsável pela sua
situação? Ela poderia ter sido feliz? Porquê?
Exercício de
Aprofundamento:
Procure um local sossegado, sente-se
com as costas bem direitas, relaxe, feche os olhos e concentre-se na
respiração. Procure ficar assim, com uma concentração plena na
respiração, até começar a sentir que o seu corpo começa a ficar mais
leve, como se ficasse transparente e sem peso (se não conseguir isso,
não faz mal).
Depois imagine que a negatividade
presente no mundo se dissolve e tudo se torna límpido e puro, como se
todas as coisas e todas as pessoas tivessem acabado de surgir e nada
está gasto, sujo ou estragado. Depois, responda à seguinte questão:
o que é
preciso para que tudo o que é negativo deixe de existir?
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