Objectivos: 

  • Problematizar o conceito de verdade.

  • Reconhecer que a busca da verdade é o fundamento da indagação filosófica.

  • Compreender que a distinção entre a verdade e a falsidade é fundamental para podermos compreender a realidade em que vivemos.

  • Compreender a relação entre verdade e sentido.

Filosofia     Ficha A2

Aulas    11º Ano

Sumário: A busca da verdade como o fundamento da indagação filosófica.

                        A dúvida metódica.

A busca da verdade

 

A Filosofia não é um conjunto de ideias e de sistemas que possamos apreender automaticamente, não é um passeio turístico pelas paisagens intelectuais, mas uma decisão ou deliberação orientada por um valor: a verdade. É o desejo do verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias.

Afirmar que a verdade é um valor significa: o verdadeiro confere às coisas, aos seres humanos, ao mundo um sentido que não teriam se fossem considerados indiferentes à verdade e à falsidade.<…>

O desejo da verdade aparece muito cedo nos seres humanos como desejo de confiar nas coisas e nas pessoas, isto é, de acreditar que as coisas são exactamente tais como as percebemos e o que as pessoas nos dizem é digno de confiança e crédito. Ao mesmo tempo, a nossa vida cotidiana é feita de pequenas e grandes decepções e, por isso, desde cedo, vemos as crianças perguntarem aos adultos se algo é “verdade ou a fingir”.

Quando uma criança ouve uma história, inventa uma brincadeira ou um brinquedo, quando joga, vê um filme ou uma peça teatral, está sempre atenta para saber se “é de verdade ou de mentira”, está sempre atenta para a diferença entre o “de mentira” e a mentira propriamente dita, isto é, para a diferença entre brincar, jogar, fingir e faltar à confiança. <…>

Por isso mesmo, a criança é muito sensível à mentira dos adultos, pois a mentira é diferente do “a fingir”, isto é, a mentira é diferente da imaginação e a criança sente-se ferida, magoada, angustiada quando o adulto lhe diz uma mentira, porque, ao fazê-lo, quebra a relação de confiança e a segurança infantis. <…>

A criança não se decepciona nem se desilude com o “faz-de-conta” porque sabe que é um “faz-de-conta”. Ela decepciona-se ou desilude-se quando descobre que querem que ela acredite como sendo “verdade” alguma coisa que ela sabe ou que ela supunha que fosse “de faz-de-conta”, isto é, decepciona-se e desilude-se quando descobre a mentira. Os jovens decepcionam-se e desiludem-se quando descobrem que o que lhes foi ensinado e lhes foi exigido oculta a realidade, reprime a sua liberdade, diminui a sua capacidade de compreensão e de acção. Os adultos desiludem-se ou decepcionam-se quando enfrentam situações para as quais o saber adquirido, as opiniões estabelecidas e as crenças enraizadas nas suas consciências não são suficientes para que compreendam o que se passa nem para que possam agir ou fazer alguma coisa.

Assim, seja na criança, seja nos jovens ou nos adultos, a busca da verdade está sempre ligada a uma decepção, a uma desilusão, a uma dúvida, a uma perplexidade, a uma insegurança ou, então, a um espanto e uma admiração diante de algo novo e insólito.

Na nossa sociedade, é muito difícil despertar nas pessoas o desejo de buscar a verdade. Pode parecer paradoxal que assim seja, pois parecemos viver numa sociedade que acredita nas ciências, que luta por escolas, que recebe durante 24 horas diárias informações vindas de jornais, rádios e televisões, que possui editoras, livrarias, bibliotecas, museus, salas de cinema e de teatro, vídeos, fotografias e computadores.

Ora, é justamente essa enorme quantidade de veículos e formas de informação que acaba por tornar tão difícil a busca da verdade, pois toda a gente acredita que está a receber, de modos variados e diferentes, informações científicas, filosóficas, políticas, artísticas e que tais informações são verdadeiras, sobretudo porque tal quantidade informativa ultrapassa a experiência vivida pelas pessoas, que, por isso, não têm meios para avaliar o que recebem.

Bastaria, no entanto, que uma mesma pessoa, durante uma semana, lesse de manhã quatro jornais diferentes e ouvisse três noticiários de rádio diferentes; à tarde, frequentasse duas escolas diferentes, onde os mesmos cursos estariam a ser ministrados; e, à noite, visse os noticiários de quatro canais diferentes de televisão, para que, comparando todas as informações recebidas, descobrisse que elas “não batem” umas com as outras, que há vários “mundos” e várias “sociedades” diferentes, dependendo da fonte de informação.

Uma experiência como essa criaria perplexidade, dúvida e incerteza. Mas as pessoas não fazem ou não podem fazer tal experiência e por isso não percebem que, em lugar de receber informações, estão a ser desinformadas. E, sobretudo, como há outras pessoas (o jornalista, o professor, o médico, o polícia, o repórter) a dizer-lhes o que devem saber, o que podem saber, o que podem e devem fazer ou sentir, confiando na palavra desses “emissores de mensagens”, as pessoas sentem-se seguras e confiantes, e não há incerteza porque há ignorância.

Uma outra dificuldade para fazer surgir o desejo da busca da verdade, na nossa sociedade, vem da publicidade.

