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A
busca
da verdade
A Filosofia não é um
conjunto de ideias e de sistemas que possamos apreender automaticamente,
não é um passeio turístico pelas paisagens intelectuais, mas uma decisão
ou deliberação orientada por um valor: a verdade. É o desejo do
verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias.
Afirmar que a verdade é um
valor significa: o verdadeiro confere às coisas, aos seres humanos, ao
mundo um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à
verdade e à falsidade.<…>
O desejo da verdade aparece
muito cedo nos seres humanos como desejo de confiar nas coisas e nas
pessoas, isto é, de acreditar que as coisas são exactamente tais como as
percebemos e o que as pessoas nos dizem é digno de confiança e crédito.
Ao mesmo tempo, a nossa vida cotidiana é feita de pequenas e grandes
decepções e, por isso, desde cedo, vemos as crianças perguntarem aos
adultos se algo é “verdade ou a fingir”.
Quando uma criança ouve uma
história, inventa uma brincadeira ou um brinquedo, quando joga, vê um
filme ou uma peça teatral, está sempre atenta para saber se “é de
verdade ou de mentira”, está sempre atenta para a diferença entre o “de
mentira” e a mentira propriamente dita, isto é, para a diferença entre
brincar, jogar, fingir e faltar à confiança. <…>
Por isso mesmo, a criança é
muito sensível à mentira dos adultos, pois a mentira é diferente do “a
fingir”, isto é, a mentira é diferente da imaginação e a criança
sente-se ferida, magoada, angustiada quando o adulto lhe diz uma
mentira, porque, ao fazê-lo, quebra a relação de confiança e a segurança
infantis. <…>
A criança não se decepciona
nem se desilude com o “faz-de-conta” porque sabe que é um
“faz-de-conta”. Ela decepciona-se ou desilude-se quando descobre que
querem que ela acredite como sendo “verdade” alguma coisa que ela sabe
ou que ela supunha que fosse “de faz-de-conta”, isto é, decepciona-se e
desilude-se quando descobre a mentira. Os jovens decepcionam-se e
desiludem-se quando descobrem que o que lhes foi ensinado e lhes foi
exigido oculta a realidade, reprime a sua liberdade, diminui a sua
capacidade de compreensão e de acção. Os adultos desiludem-se ou
decepcionam-se quando enfrentam situações para as quais o saber
adquirido, as opiniões estabelecidas e as crenças enraizadas nas suas
consciências não são suficientes para que compreendam o que se passa nem
para que possam agir ou fazer alguma coisa.
Assim, seja na criança,
seja nos jovens ou nos adultos, a busca da verdade está sempre ligada a
uma decepção, a uma desilusão, a uma dúvida, a uma perplexidade, a uma
insegurança ou, então, a um espanto e uma admiração diante de algo novo
e insólito.
Na nossa sociedade, é muito
difícil despertar nas pessoas o desejo de buscar a verdade. Pode parecer
paradoxal que assim seja, pois parecemos viver numa sociedade que
acredita nas ciências, que luta por escolas, que recebe durante 24 horas
diárias informações vindas de jornais, rádios e televisões, que possui
editoras, livrarias, bibliotecas, museus, salas de cinema e de teatro,
vídeos, fotografias e computadores.
Ora, é justamente essa
enorme quantidade de veículos e formas de informação que acaba por
tornar tão difícil a busca da verdade, pois toda a gente acredita que
está a receber, de modos variados e diferentes, informações científicas,
filosóficas, políticas, artísticas e que tais informações são
verdadeiras, sobretudo porque tal quantidade informativa ultrapassa a
experiência vivida pelas pessoas, que, por isso, não têm meios para
avaliar o que recebem.
Bastaria, no entanto, que
uma mesma pessoa, durante uma semana, lesse de manhã quatro jornais
diferentes e ouvisse três noticiários de rádio diferentes; à tarde,
frequentasse duas escolas diferentes, onde os mesmos cursos estariam a
ser ministrados; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais
diferentes de televisão, para que, comparando todas as informações
recebidas, descobrisse que elas “não batem” umas com as outras, que há
vários “mundos” e várias “sociedades” diferentes, dependendo da fonte de
informação.
Uma experiência como essa
criaria perplexidade, dúvida e incerteza. Mas as pessoas não fazem ou
não podem fazer tal experiência e por isso não percebem que, em lugar de
receber informações, estão a ser desinformadas. E, sobretudo, como há
outras pessoas (o jornalista, o professor, o médico, o polícia, o
repórter) a dizer-lhes o que devem saber, o que podem saber, o que podem
e devem fazer ou sentir, confiando na palavra desses “emissores de
mensagens”, as pessoas sentem-se seguras e confiantes, e não há
incerteza porque há ignorância.
Uma outra dificuldade para
fazer surgir o desejo da busca da verdade, na nossa sociedade, vem da
publicidade.
A publicidade trata todas
as pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – como crianças
extremamente ingénuas e crédulas. O mundo é sempre um mundo “de
faz-de-conta”: nele a margarina fresca torna a família bonita, alegre,
unida e feliz; o automóvel torna o homem confiante, inteligente, belo,
sedutor, bem-sucedido nos negócios, cheio de namoradas lindas; o
desodorizante torna a rapariga bonita, atraente, bem empregada, bem
vestida, com um belo apartamento e lindos namorados; o cigarro leva as
pessoas para belíssimas paisagens exóticas, cheias de aventura e de
negócios coroados de sucesso que terminam com lindos jantares à luz de
velas.
