Objectivos: 

  • Interpretar um texto de carácter alegórico.

  • Compreender que o sentido da nossa existência depende da  nossa atitude perante a vida.

  • Reconhecer a necessidade de uma reflexão sobre a situação em que vivemos.

Filosofia     Ficha A1

Aulas    11º Ano

Sumário: Apresentação.

                         A nossa atitude perante a vida e o sentido da existência.

A vida vivida

 

“Esta é a história de um homem a quem eu definiria como um pesquisador.

Um pesquisador é alguém que busca; não necessariamente alguém que encontra.

Tão-pouco é alguém que, necessariamente, saiba o que anda a buscar. É simplesmente alguém para quem a vida é uma busca.

Um dia, o pesquisador sentiu que devia ir até à cidade de Kamir. Tinha aprendido a respeitar rigorosamente aquelas sensações que vi­nham de um lugar desconhecido. Por isso deixou tudo e partiu.

Depois de dois dias de marcha pelos caminhos empoeirados, avis­tou, ao longe, Kamir. Um pouco antes de chegar à povoação, cha­mou-lhe vivamente a atenção uma colina à direita da azinhaga. Estava atapetada de um verde maravilhoso e tinha uma grande quantidade de árvores, pássaros e flores encantadoras. Estava inteiramente rodeado­ por um pequeno muro de madeira brilhante.

Uma portazinha de bronze convidava-o a entrar.

Sentiu logo que o povoado lhe fugia da memória e sucumbiu à tentação de descansar por um momento naquele lugar.

O pesquisador ultrapassou o portal e começou a caminhar lenta­mente por entre as pedras brancas que estavam dispostas ao acaso entre as árvores.

Deixou que os seus olhos se pousassem como borboletas em cada pormenor daquele paraíso multicolor.

Os seus olhos eram os de um pesquisador, e foi talvez por isso que descobriu aquela inscrição sobre uma das pedras:

 

Abdul Tareg, viveu 8 anos, 5 meses, 2 semanas e 3 dias.

 

Ficou um pouco surpreendido ao dar-se conta de que aquela pedra não era simplesmente uma pedra: era uma lápide.

Sentiu pena ao pensar que um menino de tão tenra idade estava enterrado naquele lugar.

Olhando à sua volta, o homem deu-se conta de que a pedra ao lado também tinha uma inscrição. Aproximou-se para a ler. Dizia:

 

Yamir Kalib, viveu 5 anos, 8 meses e 3 semanas.

 

O pesquisador sentiu-se terrivelmente comovido.

Aquele lindo lugar era um cemitério, e cada pedra era uma campa. Começou a ler as lápides uma por uma.

Todas tinham inscrições semelhantes: um nome e o tempo exacto de vida do morto.

Mas o que o enleou de espanto foi comprovar que aquele que tinha vivido mais tempo mal ultrapassava os onze anos... Paralisado por uma dor terrível, sentou-se e pôs-se a chorar.

O encarregado do cemitério passava por ali e aproximou-se.

     Observou-o a chorar durante algum tempo em silêncio e perguntou-lhe se chorava por algum familiar.

- Não, não é por nenhum familiar - disse o pesquisador. - Que se passa nesta povoação? Que coisa tão terrível acontece nesta cidade? Porque é que há tantas crianças mortas enterradas neste lugar? Qual é a maldição horrível que pesa sobre estas pessoas, que as obrigou a construir um cemitério de crianças?

O ancião sorriu e disse:

-O senhor pode tranquilizar-se. Não existe uma tal maldição. O que acontece é que temos um costume antigo. Vou-lho contar:

«Quando um jovem completa quinze anos, os seus pais oferecem­-lhe um livrete como este que tenho aqui, para que o pendure ao pescoço. É tradição entre nós que, a partir desse momento, de cada vez que alguém desfrute intensamente de alguma coisa, abra o livrete e anote nele:

 

À esquerda, o que foi desfrutado.

A direita, quanto tempo durou o prazer.

 

Conheceu a sua noiva e enamorou-se dela. Quanto tempo durou essa paixão enorme e o prazer de a conhecer? Uma semana? Duas? Três semanas e meia...?

E depois, a emoção do primeiro beijo, o prazer maravilhoso do primeiro beijo... Quanto durou? O minuto e meio do beijo? Dois dias? Uma semana?

E a gestação e o nascimento do primeiro filho...? E as bodas dos amigos?

E a viagem mais desejada?

E o encontro com o irmão que regressa de um país longínquo?

Quanto tempo durou o desfrutar destas situações?

Horas? Dias?

Assim, vamos anotando no livrete cada momento que desfrutamos… Cada momento.

Quando alguém morre é nosso costume abrir o seu livrete e somar o tempo em que sentiu prazer, para o escrever sobre a sua campa.

Porque é esse quanto a nós o único e verdadeiro TEMPO VIVIDO».”

                                                    Jorge Bucay, Contos para pensar.

 

 

 

 

Actividades:

 

1 -  O que significa viver? Podemos afirmar que grande parte da nossa vida não tem sentido? Justifique a sua resposta com base numa interpretação do texto.

2 -   O que podemos fazer para alargarmos os períodos (mais) significativos da nossa vida? Justifique a sua resposta tendo em conta os obstáculos que poderemos ter que enfrentar.

3 - Procure 3 períodos da sua vida que possam contribuir, de forma positiva, para a contabilidade da sua VIDA VIVIDA.

Exercício de aprofundamento:

- Até ao início da próxima aula, anote todos os momentos em que se sinta a viver verdadeiramente, anotando, também a duração desses momentos. Antes do início da próxima aula faça a soma do seu tempo de VIDA VIVIDA durante esse período.

 

SECÇÕES

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O Espanto recomenda:

Jorge Bucay, Contos para pensar, Ed. Pergaminho.

Apresentação:

O que é viver?

 

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