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A especificidade do ser humano
A Pessoa como sujeito moral
Em Dezembro de 1976, Peggy Stinson,
professora no estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos, estava grávida
de 24 semanas quando entrou em trabalho de parto prematuro. O bebé, a
quem Robert e Peggy deram o nome "Andrew", era praticamente inviável.
Apesar da vontade expressa de ambos os
pais de não quererem "heroísmos", os médicos que assistiram o bebé
usaram toda a tecnologia da medicina moderna para o manter vivo durante
quase seis meses.
Andrew tinha crises periódicas. Perto
do final desse período tornou-se claro que, se sobrevivesse, ficaria
gravemente deficiente para o resto da vida. Andrew também sofria muito;
a certa altura o seu médico disse a Robert e Peggy que lhe "devia doer
como o diabo" de cada vez que respirava. O tratamento de Andrew custou
104.000 dólares a preços de 1977 (cerca de 19.000 contos) - hoje poderia
facilmente atingir uma soma três vez superior, visto que os cuidados
intensivos de bebés muito prematuros custam pelo menos 1500 dólares por
dia (cerca de 270 contos).
Andrew Stinson foi mantido vivo contra
a vontade dos seus pais, a um custo substancial, apesar do sofrimento
evidente e do facto de, a partir de certa altura, se tornar óbvio que
nunca seria capaz de ter uma vida independente nem de pensar ou falar
como a maioria dos seres humanos.
Quer semelhante tratamento de um bebé
humano constitua a atitude correcta quer não, está em contraste chocante
com a indiferença com que se tira a vida a cães vadios, macacos de
laboratório e gado para carne.
O que justifica essa
diferença?
Em todas as sociedades que conhecemos,
tirar a vida tem estado sujeito a uma proibição qualquer, sendo de supor
que nenhuma sociedade possa sobreviver se permitir aos seus membros
matarem-se uns aos outros sem restrições. Contudo, as diferenças entre
as sociedades têm incidido precisamente em quem beneficia de protecção.
Em muitas sociedades tribais, a única infracção grave é matar um membro
inocente da própria tribo -- os membros das outras tribos podem ser
mortos impunemente.
Em estados-nação mais sofisticados, a
protecção alarga-se geralmente a todos os que se encontram nas
fronteiras do território nacional, embora tenha havido casos - como os
estados que possuíam escravos -- em que uma minoria era excluída.
Actualmente, a maior parte das pessoas concorda - pelo menos em teoria -
que é condenável matar seres humanos, independentemente da sua raça,
religião, classe ou nacionalidade, com excepção de alguns casos
especiais (como a auto-defesa, a guerra, possivelmente a pena capital e
uma ou duas outras áreas duvidosas). Neste ponto, devemos fazer uma
pausa para perguntar o que entendemos por expressões como "vida humana"
e "ser humano", que surgem com muita frequência em debates sobre, por
exemplo, o aborto. "Será o feto um ser humano?" -- esta é, muitas vezes,
a questão cruci al nesses debates; mas, se não reflectirmos
cuidadosamente sobre estes termos, essas perguntas não terão resposta.
A questão de saber se um ser pertence a
de terminada espécie pode ser cientificamente determinada por meio de um
estudo da natureza dos cromossomas das células dos organismos vivos.
Neste sentido, não há dúvida de que, desde os primeiros momentos da sua
exist ência, um embrião concebido a partir de esperma e óvulo humanos é
um ser hu mano; e o mesmo é verdade do ser humano com a mais profunda e
irreparável deficiência mental - até mesmo de um bebé anencefálico
(literalmente sem cérebro).
Há uma outra definição do termo
"humano", proposta por Joseph Fletcher, teólogo protestante e autor
prolífico de escritos sobre temas éticos. Fletcher compilou uma lista
daquilo a que chamou "indicadores de humanidade", que inclui o seguinte:
autoconsciência, autodomínio, sentido do futuro, sentido do passado,
capacidade de se relacionar com outros, preocupação pelos outros,
comunicação e curiosidade. É este o sentido do termo que temos em mente
quando elogiamos alguém dizendo que "é muito humano" ou que tem
"qualidades verdadeiramente humanas". Quando dizemos tal coisa, não
estamos, é claro, a referir-nos ao facto de a pessoa pertencer à espécie
“Homo sapiens”, que, como facto biológico, raramente é posto em dúvida;
estamos a querer dizer que os seres humanos possuem tipicamente certas
qualidades e que a pessoa em causa as possui em elevado grau.
Estes dois sentidos de "ser humano"
sobrepõem-se, mas não coincidem. O embrião, o feto subsequente, a
criança gravemente deficiente mental e até mesmo o recém-nascido, todos
eles são indiscutivelmente membros da espécie “Homo sapiens”, mas nenhum
deles é auto-consciente nem possui um sentido do futuro ou a capacidade
de se relacionar com os outros. Logo, a escolha entre os dois sentidos
pode ter implicações im portantes para a forma como respondemos a
perguntas como "Será que o feto é um ser humano?".
Estipular que usamos o termo "ser
humano", digamos, no primeiro sentido e que, portanto, o feto é um ser
humano e o aborto é imoral não ajudaria em nada. Tão-pouco seria melhor
escolher o segundo sentido e defender nesta base que o aborto é
aceitável. A moral do aborto é uma questão substantiva, cuja resposta
não pode depender do sentido que estipularmos para as palavras que
usamos.
Para evitar fazer petições de princípio
e para tornar o meu sentido claro, porei de lado, por agora, o ambíguo
termo "ser humano" e substitui-lo-ei por dois termos diferentes,
correspondentes aos dois sentidos diferentes de "ser humano". Para o
primeiro sentido, o biológico, usarei simplesmente a expressão extensa,
mas precisa, "membro da espécie “Homo sapiens", enquanto para o segundo
sentido usarei o termo "pessoa".
Este uso da palavra "pessoa" é, ele
mesmo, infeliz, susceptível de criar confusões, dado que a palavra
"pessoa" é muitas vezes usada como sinónimo de "ser humano".
No entanto, os termos não são
equivalentes; poderia haver uma pessoa que não fosse membro da nossa
espécie. Também poderia haver membros da nossa espécie que não fossem
pessoas. A palavra "pessoa" tem a sua origem no termo latino para uma
máscara usada por um actor no teatro clássico. Ao porem máscaras, os
actores pretendiam mostrar que desempenhavam uma personagem. Mais tarde
"pessoa" passou a designar aquele que desempenha um papel na vida, que é
um agente. De acordo com o
Oxford Dictionary,
um dos sentidos actuais do termo é "ser auto-consciente ou racional".
Este sentido tem precedentes filosóficos irrepreensíveis. John Locke
define uma pessoa como "um ser inteligente e pensante dotado de razão e
reflexão e que pode considerar-se a si mesmo aquilo que é, a mesma coisa
pensante, em diferentes momentos e lugares".
Esta definição aproxima a "pessoa" do
sentido que Fletcher deu a "ser humano", com a diferença de escolher
duas características cruciais – a racionalidade e a auto-consciência
para cerne do conceito. É muito possível que Fletcher concordasse que
estas duas características são centrais e que as restantes decorrem mais
ou menos delas.
Peter Singer,
Ética prática.
Actividades:
1 – Responda à questão destacada no texto.
2 - Com
base na definição apresentada no texto, explique o que é uma pessoa.
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