Objectivos: 

  • Compreender a natureza humana como estando dependente de condicionantes biológicas e condicionantes culturais.

  • Distinguir o homem do animal a partir da dicotomia determinismo/liberdade.

  • Interpretar a cultura como o resultado da acção humana sobre o mundo e sobre si próprio.

  • Reconhecer que o homem é produto e produtor de cultura.

Filosofia     Ficha A8

Aulas 10º Ano

Sumário:  O homem como produto e produtor da cultura.

                          A distinção entre o homem e o animal: determinismo e liberdade.

A CULTURA

 

As meninas-lobo

Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, descobriram-se, em 1920, duas crianças, Amala e Kamala, a viver no meio de uma familia de lobos. A primeira tinha um ano e meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada de humano e o seu comportamento era exactamente semelhante ao dos seus irmãos lobos.

Elas caminhavam sobre quatro patas apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajectos e sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos.

Eram incapazes de permanecer de pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais, lançando a cabeça para a frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas numa sombra; eram activas e ruidosas durante a noite, procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choraram ou riram.

Kamala viveu durante oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela

necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de morrer só tinha um vocabulário de cinquenta palavras. Atitudes afectivas foram aparecendo aos poucos.

Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras crianças com as quais conviveu.

A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por gestos, inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples.

(B. Reymond, Le développement social de l'enfant et de l'adolescent, Bruxelas, Dessart,1965, p.12-14.).


 

Introdução

O relato deste facto verídico leva-nos à discussão a respeito das diferenças entre o homem e o animal. As crianças encontradas na Índia não tiveram oportunidade de se humanizar enquanto viveram com os lobos, permanecendo, portanto, "animais". Não possuíam nenhuma das características humanas: actuavam por instinto, não choravam, não riam e, sobretudo, não falavam. O processo de humanização só foi iniciado quando começaram a participar do convívio humano e foram introduzidas no mundo dos símbolos pela aprendizagem da linguagem.

Esses estranhos casos nos propõem uma questão inicial: Quais são as diferenças entre o homem e o animal?

Os actos do homem » SlideShare
 

A actividade animal

Os animais que se situam nos níveis mais baixos da escala zoológica de desenvolvimento, como, por exemplo, os insectos, têm a acção caracterizada sobretudo por reflexos e instintos. A acção instintiva é regida por leis biológicas, idênticas na espécie e invariáveis de indivíduo para indivíduo. A rigidez dá a ilusão da perfeição quando o animal, especializado em determinados actos, os executa com extrema habilidade. Não há quem não tenha ainda observado com atenção e espanto o "trabalho" paciente da aranha tecendo a teia.

Mas esses actos não têm história, não se renovam e são os mesmos em todos os tempos, salvo as modificações determinadas pela evolução das espécies e as decorrentes de mutações genéticas. E mesmo quando há tais modificações, elas continuam a valer para todos os indivíduos da espécie e não permitem inovações, passando a ser transmitidas hereditariamente.

Em certas aves chamadas tentilhões, o hábito de fazer ninhos típicos da espécie é tão fixo que após cinco gerações em que essas aves eram criadas por canários, ainda continuavam a construí-los como antes.

O psicólogo Paul Guillaume explica que um acto inato não precisa de surgir desde o início da vida, pois muitas vezes aparece apenas mais tarde, no decorrer do desenvolvimento: as andorinhas novas, impedidas de voar até certa idade, realizam o primeiro vôo sem grande hesitação; os gatinhos não esboçam qualquer reacção diante de um rato, mas após o segundo mês de vida aparecem reacções típicas da espécie, como perseguição, captura, brincadeira com a presa, matança etc.

Na verdade os instintos são "cegos", ou seja, são uma actividade que ignora a sua finalidade. A vespa "fabrica" uma célula onde deposita o ovo junto ao qual coloca aranhas para que a larva, ao nascer, encontre alimento suficiente. Ora, se retirarmos as aranhas e o ovo, mesmo assim o insecto continuará a realizar todas as operações, terminando pelo fechamento adequado da célula, ainda que vazia. Esse comportamento é "cego" porque não leva em conta o sentido principal que deveria determinar a "fabricação" da célula, ou seja, a preservação do ovo e da futura larva.

O acto humano voluntário (a que podemos com propriedade chamar acção), em contrapartida, é consciente da sua finalidade, isto é, o acto existe antes como pensamento, como uma possibilidade, e a execução é o resultado da escolha dos meios necessários para atingir os fins propostos. Quando há interferências externas no processo, os planos também são modificados para se adequarem à nova situação.


 

A inteligência concreta

Nos níveis mais altos da escala zoológica, por exemplo com os mamíferos, as acções deixam de ser exclusivamente resultado de reflexos e instintos e apresentam uma plasticidade maior, característica dos actos inteligentes. Ao contrário da rigidez dos instintos, a resposta ao problema, ou à situação é nova, não programada biologicamente, é uma resposta inteligente, e como tal é improvisada, individual e criativa.

