Objectivos: 

  • Definir o senso comum.

  • Reconhecer a importância do senso comum na vida quotidiana do ser humano.

  • Compreender que o saber do senso comum é constituído por “crenças silenciosas” que não são sujeitas a uma análise racional.

  • Analisar as deficiências do senso comum.

Filosofia     Ficha A3

Aulas 10º Ano

Sumário: As evidências do quotidiano: caracterização do senso comum.                     

AS EVIDÊNCIAS DO QUOTIDIANO

 

"Na nossa vida quotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas, situações. Fazemos perguntas como "que horas são?", ou "que dia é hoje?". Dizemos frases como "ele está a sonhar", ou "ela ficou maluca". Fazemos afirmações como "onde há fumo, há fogo", ou "não ande à chuva para não se constipar". Avaliamos coisas e pessoas, dizendo, por exemplo, "esta casa é mais bonita do que a outra" e "a Maria está mais jovem do que a Joana". Quando nos damos bem com uma pessoa dizemos que ela é “porreira”.

Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos no nosso quotidiano.

Quando pergunto "que horas são?" ou "que dia é hoje?", a minha expectativa é a de que alguém, tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exacta. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também será diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.

Quando digo "ele está a sonhar", referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona com o que existe realmente.

Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão.

A frase "ela ficou maluca" contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela. Assim, ao acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas.

Quando alguém diz  "onde há fumo, há fogo" ou, "não ande à chuva para não se constipar", afirma silenciosamente muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo causa o fumo como efeito, a chuva causa a constipação como efeito). Acreditamos, assim, que a realidade é feita de causalidades, que as coisas, os factos, as situações se encadeiam em relações causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso da nossa vida.

Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que Joana, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os factos podem ser comparados e avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos, maior, menor). Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las na nossa vida.

Ao dizermos que alguém é “porreiro" porque tem os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos com os nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas - família, amigos, escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em função de normas e valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.

Assim, achamos óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser estabelecidos por seres conscientes e dotados de raciocínio.

Como se pode notar, a nossa vida quotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias."                                                                                                                 

Marilena Chaui


 

Actividades:    

1.        As crenças destacadas no texto, correspondem a um tipo de saber que todos nós possuímos: o senso comum. Podemos afirmar que esse saber nasce de uma reflexão profunda sobre a nossa experiência quotidiana? Justifique a sua resposta.

2.        Poderíamos viver a nossa vida quotidiana se não possuíssemos estas “crenças silenciosas <...> que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias”? Justifique a sua resposta.

Exercícios de aprofundamento:

(Deve procurar fazer estes exercícios em momentos distintos).

A - Imagine como seria a sua vida sem o senso comum, ou seja, se tivesse que aprender tudo por si próprio/a e se o mesmo acontecesse com as outras pessoas: nessa situação seria possível vivermos a nossa vida quotidiana tal como o fazemos? A sua resposta deve ter um mínimo de 200 palavras.

B – Em primeiro lugar, reserve uns minutos para realizar este exercício, de modo a que possa estar sozinho/a ou sem ser interrompido/a ou distraído/a. Durante uns minutos concentre-se nas coisas em que acredita acerca do mundo em que vive: na existência das coisas, das pessoas, das normas, da realidade material, etc., etc. Tente apreciar a utilidade desse conjunto de crenças: a imensidade de coisas que sabe sem se dar conta disso, por exemplo, como acender a luz, ou a televisão, ou abrir as portas com a respectiva chave, navegar na net. Tente sentir a segurança que esse saber envolvente lhe dá.

Depois imagine que, de repente, essas crenças e o saber que lhes está associado deixam de fazer sentido: deixa de conseguir abrir as portas, acender a luz ou a televisão, apanhar o comboio da mesma forma que está habituado/a, etc.

Como se sentiria nessa situação?

Conseguiria continuar a viver sem procurar resolver os problemas acabados de surgir? Conseguiria aceitar essa ignorância sem procurar um saber verdadeiro? A sua resposta deve ter um mínimo de 200 palavras.

 

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Para saber mais, consultar:

O que é o senso comum?

 

 

 

Senso comum é um saber muito limitado acerca do mundo, mas é absolutamente necessário: não poderíamos dar um passo em redor se não possuíssemos informações sobre o que nos rodeia.

Para a filosofia o problema não está na existência do senso comum, mas no facto de não questionarmos os fundamentos das crenças que formulamos com base no senso comum. Pois pelo simples facto de um sistema de crenças funcionar, não garante a sua verdade: durante mais de dois milénios um sistema de crenças baseado no geocentrismo foi utilizado sem problemas. Esse sistema funcionava: permitia que as pessoas se orientassem pelo movimento do sol (durante muito tempo os relógios de sol eram a forma mais exacta de medição do tempo) e não exibia falhas que pudessem levar à dúvida acerca da sua veracidade.

No entanto, Copérnico demonstrou que esse sistema estava errado.

 

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