Filosofia     Ficha B2

Aulas 10º Ano

As Principais Características da Filosofia

 Aristóteles diz-nos que a Filosofia começa com o espanto, com o reconhecimento da ignorância. De facto, quem reconhece a sua ignorância, não admite ficar nessa condição, uma vez que a ignorância é, no fundo, a incapacidade de dar sentido à vida e ao universo. É essa a mensagem da alegoria da caverna quem não se sabe ignorante vive fechado numa representação ilusória da vida: tudo, então, conspira para que os homens vivam acorrentados a um quotidiano estéril e sem perspectivas.

Quer na Grécia, quer na Índia, se fizermos o esforço de ver como filhas de um mesmo movimento de emancipação, a filosofia ocidental e a filosofia oriental, desde o início que essa motivação e esse quadro valorativo estão bem estabelecidos: o valor fundamental que dá sentido à indagação filosófica é a verdade. A filosofia é uma busca da verdade, uma busca de sentido.

E essa busca apresenta-se-nos, na palavra grega "filosofia" como amor à sabedoria.

Isto faz com que a Filosofia seja um saber radical. A Filosofia é radical porque vai à raiz dos problemas: o filósofo aprofunda ao máximo o seu questionamento, indo muito para além dos limites da ciência, pois esta está limitada pelo observável, não podendo ir para além da experiência efectiva da realidade. O filósofo pode ir mais longe, acabando por se expor mais ao erro, mas abrindo muitas vezes vias que mais tarde a ciência irá explorar com sucesso.

O pensamento filosófico é pessoal uma vez que cada filósofo não só vê o mundo à sua maneira, como também se questiona a partir das suas inquietações, envolvendo-se integralmente no seu questionamento: coloca-se em causa ao reconhecer a sua ignorância e faz uma verdadeira revolução interior ao procurar quebrar os limites do senso comum dentro do qual foi educado e que, com o passar dos anos, formou um conjunto de camadas de inconsciência que lhe roubou a visão correcta da realidade.

Temos, pois, a autonomia como a característica-chave da filosofia: os filósofos fazem um uso pleno da sua liberdade e seguem um caminho de independência face aos poderes que limitam a relação dos homens com o mundo. A filosofia é um saber independente dos outros saberes e dos poderes instituídos nas sociedades, bem como dos valores dominantes, sejam eles de origem social, cultural ou religiosa.

Por tudo isto se pode concluir a filosofia é um exercício profundo da racionalidade e, enquanto saber racional, os seus conteúdos, embora assentem numa aventura pessoal do pensar, são universais: quando um filósofo se interroga, não está à procura de uma resposta que satisfaça a sua curiosidade emocional e subjectiva, dirige-se à Razão enquanto faculdade de pensar, procura estabelecer um quadro racional que dê sentido a realidade. O filósofo não quer persuadir os outros de que tem razão, mas procura, acima de tudo, que os outros homens, sejam eles filósofos ou não, reconheçam a validade dos argumentos empregues em defesa de uma tese racionalmente formulada e orientada para a descoberta da verdade acerca do real. Por exemplo, ao questionar-se sobre o homem, o filósofo procura esclarecer a natureza de todos os homens, independentemente das características individuais que tornam os homens diferentes entre si.

Mas não devemos confundir a universalidade da filosofia, enquanto exigência de racionalidade, com qualquer forma de dogmatismo. A filosofia é, desde a sua origem, um saber anti-dogmático, para os filósofos não há verdades inquestionáveis e absolutas, imutáveis e desligadas da realidade que efectivamente vivemos, uma realidade em constante mudança, marcada pela acção transformadora do homem sobre a Natureza e pelos grandes movimentos que marcam a tecitura histórica do mundo.

A filosofia é marcada pela historicidade inerente à condição humana, nada que se refira ao homem, encarado como indivíduo ou como espécie, foge à mudança, pois o tempo faz parte da existência humana e todos os homens estão condenados a ser e a passar, pois somos mortais e temos a consciência da nossa mortalidade e da evanescência de tudo o que criamos.

Assim, a filosofia é marcada pela história, tem uma tradição duas vezes milenar que serve de base à indagação filosófica em cada momento histórico. E a par da tradição existe a inovação: em cada época surgem novos problemas que vêm enriquecer o património da racionalidade filosófica e cada filósofo, ao assumir a sua aventura filosófica, é original e inovador, acrescenta algo aos modos de ver que são próprios da filosofia. Por isso a filosofia está sempre aberta ao espanto e ao alargamento dos horizontes do saber e do viver sob o signo da verdade.

 

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Actividades:

  1. Concorda com a afirmação do texto, segundo a qual a característica-chave da filosofia é a autonomia? Justifique a sua resposta.

  2. Tendo em conta as características da filosofia apresentadas o texto, confronte a filosofia com o senso comum.

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