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A ideia de ordem e os
fundamentos da racionalidade
“Tomei conhecimento de certa
enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de
Conhecimentos Benévolos, nas suas remotíssimas páginas está escrito
que os animais se dividem em:
(a) pertencentes ao imperador,
(b) embalsamados,
(c) amestrados,
(d) leitões,
(e) sereias,
(f) fabulosos,
(g) cães vadios,
(h) incluídos nesta
classificação,
(i) que se agitam como loucos,
(j) incontáveis,
(k) desenhados com um pincel
finíssimo de pêlo de camelo,
(l), etc...,
(m) que acabam de quebrar o
jarrão,
(n)
que ao longe parecem moscas.
O Instituto Bibliográfico de
Bruxelas exerce igualmente o caos: emparcelou o universo em 1000
subdivisões, das quais a número 262 corresponde ao Papa, a
282, à Igreja Católica Romana; a 263, ao Dia do Senhor; a
268, às escolas dominicais; a 298, ao mormonismo, e a 294
ao bramanismo, budismo, xintoísmo e taoísmo. Também não rejeita as
subdivisões heterogéneas como, por exemplo, a 179: «Crueldade
com os animais. Protecção do animais. O duelo e o suicídio do ponto de
vista da moral. Vícios e defeitos vários. Virtudes e qualidades várias.»
Registei as arbitrariedades do
desconhecido enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de
Bruxelas; notoriamente não há classificação do universo que não seja
arbitrária e conjectural. A razão é muito simples: não sabemos o que é o
universo. «O mundo», escreve David Hume, «é talvez o esboço rudimentar
de algum deus infantil, que o abandonou a meio, envergonhado com a sua
execução deficiente; é obra de um deus subalterno, de quem os deuses
superiores troçam; é a confusa produção de um divindade decrépita e
aposentada, que já morreu» (Dialogues Concerning Natural Religion, V,
1779). Podemos ir mesmo mais longe; podemos suspeitar que não há
universo no sentido orgânico e unificador que tem essa ambiciosa
palavra. Se o houver, é preciso conjecturar o seu propósito; é preciso
conjecturar as palavras, as definições, as etimologias e as sinonímias
do secreto dicionário de Deus.
A impossibilidade de penetrar no
esquema divino do universo, no entanto, não pode dissuadir-nos de
planear esquemas humanos de ordenação, embora nos conste que estes são
provisórios.”
Jorge Luís Borges, Obras
Completas –II, Ed. Teorema, p.83.
Actividades:
1 – Analise
criticamente a classificação dos animais proposta pela enciclopédia
chinesa referida no texto: essa classificação faz sentido?
Justifique a sua resposta.
2 – Comente o último
parágrafo do texto. (Num mínimo de 120 palavras).
Exercício de aprofundamento:
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Pare por uns minutos a sua
rotina diária e sente-se num local sossegado e relaxe por uns
momentos. Procure visualizar o seu lugar no Universo, começando pelo
Universo como um todo quase infinito, passando pela Via-láctea (a
galáxia a que pertence o sistema solar, com biliões de estrelas e de
planetas), concentrando-se, depois, no planeta terra, visto do
espaço. Depois pode mergulhar em direcção à Península Ibérica,
terminando no lugar onde se encontra que, apesar de ser familiar e
“banal” faz parte do Universo imenso. Então, sinta-se como fazendo
parte integrante do Universo.
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Depois, desenvolva a
seguinte questão: O universo (e a minha vida) obedece a uma ordem?
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