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The Life
of David Gale
“Nesse filme é-nos
oferecida uma excelente trama policial e jurídica que, pasme-se pela
raridade da situação, envolve um filósofo! O “dito-cujo” (interpretado
pelo sempre brilhante Kevin Spacey) é um extraordinário professor de
filosofia numa universidade norte-americana, ao que junta uma vida
normal pós-moderna de quasi-divorciado, playboy intelectual, etc, etc.
Além de ser um “crânio”, o nosso herói tem a propensão para se dedicar a
causas “perdidas” ou extemamente difíceis, em especial à luta activa - e
activista - contra a pena de morte.
Algures a meio do
filme, numa cena (de bebedeira na rua) que retrata um aparente e gradual
declínio da saúde mental do nosso filósofo, este faz uma referência à
história do julgamento e condenação de Sócrates na Grécia antiga. (Para
quem não sabe ou não se lembra, Sócrates foi condenado à morte por se
recusar publicamente em aceitar acusações forjadas e usadas contra ele
por aqueles que tinham medo da sua postura inquisitiva e denunciadora,
entre outras coisas). Esta referência à injustiça latente no julgamento
do Sócrates histórico, que chegou até nós na
Apologia de Sócrates,
escrita pelo seu discípulo Platão, é decisiva para compreendermos o
final da história de David Gale. Tal como Sócrates, que preferiu morrer
(bebendo a famosa Cicuta) a abdicar das suas convicções, coisa que
percebemos lendo o que está escrito no
Fédon
de Platão, também
David Gale, filósofo contemporâneo, prefere morrer a abdicar das suas.
A história de
Sócrates e Gale equivalem-se neste sentido: ambos usam a sua
inteligência para preferir a morte. Ao morrerem conseguem levar por
diante os seus objectivos, fazendo com que, mais cedo ou mais tarde, as
suas mortes contribuam para vindicar as suas ideias e derrotar os seus
opositores. Assim aconteceu ao que parece com Sócrates que, sem defender
qualquer doutrina específica (excepto a de que nada sabia), fundou uma
linha filosófica e moral ainda hoje considerada, levando assim de
vencida os seus “opositores”. E assim acontece também com Gale no filme,
que ao forjar a encenação de um homicídio a partir de um suicídio de uma
sua amiga (que sofria de uma doença terminal), consegue provar à
sociedade que foi injustamente condenado à morte e, consequentemente,
que a sua execução foi uma injustiça.
Mas, afinal, o que é
que isto tem a ver com aquilo que eu quero ser quando sou filósofo? Bem,
a relação é a seguinte: quando eu sou filósofo não quero agarrar-me às
minhas convicções a ponto de estar disposto a dar a minha vida em troca
delas. A filosofia evoluiu muito desde o tempo de Sócrates, e Gale devia
ter percebido isso. Hoje-em-dia não faz qualquer sentido alguém provocar
deliberadamente a sua própria morte para provar o seu ideal
(exceptuam-se talvez a situações terminais do tipo retratado na história
verídica do filme
Mar Adentro
?). Aliás, já
Sócrates tinha percebido isso no seu tempo: mas Sócrates era velho e não
tinha mais nada a perder, excepto a sua dignidade.
O que eu
não
quero ser quando sou
filósofo é ser Sócrates ou David Gale. Principalmente, não quero ser
dogmático ao ponto de me matar para provar o meu ponto. O mundo em que
vivemos, mundo esse que desejamos transformar segundo uma certa ideia de
Bem, já não se compadece com mártires; pelo contrário, repudia-os - como
é o caso evidente dos terroristas suicidas. O mundo em que vivemos,
mundo "inventado" pelos Copérnicos, pelos Galileus, pelos Descartes,
pelos Kants, pelos Newtons, pelos Darwins, e pelos Einsteins da
modernidade,
exige
uma outra atitude. É
essa que quero seguir quando eu sou eu… um filósofo (aprendiz), um
investigador com objectivo, mas sem doutrina pré-concebida ou aceite,
nem sequer esta.”~
Luís Rodrigues,
http://cinefilosofia.com.sapo.pt/artigos/conteudo/DavidGale.htm

Actividades:
1 – Concorda com a
estratégia seguida por David Gale para defender a abolição da pena de
morte? Justifique a sua resposta tendo em conta a eficácia (ou
não-eficácia) persuasiva dessa estratégia.
2
– Faça uma lista, o mais exaustiva possível, de argumentos a favor e
contra a pena de morte.
Depois: a) Escolha
os 3 argumentos mais fortes em defesa de cada uma das teses.
b) Qual das teses
lhe parece a melhor? Justifique a sua resposta com base nos argumentos
que sustentam essa tese. |