|
AS EVIDÊNCIAS DO QUOTIDIANO
"Na nossa vida quotidiana, afirmamos,
negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações.
Fazemos perguntas como "que horas são?", ou "que dia é hoje?". Dizemos
frases como "ele está a sonhar", ou "ela ficou maluca". Fazemos
afirmações como "onde há fumo, há fogo", ou "não ande à chuva para não
se constipar". Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, "esta
casa é mais bonita do que a outra" e "a Maria está mais jovem do que a
Joana". Quando nos damos bem com uma pessoa dizemos que ela é
“porreira”.
Vejamos um pouco mais de perto o que
dizemos no nosso quotidiano.
Quando pergunto "que horas são?" ou "que
dia é hoje?", a minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou
um calendário, me dê a resposta exacta. Em que acredito quando faço a
pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele
passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente
de agora e o que virá também será diferente deste momento, que o passado
pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim,
uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não
questionadas por nós.
Quando digo "ele está a sonhar",
referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível
ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que
sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o
improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho
se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que
existe realmente.
Acredito, portanto, que a realidade
existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei
diferenciar realidade de ilusão.
A frase "ela ficou maluca" contém essas
mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura
e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela.
Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também
que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda
que não gostemos das mesmas coisas.
Quando alguém diz "onde há fumo, há
fogo" ou, "não ande à chuva para não se constipar", afirma
silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e
efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma
causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa
o fumo como efeito, a chuva causa a constipação como efeito).
Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as
coisas, os factos, as situações se encadeiam em relações causais que
podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso da nossa vida.
Quando avaliamos que uma casa é mais
bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que Joana,
acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os factos podem ser
comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom,
ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim,
que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e
usá-las na nossa vida.
Ao dizermos que alguém é “porreiro"
porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as
mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos
com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as
outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política
- nos faz semelhantes ou diferentes em função de normas e valores
morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta,
finalidades de vida.
Assim, achamos óbvio que todos os seres
humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais,
religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus
semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam
e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais,
morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem
ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio.
Como se pode notar, a nossa vida
quotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de
evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais,
óbvias."
Marilena Chaui
Actividades:
1. As crenças destacadas no texto, correspondem a um tipo de
saber que todos nós possuímos: o senso comum. Podemos afirmar que esse
saber nasce de uma reflexão profunda sobre a nossa experiência
quotidiana? Justifique a sua resposta.
2. Poderíamos viver a nossa vida quotidiana se não possuíssemos
estas “crenças silenciosas <...> que nunca questionamos porque nos
parecem naturais, óbvias”? Justifique a sua resposta.
Exercícios de aprofundamento:
(Deve procurar fazer estes exercícios em
momentos distintos).
A - Imagine como
seria a sua vida sem o senso comum, ou seja, se tivesse que aprender
tudo por si próprio/a e se o mesmo acontecesse com as outras pessoas:
nessa situação seria possível vivermos a nossa vida quotidiana tal como
o fazemos? A sua resposta deve ter um mínimo de 200 palavras.
B – Em primeiro lugar, reserve uns minutos para
realizar este exercício, de modo a que possa estar sozinho/a ou sem ser
interrompido/a ou distraído/a. Durante uns minutos concentre-se nas
coisas em que acredita acerca do mundo em que vive: na existência das
coisas, das pessoas, das normas, da realidade material, etc., etc. Tente
apreciar a utilidade desse conjunto de crenças: a imensidade de coisas
que sabe sem se dar conta disso, por exemplo, como acender a luz, ou a
televisão, ou abrir as portas com a respectiva chave, navegar na net.
Tente sentir a segurança que esse saber envolvente lhe dá.
Depois imagine que, de repente, essas crenças e o
saber que lhes está associado deixam de fazer sentido: deixa de
conseguir abrir as portas, acender a luz ou a televisão, apanhar o
comboio da mesma forma que está habituado/a, etc.
Como se sentiria nessa situação?
Conseguiria continuar a viver sem procurar resolver
os problemas acabados de surgir? Conseguiria aceitar essa ignorância sem
procurar um saber verdadeiro? A sua resposta deve ter um mínimo de 200
palavras.
|