A publicidade nunca vende
um produto dizendo o que ele é e para que serve. Ela vende o produto
rodeando-o de magias, belezas, dando-lhe qualidades que são de outras
coisas (a criança saudável, o jovem bonito, o adulto inteligente, o
idoso feliz, a casa agradável, etc.), produzindo um eterno
“faz-de-conta”.
Uma outra dificuldade para
o desejo da busca da verdade vem da atitude dos políticos nos quais as
pessoas confiam, ouvindo os seus programas, as suas propostas, os seus
projectos enfim, dando-lhes o voto e vendo-se, depois, ludibriadas, não
só porque não são cumpridas as promessas, mas também porque há
corrupção, mau uso do dinheiro público, crescimento das desigualdades e
das injustiças, da miséria e da violência.
Em vista disso, a tendência
das pessoas é julgar que é impossível a verdade na política, passando a
desconfiar do valor e da necessidade da democracia e aceitando “vender”
o seu voto por alguma vantagem imediata e pessoal, ou caem na descrença
e no cepticismo.
No entanto, essas
dificuldades podem ter o efeito oposto, isto é, suscitar em muitas
pessoas dúvidas, incertezas, desconfianças e desilusões que as façam
desejar conhecer a realidade, a sociedade, a ciência, as artes, a
política. Muitos começam a não aceitar no que lhes é dito. Muitos
começam a não acreditar no que lhes é mostrado. E, como
Sócrates em
Atenas, começam a fazer perguntas, a indagar sobre factos e pessoas,
coisas e situações, a exigir explicações, a exigir liberdade de
pensamento e de conhecimento.
Para essas pessoas, surge o
desejo e a necessidade da busca da verdade. Essa busca nasce não só da
dúvida e da incerteza, nasce também da acção deliberada contra os
preconceitos, contra as ideias e as opiniões estabelecidas, contra
crenças que paralisam a capacidade de pensar e de agir livremente.
Podemos, dessa maneira,
distinguir dois tipos de busca da verdade. O primeiro é o que nasce da
decepção, da incerteza e da insegurança e, por si mesmo, exige que
saiamos de tal situação readquirindo certezas. O segundo é o que nasce
da deliberação ou decisão de não aceitar as certezas e
crenças estabelecidas, de ir além delas e de encontrar explicações,
interpretações e significados para a realidade que nos cerca. Esse
segundo tipo é a busca da verdade na atitude filosófica.
Podemos oferecer dois
exemplos célebres dessa busca filosófica. Já falámos do primeiro:
Sócrates andando pelas ruas e praças de Atenas questionando os
atenienses sobre o que eram as coisas e ideias em que acreditavam. O
segundo exemplo é o do filósofo
Descartes.
Descartes começa sua obra
filosófica fazendo um balanço de tudo o que sabia: o que lhe fora
ensinado pelos preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens,
pelo convívio com outras pessoas. No fim, conclui que tudo quanto
aprendera, tudo quanto sabia e tudo quanto conhecera pela experiência
era duvidoso e incerto. Decide, então, não aceitar nenhum desses
conhecimentos, a menos que pudesse provar racionalmente que eram certos
e dignos de confiança. Para isso, submete todos os conhecimentos
existentes na sua época, e os seus próprios, a um exame crítico
conhecido como dúvida metódica, declarando que só aceitará um
conhecimento, uma ideia, um facto ou uma opinião se, passados pelo crivo
da dúvida, se revelarem indubitáveis para o pensamento puro. Ele os
submete à análise, à dedução, à indução, ao raciocínio e conclui que,
até o momento, há uma única verdade indubitável que poderá ser aceite e
que deverá ser o ponto de partida para a reconstrução do edifício do
saber.
Essa única verdade é:
“Penso, logo existo”, pois, se eu duvidar de que estou a pensar,
ainda estou a pensar, visto que duvidar é uma maneira de pensar. A
consciência do pensamento aparece, assim, como a primeira verdade
indubitável que será o alicerce para todos os conhecimentos futuros.
Marilena Chaui, Convite à Filosofia,
Ed. Ática, São Paulo, 2000.
Actividades:
1 -
O que é a verdade? Fundamente a sua resposta relacionando o conceito de
verdade com o conceito de mudança.
2
- Porque é que o texto afirma que "é
o desejo do verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias"?
Justifique a sua resposta.
Exercício de aprofundamento:
- Pare por uns minutos a sua rotina diária e sente-se
num local sossegado e relaxe por uns momentos. Procure imaginar como
seria se não existisse nenhuma verdade na sua vida, ou seja, se
descobrisse que tudo o que pensa ser verdadeiro é falso. Depois, medite
no imenso valor das "pequenas" verdades que estão presentes na sua vida.
Depois disto, escreva um pequeno texto sobre:
a) A verdade que tem mais importância na sua vida.
b) A maior decepção que teve até hoje (ao descobrir
que a falsidade de algo que julgava verdadeiro).
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