Por que é que o comportamento dos símios sempre nos provoca um olhar intrigante? Talvez porque, se os gestos do macaco o fazem assemelhar-se aos homens, ao mesmo tempo percebemos o abismo que separa os animais dos seres humanos, os únicos capazes de consciência de si.

Experiências interessantes foram realizadas pelo psicólogo gestaltista Kohler nas ilhas Canárias, onde instalou uma colónia de chimpanzés. Uma das experiências consiste em colocar um animal faminto numa jaula onde são penduradas bananas que o animal não consegue alcançar. O chimpanzé resolve o problema quando puxa um caixote e o coloca sob a fruta a fim de a alcançar. Segundo Kohler, a solução encontrada pelo chimpanzé não é imediata, mas há um momento em que o macaco tem a visão global do campo de acção e estabelece a relação entre o caixote e a fruta.

Esses dois elementos, o caixote e a banana, antes separados e independentes, passam a fazer parte de uma totalidade. É como se o animal percebesse uma realidade nova que lhe possibilita uma actividade não-planeada pela espécie. Portanto, não se trata mais de um acto instintivo, de simples reflexo, mas de um acto de inteligência.

A inteligência distingue-se do instinto pela sua flexibilidade, já que as respostas são diferentes conforme a situação e também por variarem de animal para animal. Tanto é que Sultão, um dos chimpanzés mais inteligentes que integraram a experiência de Kohler, foi o único que fez a proeza de encaixar um bambu noutro, para alcançar a fruta.

Trata-se, porém, de um tipo de inteligência concreta, porque depende da experiência vivida "aqui e agora". Mesmo quando o animal repete mais rapidamente o teste já aprendido, seu acto não domina o tempo, pois, a cada momento em que é executado, esgota-se no seu movimento.

Noutras palavras, o animal não inventa o instrumento, não o aperfeiçoa, nem o conserva para uso posterior. Portanto, o gesto útil não tem sequência e não adquire o significado de uma experiência propriamente dita. Mesmo que alguns animais organizem "sociedades" mais complexas e até aprendam formas de sobrevivência e as ensinem às suas crias, não há nada que se compare às transformações realizadas pelo homem enquanto criador de cultura.


 

As diferenças entre o homem e o animal não são apenas de grau, pois, enquanto o animal permanece mergulhado na natureza, o homem é capaz de transformá-la, tornando possível a cultura. O mundo resultante da acção humana é um mundo que não podemos chamar de natural, pois se encontra transformado pelo homem.

A palavra cultura também tem vários significados, tais como o de cultura da terra ou cultura de um homem letrado. Em antropologia, cultura significa tudo que o homem produz ao construir sua existência: as práticas, as teorias, as instituições, os valores materiais e espirituais. Se o conctato que o homem tem com o mundo é intermediado pelo símbolo, a cultura é o conjunto de símbolos elaborados por um povo em determinado tempo e lugar. Dada a infinita possibilidade de simbolizar, as culturas dos povos são múltiplas e variadas.

A cultura é, portanto, um processo de auto-libertação progressiva do homem, o que caracteriza como um ser de mutação, um ser que ultrapassa a própria experiência.

Quando o filósofo contemporâneo Gusdorf diz que "o homem não é o que é, mas é o que não é", não está a fazer um jogo de palavras. Ele quer dizer que o homem não se define por um modelo que o antecede, por uma essência que o caracteriza, nem é apenas o que as circunstâncias fizeram dele. Ele define-se pelo lançar-se no futuro, antecipando, por meio de um projecto, a sua acção consciente sobre o mundo.

Não há caminho feito, mas a fazer, não há modelo de conduta, mas um processo contínuo de estabelecimento de valores. Nada mais se apresenta como absolutamente certo e inquestionável.

É evidente que essa condição de certa forma fragiliza o homem, pois ele perde a segurança característica da vida animal, em harmonia com a natureza.

Ao mesmo tempo, o que parece ser a sua fragilidade é justamente a característica humana mais perfeita e mais nobre: a capacidade do homem de produzir a sua própria história.

 

Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, Filosofando, introdução à Filosofia, Ed. Moderna, S. Paulo, 1983.

 

 


 

Actividades:

  1. O aparecimento de crianças selvagens ao longo da história, intrigou os filósofos e os cientistas. Explique esse estranho fenómeno, atendendo à especificidade da natureza humana.

  2. Podemos dizer que os animais agem? Responda a esta questão recolhendo dados no texto acerca da dinstinção entre a liberdade e o instinto .

  3. Comente a seguinte afirmação de Gusdorf citada no texto:"o homem não é o que é, mas é o que não é".

 

SECÇÕES

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Apresentações:

"As crianças selvagens e as condicionantes da acção humana":

Ficheiro PPS

Ficheiro PDF

 

Ver em ecrã inteiro

Textos complementares:

 

Ficha 8

 

Ficha sobre o filme "O menino selvagem"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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