Filosofia

Módulo

de reflexão 1

Como sair da Matrix?

                                                  Aulas 10º Ano                          

Neste módulo de reflexão temática, vamos explorar algumas vias filosóficas para sairmos do impasse quanto a podermos provar que a realidade é real, e não uma ilusão criada por um super-computador ou outro mecanismo enganador.

Descartes oferece-nos uma via muito interessante para sairmos dessa dificuldade, uma vez que nos apresenta um método filosófico que parte da dúvida e que, segundo ele, nos pode conduzir à verdade. A sua ideia é aparentemente simples:

Já que temos consciência de que muitas coisas que fomos aprendendo ao longo da vida estão erradas, a melhor forma de proceder com vista a encontrarmos um critério que nos permita distinguir a verdade da falsidade e, dessa forma, alcançarmos um conhecimento verdadeiro, sobre o qual possamos erigir um sólido edifício do saber, é começarmos por pôr tudo em dúvida. Se na nossa mente houver algum conhecimento verdadeiro, evidente, então não poderemos duvidar dele, uma vez que a verdade resiste à dúvida.

Tendo isto em mente, Descartes pôs em dúvida todos os seus conhecimentos, todas as suas crenças sobre a existência do mundo material, sobre os valores da sociedade, ou os princípios das ciências. Até que descobriu algo de indubitável:

 

“Não podemos duvidar de que existimos quando duvidamos; e este é o primeiro conhecimento que obtemos filosofando com ordem.

Assim, rejeitando todas aquelas coisas de que podemos duvidar de algum modo, e até mesmo imaginando que são falsas, facilmente supomos que não existe nenhum Deus, nenhum céu, nenhuns corpos; e que nós mesmos não temos mãos nem pés, nem de resto corpo algum; mas não assim que nada somos, nós que tais coisas pensamos: pois repugna que se admita que aquele que pensa, no próprio momento em que pensa, não exista. E, por conseguinte, este conhecimento, eu penso, logo existo, é o primeiro e mais certo de todos, que ocorre a quem quer que filosofa com ordem.”

                              Descartes, Princípios da Filosofia, I Parte

 

 

Ora, aplicando este texto ao enigma com que nos deparámos na Ficha A4, sobre a dificuldade em provarmos que não estamos ligados à Matrix ou que o nosso cérebro não está dentro de um aquário, ligado a um computador que gera a ilusão de que vivemos uma vida normal, chegamos à conclusão que nada nos pode enganar acerca da nossa própria existência e acerca do facto de possuirmos uma mente capaz de pensar e de se conhecer a si própria.

Pode não ser muito para começar, mas é já uma base suficientemente sólida para podermos começar: independentemente de podermos estar, ou não, a ser enganados sobre a existência do mundo material, nada ou ninguém pode obrigar-nos a não pensar, ou a pensar nisto ou naquilo, a esse nível, enquanto estamos conscientes, somos plenamente livres. Como diz um verso dum poema de Carlos Oliveira, que marcou a luta contra o fascismo, “Não há machado que corte a raiz ao pensamento”:

 

“Não há machado que corte
a raiz ao pensamento
não há morte para o vento
não há morte

Se ao morrer o coração
morresse a luz que lhe é querida
sem razão seria a vida
sem razão

Nada apaga a luz que vive
num amor num pensamento
porque é livre como o vento
porque é livre”

 

Mesmo que não consigamos provar que não estamos a ser iludidos acerca da existência da realidade interior, sabemos que a interioridade da nossa mente é um mundo que podemos explorar e onde possuímos uma liberdade que nada de exterior, em condições normais, pode condicionar. Assim, uma das ideias que surgem quando observamos o nosso espírito, é a ideia de ordem.

A nossa razão pensa seguindo uma ordem e o que caracteriza a racionalidade é, precisamente, a ordem lógica.

Se partirmos daqui, podemos ver que o que diferencia a realidade do sonho, é que a realidade segue uma ordem causal ininterrupta, ou seja, os acontecimentos sucedem-se e essa sucessão nunca sofre anomalias. Quando acordamos de manhã, encontramos tudo no seu sítio, e apercebemo-nos naturalmente que voltamos a inserir-nos na ordem do mundo e se nos lembramos dos sonhos nocturnos, o primeiro aspecto que notamos é a sua desordem, a sua incoerência. Isto talvez não nos liberte de imediato da Matrix, mas dá-nos algumas ferramentas para podermos, quanto mais não seja, pôr as nossas ideias em ordem.

Neste sentido, Descartes foi mais longe na sua busca da verdade: com base na sua descoberta da verdade radical “penso, logo existo”, formulou um método, fundado na ideia de ordem. Esse método compõe-se de quatro regras que, segundo Descartes, permitem eliminar os erros e fundar um conhecimento verdadeiro:

 

 

  “A primeira regra era a de nunca aceitar coisa alguma por verdadeira, sem que a conhecesse evidentemente como tal: quer dizer, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; e não aceitar nada nos meus juízos, senão o que se me apresentasse tão clara e distintamente ao meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de o colocar em dúvida.

