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Texto I
“Meu caro amigo:
Do que você precisa, acima de tudo, é de se não
lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você;
fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo
o que pensou e decidiu do que todos os acertos se eles foram meus, não
seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos
talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas.
Os meus conselhos devem servir para que você se lhes
oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu;
mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se
alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo
da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria
transmitir-lhes: a de se não conformarem.”
( Agostinho da Silva, Sete cartas a um jovem filósofo Lisboa:
Ed.Ulmeiro).
Texto II
CARTA XII
Queridos Amigos:
Parece que toda a gente está de acordo em que o mundo
inteiro se encontra em crise.
Como isto me parece demasiado vasto para eu poder ser
útil, decidi que sou eu quem está em crise e talvez consiga sair dela
com três princípios: O de me ver livre do supérfluo, o de não confundir
o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for
servir, não mandar.<...>”
Setembro de Lua Cheia e de 93. Agostinho.
Texto III
Compreensão Sábia e Activa
A primeira condição para libertar os outros é
libertar-se a si próprio; quem apareça manchado de superstição ou de
fanatismo ou incapaz de separar e distinguir ou dominado pelos
sentimentos e impulsos, não o tomarei eu como guia do povo; antes de
tudo uma clara inteligência, eternamente crítica, senhora do mundo e
destruidora das esfinges; banirá do seu campo a histeria e a retórica<...>.
Hei-de vê-lo depois de despido de egoísmo, atente
somente aos motivos gerais; o seu bem será sempre o bem alheio; terá
como inferior o que se deleita na alegria pessoal e não põe sobre tudo o
serviço dos outros; à sua felicidade nada falta senão a felicidade de
todos; esquecido de si, batalhará, enquanto lhe restar um alento, para
destruir a ignorância e a miséria que impedem os seus irmãos de
percorrer o amplo caminho em que marcha. Nenhuma vontade de domínio;
mandar é do mundo das aparências; se tiver algum poder somente o veja
como um indício de que estão ainda muito baixos os homens que lho dão;
que o sentir-se superior o incite a um mais nobre e empenhado esforço
para que se esbatam e percam as diferenças; não aproveite a fraqueza dos
outros para mostrar a sua força; o bom lutador deseja que o combatam os
mais rijos lutadores.
Será grato aos contrários, mesmo aos que vêm armados
da calúnia e da injúria; compassivo da inferioridade que demonstram fará
tudo que puder para que melhorem e se elevem; responderá à mentira com a
verdade e ao ódio com o bem; tenazmente se recusará a entrar nos
caminhos tortuosos; se o conseguirem abater, tocará com humildade a
terra a que o lançaram, descobrirá sempre que do seu lado esteve o erro
e de novo terá forças para a luta; e se o aplaudirem pense logo que
houve um erro também. (Texto adaptado).
Agostinho da Silva, in 'Considerações e Outros
Textos'.
Actividades:
-
Interprete o texto III com
base na alegoria da caverna, procurando responder à seguinte
questão: os homens precisam de ser libertados? De quê?
-
Os textos II e III
apresentam um conjunto de regras éticas a que o filósofo deve
obedecer. Essas regras são adequadas à nossa época e à nossa
sociedade? Justifique a sua resposta. A sua justificação deve
indicar quais dessas regras que poderia incorporar na sua vida e
quais rejeitaria, fundamentando a sua escolha.
-
Até que ponto é importante que
sejamos autónomos? Fundamente a sua resposta com base numa reflexão
sobre as teses apresentadas no texto I.
Exercício de aprofundamento:
Sente-se num local sossegado e onde possa
estar uns minutos sem ser interrompido.
Relaxe, feche os olhos e concentre-se na
respiração, sem se esforçar por controlá-la, deixe apenas que o ritmo
natural da respiração se mantenha. Procure não pensar em nada a não ser
na respiração. Se algum pensamento lhe vier à mente, deixe-o em paz
como se fosse uma nuvem no céu.
Quando se sentir pacificado/a
interiormente, mantendo os olhos fechados, imagine a vastidão do
Universo. Imagine-se fora do planeta terra, num local onde possa
observar o sistema solar. Veja o Sol a emitir uma luz poderosíssima,
deixe que essa luz entre no seu corpo e sinta o seu calor. Depois
observe o movimento dos planetas em redor do Sol, repare como esse
movimento se parece com uma dança. E envolva-se nessa dança, sinta o
ritmo dessa dança cósmica e sinta-se parte dela.
Mantenha-se nesse estado o tempo que lhe
apetecer. Depois regresse à Terra, sinta-se mergulhar na atmosfera e
abra os olhos.
Depois de um breve momento de pausa,
responda a esta questão: - O que é que o Universo espera de mim? |