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Texto I - A
experiência axiológica do mundo.
É sabido que o dia-a-dia nos confronta
com uma série de juízos de valor. Tanto somos objecto de censuras e
elogios, quanto temos também o hábito de julgar louváveis ou censuráveis
as acções dos outros. Todas as pessoas costumam via de regra falar bem
ou mal de outras pessoas para ajuizar a sua conduta – e geralmente falam
mal. Se alguém faz algo que não parece ser correcto, em seguida é
censurado por isso.
Assim, se o senhor que mora na esquina
chegar a sua casa de madrugada embriagado, a vizinhança irá criticá-lo;
e o mesmo ocorrerá à sua mulher se sair sozinha num sábado à noite.
Analogamente, se um amigo não realiza as nossas expectativas de
reciprocidade, julgamo-lo indigno da nossa amizade; e se alguém fala mal
de uma pessoa, mas é cortês na sua frente, não consideramos que mereça a
nossa confiança. E assim por diante.
Aparentemente formulamos esses juízos
porque nos parece que tais acções são más, incorrectas ou injustas, ou
simplesmente contrárias ao dever moral de respeitar os nossos
semelhantes do mesmo modo que gostaríamos que nos respeitassem. Em fim,
em qualquer um dos casos, porque nos parecem censuráveis.
O ponto é que todos os juízos de valor
que constituem censuras morais, e que todos fazemos (muito embora não
nos agrade muito ser objecto deste tipo de censuras por parte de
outros), pressupõem o que vou denominar um critério de censura. Numa
palavra: quem julga moralmente pressupõe estar de posse de um padrão de
medida pelo qual é capaz de reconhecer acções imorais e distingui-las de
acções morais. Todo aquele que emite juízos sobre a vida ou as acções de
uma pessoa qualquer pretende tacitamente estar de posse de um critério
claro e seguro para discernir as acções moralmente censuráveis das
outras acções.
O problema é que pressupor a posse de
um bom critério não é o mesmo que estar em condições de oferecê-lo e
justificá-lo publicamente, o que por sua vez pode fazer com que uma
censura se revele como uma mera acusação infundada.
De facto, a maioria das pessoas emite
juízos morais de censura; porém, toda a vez que alguém é indagado acerca
do critério de censura, ou seja, acerca das boas razões que possui para
censurar a conduta de uma determinada pessoa, sempre apela em última
instância para uma pretensa “evidência” que está longe de ser trivial:
alega que censura esta ou aquela pessoa, esta ou aquela acção, este
hábito ou aquele acto, “porque é incorrecto”, “porque atenta contra os
bons costumes”, “porque infringe as leis de Deus”, “porque sente que é
errado”,etc.
Afirmar isto significa admitir
implicitamente que em princípio não se é capaz de oferecer um bom
critério para distinguir o censurável do que não o é, uma vez que
diferentes pessoas, grupos, épocas ou culturas poderiam considerar de
modo muito diferente “isso” que a pessoa em questão “sente que é
errado”, ou seria “incorrecto”, ou atentaria “contra os bons costumes”,
ou contra “as leis de Deus”. Poder-se-ia achar exactamente o contrário,
e não é difícil imaginá-lo porque é o que acontece todos os dias:
ninguém parece estar em condições de demonstrar que aquilo que acha
moralmente errado é de fato errado para todos. E não parece haver
nenhuma razão pela qual devêssemos preferir uma ou outra consideração em
detrimento das outras. Toda a gente sabe que nem tudo que é bom, justo
ou correcto para mim é necessariamente bom, justo ou correcto para os
outros. Porém,
admitir um critério
moral que só servisse para mim, o meu grupo ou a minha cultura, e
censurar moralmente os outros com base nele, seria tão patético (de tão
injustificado) como jurar que os japoneses são imorais porque comem
peixe cru ou confessar que todos os russos são imorais porque não usam
calções e vestem casacos grossos.
Juan A. Bonaccin
Texto II - Juízos de
facto e juízos de valor
Se dissermos: “Está a chover”,
estaremos a enunciar um acontecimento constatado por nós e o juízo
proferido é um
juízo de facto.
Se, porém, dizemos: “A chuva é boa para as plantas” ou “A chuva é bela”,
estaremos a interpretar e avaliar o acontecimento. Nesse caso,
proferimos um
juízo de valor.
Os juízos de facto são aqueles que
dizem o que as coisas são, como são e por que são. Na nossa vida
quotidiana, mas também na filosofia e nas ciências, os juízos de facto
estão presentes. Por outro lado, os juízos de valor - avaliações sobre
coisas, pessoas e situações - são proferidos na moral, nas artes, na
política, na religião.
Os juízos de valor avaliam coisas,
pessoas, acções, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de
espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou
indesejáveis.
Os juízos éticos de valor são também
normativos,
isto é, enunciam normas que determinam o
dever ser
dos nossos sentimentos, dos nossos actos, dos nossos comportamentos. São
juízos que enunciam obrigações e avaliam intenções e acções segundo o
critério do correcto e do incorrecto.
Os juízos éticos de valor dizem-nos o
que são o bem, o mal, a felicidade. Os juízos éticos normativos
dizem-nos que sentimentos, intenções, actos e comportamentos devemos ter
ou fazer para alcançarmos o bem e a felicidade. Enunciam também que
actos, sentimentos, intenções e comportamentos são condenáveis ou
incorrectos do ponto de vista moral.
Como se pode observar, senso moral e
consciência moral são inseparáveis da vida cultural, uma vez que esta
define para os seus membros os valores positivos e negativos que devem
respeitar ou detestar.
Qual a origem da diferença entre os
dois tipos de juízos? A diferença entre a Natureza e a Cultura. A
primeira, como vimos, é constituída por estruturas e processos
necessários, que existem em si e por si mesmos, independentemente de
nós: a chuva é um fenómeno meteorológico cujas causas e cujos efeitos
necessários podemos constatar e explicar.
Por sua vez, a Cultura nasce da maneira
como os seres humanos se interpretam a si mesmos e às suas relações com
a Natureza, acrescentando-lhe sentidos novos, intervindo nela,
alterando-a através do trabalho e da técnica, dando-lhe valores. Dizer
que a chuva é
boa
para as plantas pressupõe a relação cultural dos humanos com a Natureza,
através da agricultura. Considerar a chuva
bela
pressupõe uma relação valorativa dos humanos com a Natureza, percebida
como objecto de contemplação.
Frequentemente, não notamos a origem
cultural dos valores éticos, do senso moral e da consciência moral,
porque somos educados (cultivados) para eles e neles, como se fossem
naturais, existentes em si e por si mesmos. Para garantir a manutenção
dos padrões morais através do tempo e sua continuidade de geração a
geração, as sociedades tendem a naturalizá-los. A naturalização da
existência moral esconde, portanto, o mais importante da ética: o facto
de ela ser criação
histórico-cultural.
Marilena Chauí
Actividades:
1 - Responda à seguinte questão, a partir da
leitura dos textos: o que são e para que servem os valores?
2 - Podemos prescindir dos valores na nossa vida?
Justifique a sua resposta.
3 - Distinga Juízos de facto de juízos de valor.
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