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Aristóteles diz-nos que a Filosofia começa com o
espanto, com o reconhecimento da ignorância. De facto, quem reconhece a
sua ignorância, não admite ficar nessa condição, uma vez que a
ignorância é, no fundo, a incapacidade de dar sentido à vida e ao
universo. É essa a mensagem da alegoria da caverna quem não se sabe
ignorante vive fechado numa representação ilusória da vida: tudo, então,
conspira para que os homens vivam acorrentados a um quotidiano estéril e
sem perspectivas.
Quer na Grécia, quer na Índia, se fizermos o esforço
de ver como filhas de um mesmo movimento de emancipação, a filosofia
ocidental e a filosofia oriental, desde o início que essa motivação e
esse quadro valorativo estão bem estabelecidos: o valor fundamental que
dá sentido à indagação filosófica é a verdade. A filosofia é uma busca
da verdade, uma busca de sentido.
E essa busca apresenta-se-nos, na palavra grega
"filosofia" como amor à sabedoria.
Isto faz com que a Filosofia seja um saber radical.
A Filosofia é radical porque vai à raiz dos problemas: o filósofo
aprofunda ao máximo o seu questionamento, indo muito para além dos
limites da ciência, pois esta está limitada pelo observável, não podendo
ir para além da experiência efectiva da realidade. O filósofo pode ir
mais longe, acabando por se expor mais ao erro, mas abrindo muitas vezes
vias que mais tarde a ciência irá explorar com sucesso.
O pensamento filosófico é pessoal uma vez que
cada filósofo não só vê o mundo à sua maneira, como também se questiona
a partir das suas inquietações, envolvendo-se integralmente no seu
questionamento: coloca-se em causa ao reconhecer a sua ignorância e faz
uma verdadeira revolução interior ao procurar quebrar os limites do
senso comum dentro do qual foi educado e que, com o passar dos anos,
formou um conjunto de camadas de inconsciência que lhe roubou a visão
correcta da realidade.
Temos, pois, a autonomia como a
característica-chave da filosofia: os filósofos fazem um uso pleno da
sua liberdade e seguem um caminho de independência face aos poderes que
limitam a relação dos homens com o mundo. A filosofia é um saber
independente dos outros saberes e dos poderes instituídos nas
sociedades, bem como dos valores dominantes, sejam eles de origem
social, cultural ou religiosa.
Por tudo isto se pode concluir a filosofia é um
exercício profundo da racionalidade e, enquanto saber racional, os seus
conteúdos, embora assentem numa aventura pessoal do pensar, são
universais: quando um filósofo se interroga, não está à procura de
uma resposta que satisfaça a sua curiosidade emocional e subjectiva,
dirige-se à Razão enquanto faculdade de pensar, procura estabelecer um
quadro racional que dê sentido a realidade. O filósofo não quer
persuadir os outros de que tem razão, mas procura, acima de tudo, que os
outros homens, sejam eles filósofos ou não, reconheçam a validade dos
argumentos empregues em defesa de uma tese racionalmente formulada e
orientada para a descoberta da verdade acerca do real. Por exemplo, ao
questionar-se sobre o homem, o filósofo procura esclarecer a natureza de
todos os homens, independentemente das características individuais que
tornam os homens diferentes entre si.
Mas não devemos confundir a universalidade da
filosofia, enquanto exigência de racionalidade, com qualquer forma de
dogmatismo. A filosofia é, desde a sua origem, um saber
anti-dogmático, para os filósofos não há verdades inquestionáveis e
absolutas, imutáveis e desligadas da realidade que efectivamente
vivemos, uma realidade em constante mudança, marcada pela acção
transformadora do homem sobre a Natureza e pelos grandes movimentos que
marcam a tecitura histórica do mundo.
A filosofia é marcada pela historicidade
inerente à condição humana, nada que se refira ao homem, encarado como
indivíduo ou como espécie, foge à mudança, pois o tempo faz parte da
existência humana e todos os homens estão condenados a ser e a passar,
pois somos mortais e temos a consciência da nossa mortalidade e da
evanescência de tudo o que criamos.
Assim, a filosofia é marcada pela história, tem uma
tradição duas vezes milenar que serve de base à indagação filosófica em
cada momento histórico. E a par da tradição existe a inovação: em cada
época surgem novos problemas que vêm enriquecer o património da
racionalidade filosófica e cada filósofo, ao assumir a sua aventura
filosófica, é original e inovador, acrescenta algo aos modos de ver que
são próprios da filosofia. Por isso a filosofia está sempre aberta ao
espanto e ao alargamento dos horizontes do saber e do viver sob o signo
da verdade.
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Actividades:
-
Concorda com a afirmação do texto,
segundo a qual a característica-chave da filosofia é a autonomia?
Justifique a sua resposta.
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Tendo em conta as características da
filosofia apresentadas o texto, confronte a filosofia com o
senso comum.
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