A publicidade trata todas as pessoas – crianças, jovens, adultos, idosos – como crianças extremamente ingénuas e crédulas. O mundo é sempre um mundo “de faz-de-conta”: nele a margarina fresca torna a família bonita, alegre, unida e feliz; o automóvel torna o homem confiante, inteligente, belo, sedutor, bem-sucedido nos negócios, cheio de namoradas lindas; o desodorizante torna a rapariga bonita, atraente, bem empregada, bem vestida, com um belo apartamento e lindos namorados; o cigarro leva as pessoas para belíssimas paisagens exóticas, cheias de aventura e de negócios coroados de sucesso que terminam com lindos jantares à luz de velas.

A publicidade nunca vende um produto dizendo o que ele é e para que serve. Ela vende o produto rodeando-o de magias, belezas, dando-lhe qualidades que são de outras coisas (a criança saudável, o jovem bonito, o adulto inteligente, o idoso feliz, a casa agradável, etc.), produzindo um eterno “faz-de-conta”.

Uma outra dificuldade para o desejo da busca da verdade vem da atitude dos políticos nos quais as pessoas confiam, ouvindo os seus programas, as suas propostas, os seus projectos enfim, dando-lhes o voto e vendo-se, depois, ludibriadas, não só porque não são cumpridas as promessas, mas também porque há corrupção, mau uso do dinheiro público, crescimento das desigualdades e das injustiças, da miséria e da violência.

Em vista disso, a tendência das pessoas é julgar que é impossível a verdade na política, passando a desconfiar do valor e da necessidade da democracia e aceitando “vender” o seu voto por alguma vantagem imediata e pessoal, ou caem na descrença e no cepticismo.

No entanto, essas dificuldades podem ter o efeito oposto, isto é, suscitar em muitas pessoas dúvidas, incertezas, desconfianças e desilusões que as façam desejar conhecer a realidade, a sociedade, a ciência, as artes, a política. Muitos começam a não aceitar no que lhes é dito. Muitos começam a não acreditar no que lhes é mostrado. E, como Sócrates em Atenas, começam a fazer perguntas, a indagar sobre factos e pessoas, coisas e situações, a exigir explicações, a exigir liberdade de pensamento e de conhecimento.

Para essas pessoas, surge o desejo e a necessidade da busca da verdade. Essa busca nasce não só da dúvida e da incerteza, nasce também da acção deliberada contra os preconceitos, contra as ideias e as opiniões estabelecidas, contra crenças que paralisam a capacidade de pensar e de agir livremente.

Podemos, dessa maneira, distinguir dois tipos de busca da verdade. O primeiro é o que nasce da decepção, da incerteza e da insegurança e, por si mesmo, exige que saiamos de tal situação readquirindo certezas. O segundo é o que nasce da deliberação ou decisão de não aceitar as certezas e crenças estabelecidas, de ir além delas e de encontrar explicações, interpretações e significados para a realidade que nos cerca. Esse segundo tipo é a busca da verdade na atitude filosófica.

Podemos oferecer dois exemplos célebres dessa busca filosófica. Já falámos do primeiro: Sócrates andando pelas ruas e praças de Atenas questionando os atenienses sobre o que eram as coisas e ideias em que acreditavam. O segundo exemplo é o do filósofo Descartes.

Descartes começa sua obra filosófica fazendo um balanço de tudo o que sabia: o que lhe fora ensinado pelos preceptores e professores, pelos livros, pelas viagens, pelo convívio com outras pessoas. No fim, conclui que tudo quanto aprendera, tudo quanto sabia e tudo quanto conhecera pela experiência era duvidoso e incerto. Decide, então, não aceitar nenhum desses conhecimentos, a menos que pudesse provar racionalmente que eram certos e dignos de confiança. Para isso, submete todos os conhecimentos existentes na sua época, e os seus próprios, a um exame crítico conhecido como dúvida metódica, declarando que só aceitará um conhecimento, uma ideia, um facto ou uma opinião se, passados pelo crivo da dúvida, se revelarem  indubitáveis para o pensamento puro. Ele os submete à análise, à dedução, à indução, ao raciocínio e conclui que, até o momento, há uma única verdade indubitável que poderá ser aceite e que deverá ser o ponto de partida para a reconstrução do edifício do saber.

Essa única verdade é: “Penso, logo existo”, pois, se eu duvidar de que estou a pensar, ainda estou a pensar, visto que duvidar é uma maneira de pensar. A consciência do pensamento aparece, assim, como a primeira verdade indubitável que será o alicerce para todos os conhecimentos futuros.

Marilena Chaui, Convite à Filosofia, Ed. Ática, São Paulo, 2000.

 

 

 

Actividades:

 

1 -  O que é a verdade? Fundamente a sua resposta relacionando o conceito de verdade com o conceito de mudança.

2 - Porque é que o texto afirma que "é o desejo do verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias"? Justifique a sua resposta.

Exercício de aprofundamento:

- Pare por uns minutos a sua rotina diária e sente-se num local sossegado e relaxe por uns momentos. Procure imaginar como seria se não existisse nenhuma verdade na sua vida, ou seja, se descobrisse que tudo o que pensa ser verdadeiro é falso. Depois, medite no imenso valor das "pequenas" verdades que estão presentes na sua vida.

Depois disto, escreva um pequeno texto sobre:

a) A verdade que tem mais importância na sua vida.

b) A maior decepção que teve até hoje (ao descobrir que a falsidade de algo que julgava verdadeiro).

 

SECÇÕES

 

Jorge Bucay, Contos para pensar, Ed. Pergaminho.

Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.)

 

 

Jorge Bucay, Contos para pensar, Ed. Pergaminho.

René Descartes (1596 - 1650)

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