    A segunda, dividir cada uma das dificuldades que examinasse em tantas parcelas quantas fosse possível e quantas fossem necessárias para melhor as resolver.

    A terceira, conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até ao conhecimento dos mais compostos; e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros.

    E a última, de fazer sempre enumerações tão completas, e revisões tão gerais, que estivesse seguro de nada omitir.”

Descartes, Discurso do Método, II Parte, (texto adaptado).

 

 

Talvez não possamos mesmo provar que não somos um cérebro naquelas circunstâncias. Mas se estivéssemos perante uma pessoa que nos fizesse fazer crer que somos aquele cérebro, poderíamos tentar inverter o ónus da prova: poderíamos pedir-lhe que nos provasse que estamos naquela situação.

Duvido que ela nos conseguisse apresentar provas concludentes em favor da sua tese…

Podemos, no entanto, aplicar aqui a mesma argumentação que um filósofo francês do século XVII, Blaise Pascal, utilizou em relação ao problema da existência de Deus. Pascal defende que, perante a impossibilidade de encontrar uma resposta concludente, indubitável, para o problema da existência de Deus (pois não podemos provar racionalmente, quer a sua existência, quer a sua inexistência), só nos resta apostar na alternativa que consideremos mais forte.

Se estivéssemos a jogar a dinheiro e tivéssemos que apostar numa de duas alternativas, decerto que escolheríamos a alternativa mais vantajosa: se uma das alternativas nos desse um prémio muito pequeno e a outra nos permitisse transformar o dinheiro da aposta numa fortuna incalculável, qual das duas alternativas escolheríamos? É claro que a segunda seria quase irresistível, sobretudo se tivéssemos que apostar todo o nosso dinheiro!

Havendo 50% de hipótese de acertar (tendo ambas as alternativas a mesma chance de calhar), se apostássemos na alternativa menos vantajosa, perderíamos sempre… Se ganhássemos ficaríamos com muito menos dinheiro do que ganharíamos se tivéssemos escolhido a outra alternativa e esta tivesse sido a sorteada. Se perdêssemos, perderíamos tudo.

No caso de apostarmos na segunda alternativa só teríamos uma chance de perder: perderíamos o nosso dinheiro se a nossa escolha não tivesse sido a acertada. Mas se a nossa alternativa fosse a contemplada, ganharíamos tudo!

Assim, segundo Pascal, devemos apostar na existência de Deus e viver como se ele existisse, pois se estivermos errados e não houver vida depois da morte, perdemos tudo, mas se, por outro lado, Deus existir, então ganhamos tudo se, como é natural, essa aposta se traduzir numa vida correcta em termos morais.

Mas voltemos à nossa questão, pois não nos interessa aqui a questão da existência de Deus, uma vez que a nossa questão remete para a existência do mundo exterior (e do nosso corpo como elemento do mesmo mundo).

Podemos aplicar a este problema o mesmo argumento que Pascal emprega em relação ao problema da existência de Deus.

Qual das duas alternativas é mais vantajosa: 1) Sou um cérebro num aquário; 2) Sou um ser humano de carne e osso?

É claro que somos naturalmente compelidos a apostar tudo na segunda hipótese, pois o que teríamos a ganhar com a primeira hipótese? Se a escolhêssemos só teríamos a perder, pois tudo aquilo em que acreditámos até agora se desmoronaria, irremediavelmente. E, assim, se escolhêssemos a primeira hipótese perderíamos sempre, pois mesmo que a nossa escolha não fosse a correcta, o mais certo seria acordarmos um dia num quarto acolchoado de um manicómio.

Com a escolha da segunda hipótese ganhamos sempre: mesmo que sejamos, de facto, um cérebro num aquário, teríamos uma vida muito mais feliz se não acreditássemos nesse hipótese. Teríamos, nesse caso, alguma vantagem em conhecer a verdade?

Talvez não (o "talvez" é irónico).

Por muito estranho que isso nos pareça, a nossa situação no mundo impede-nos de, a nível subjectivo, darmos conta e de explicarmos todos os seus contornos. Isto porque a experiência imediata que temos do mundo, através dos nossos sentidos, e que serve de base ao senso comum, é, em si mesma, "ilusória". Os dados que recebemos através do sentidos têm que ser processados pelo cérebro, de acordo com estruturas de origem biológica ( estruturas hereditárias, próprias da nossa espécie), bem como de acordo com uma representação da realidade que vai sendo construída a partir das nossas relações com o que nos rodeia e que molda a forma como vemos o mundo.

 

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