|
A vivência da liberdade
O problema do determinismo
“O que é que na nossa experiência nos
impossibilita abandonar a crença na liberdade da vontade? Se a liberdade
é uma ilusão, por que é que é uma ilusão que, aparentemente, somos
incapazes de abandonar? A primeira coisa a observar a propósito da
concepção da liberdade humana é que ela está essencialmente ligada à
consciência. Apenas atribuímos liberdade aos seres conscientes. Se, por
exemplo, alguém construir um robô que cremos ser totalmente
inconsciente, nunca sentiríamos qualquer inclinação a dizer que ele é
livre. Mesmo se achássemos o seu comportamento aleatório e impredizível,
não diríamos que actua livremente no sentido em que nos pensamos a nós
mesmos como agindo livremente. Se, por outro lado, alguém construir um
robô acerca do qual nos convencemos de que tem consciência, tal como nós
temos então, seria, pelo menos, uma questão aberta de se ou não este
robô tinha liberdade da vontade.
O segundo ponto a observar é que não
é qualquer estado da consciência que nos fornece a convicção da
liberdade humana. Se a vida consistisse inteiramente na recepção de
percepções passivas, então, parece-me que nunca conseguiríamos formar a
ideia da liberdade humana. Se nos imaginássemos a nós mesmos totalmente
imóveis, totalmente incapazes de nos movermos e incapazes até de
determinarmos o curso dos próprios pensamentos, mas, apesar de tudo,
recebendo estímulos, por exemplo, suaves sensações dolorosas periódicas,
não haveria a menor inclinação para concluirmos que temos liberdade da
vontade.
Disse antes que a maior parte dos
filósofos pensam que a convicção da liberdade humana está essencialmente
ligada ao processo da decisão racional. Mas penso que isso é só
parcialmente verdadeiro. De facto, ponderar razões é apenas um caso
muito especial da experiência que nos fornece a convicção da liberdade.
A experiência característica que nos dá a convicção da liberdade humana,
e é uma experiência da qual somos incapazes de arrancar a convicção da
liberdade, é a experiência de nos empenharmos em acções humanas
voluntárias e intencionais. <...> É esta experiência a pedra basilar da
nossa crença na liberdade da vontade. Porquê?
Reflictamos com todo o cuidado no
carácter das experiências que temos, quando nos empenhamos nas acções
humanas normais da vida de cada dia. Veremos a possibilidade de cursos
alternativos de acção incrustados nessas experiências. Levantemos o
braço ou, atravessemos a rua, ou bebamos um copo de água e veremos que
em qualquer ponto da experiência teremos um sentido de cursos
alternativos de acção para nós disponíveis.
Se alguém tentar expressar em
palavras a diferença entre a experiência de percepcionar e a experiência
de agir é que, na percepção, se tem esta sensação: «Isto está a
acontecer-me», e, na acção, a sensação é a seguinte: «Faço isto
acontecer.» Mas a sensação de que «faço isto acontecer» traz consigo a
sensação de que «poderia fazer alguma coisa mais». No comportamento
normal, cada coisa que fazemos suscita a convicção válida ou inválida de
que poderíamos fazer alguma coisa mais, aqui e agora, isto é,
permanecendo idênticas todas as outras condições. Eis, permito-me
afirmar, a fonte da nossa inabalável convicção na nossa vontade livre. É
talvez importante salientar que estou a discutir a acção humana normal.
Se alguém está a braços com uma grande paixão, se alguém se encontra
numa cólera imensa, por exemplo, perde esse sentido da liberdade e pode
mesmo surpreender-se ao descobrir o que está a fazer.
Desde que atentemos nesta
característica da experiência do agir, muitos dos fenómenos intrigantes
que antes mencionei facilmente se explicam. Por que é que, por
exemplo, o homem no caso da sugestão pós-hipnótica não está a agir
livremente no sentido em que nós somos livres, mesmo que ele possa
pensar que está a agir livremente? A razão é que, num sentido
importante, ele não sabe o que está a fazer. A sua efectiva intenção na
acção é totalmente inconsciente. As opções que ele vê disponíveis para
si são irrelevantes para a motivação efectiva da sua acção. “
John SEARLE, Mente, cérebro e
ciência.
Actividades:
1. Podemos afirmar que somos livres?
Justifique a sua resposta com base numa interpretação do texto.
2. Comente a seguinte afirmação do
texto: “A experiência característica que nos dá a convicção da
liberdade humana, e é uma experiência da qual somos incapazes de
arrancar a convicção da liberdade, é a experiência de nos empenharmos em
acções humanas voluntárias e intencionais.”
3.
Responda à questão sublinhada no texto,
a partir da distinção entre actos voluntários e actos involuntários.
__________________________________________________________
Exercício de aprofundamento:
Sente-se numa cadeira , feche os olhos e imagine que
o seu corpo começa, lentamente a ficar colado à cadeira, até que deixa
de conseguir movê-lo. Imagine, depois, que cada movimento que tenta
fazer o amarra ainda mais à cadeira. Nessa situação, procure pensar em
como se sentiria se essa sua experiência fosse, daí para diante,
permanente.
Depois, comece a levanta-se lentamente e sinta os
músculos a começar a obedecer às suas ordens, levante-se e estique os
braços (espreguiçando-se) e sinta a alegria da liberdade readquirida. No
fim do exercício, responda à questão: O que posso fazer de importante
com a minha liberdade?
|