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A cultura da vergonha,
a cultura da culpa e a cultura da responsabilidade ética
Talvez todas as épocas tenham sido conturbadas, o que varia ao longo da
história são as áreas onde os conflitos e as crises estruturais ocorrem.
É nessas áreas que se situam os desafios mais importantes que a
humanidade tem que resolver em cada momento da sua marcha rumo ao
futuro.
E esses desafios assumem a forma de problemas colectivos que batem à
porta, por assim dizer, dos indivíduos. Todos são convocados para a
resolução desses problemas. E isso manifesta-se, a um nível mais
englobante, na forma como as instituições se organizam. Os laboratórios
científicos, por exemplo, não investigam todos os problemas que estão
abertos à investigação científica em cada um dos seus domínios, há
prioridades económicas, sociais, políticas e culturais que determinam o
que se investiga e, até, o ritmo da investigação.
Ora, penso que não andaremos longe da verdade se considerarmos que o
grande desafio da nossa época é o da responsabilidade ética, assumida a
todos os níveis da acção humana, seja a nível individual, seja a nível
colectivo. Essa responsabilidade abarca o horizonte da consciência
moral, individual, onde os sistemas de moral de origem religiosa ou
ideológica parecem insuficientes para satisfazer as exigências morais
dos indivíduos, mas não se esgota nele. De facto, os homens de hoje,
dada a evolução das tecnologias da informação, vêem alargado o âmbito da
sua intervenção, o que, como seria de esperar, alarga também o campo da
responsabilidade dos indivíduos, quer em relação a si próprios, quer em
relação aos outros. As mudanças estruturais das sociedades, bem como o
cada vez maior contributo das descobertas científicas para a emancipação
do indivíduo face a determinismos de carácter biológico, leva à falência
desses sistemas de moral tradicionais que não conseguem dar resposta à
ânsia de autonomia que parece ser uma tónica dominante, se bem que a
ilusão e a alienação estejam presentes ao nível da nossa vida
quotidiana, alimentadas pelos media e pelo consumismo. No entanto, a
moral sexual nos dias de hoje tem que dar conta de uma imensidade de
problemas e de exigências a que os sistemas de moral tradicionais não
conseguem atender.
É aqui que a filosofia se torna indispensável. Pois a ética tende a
substituir a moral.
Em vez de regras impostas de fora, a consciência moral do homem
contemporâneo parece preferir a adesão a princípios de orientação da
acção, assentes na liberdade e no primado da autenticidade do pensamento
emancipado. Mesmo a razão como era vista no passado, na generalidade dos
sistemas filosóficos, como uma faculdade tutelar desenraizada do pulsar
da vida tal como ela se dá ao indivíduo, na sua radical busca de um
sentido, tende a dar lugar a uma visão englobante do homem e do mundo,
dentro da qual as dicotomias tradicionais (emoção/razão;
razão/experiência; espírito/matéria; pensamento/acção,etc;.) têm que ser
profundamente repensadas e, necessariamente, ultrapassadas.
A responsabilidade ética abre-se, também, a comportamentos e atitudes
pertencentes à esfera pública, abarcando a atitude dos indivíduos, e das
sociedades, perante o ambiente, as migrações, a guerra, o
desenvolvimento sustentado.
Vemos que os sistemas de moral tradicionais estão imbuídos de
unilateralismo, alimentando, muitas vezes, o fanatismo, a intolerância e
a recusa do direito à diferença.
O terrorismo global, os fanatismos religiosos, a cegueira política que,
muitas vezes, leva a que a expressão da vontade maioritária dê origem a
formas intoleráveis de manipulação política, todas estas formas de culto
da intolerância, são obstáculos à responsabilidade ética como desafio
fundamental do nosso tempo.
Não estão já em causa, como no tempo da guerra fria, concepções opostas
sobre a organização das sociedades, mas o direito à verdade existencial
dos indivíduos, dos povos e das culturas. O terror dos campos de
extermínio da 2ª guerra mundial (e de tantas outras formas de barbárie,
como os Goulags, a tragédia cambodjana, etc., etc.) assentou
precisamente nisso, na recusa da verdade existencial do outro.
Decretou-se a inconformidade antropológica de grupos étnicos e de formas
de estar na vida. E passou-se à prática.
Hoje em dia o problema do terrorismo assenta precisamente nisso, não
basta não tolerar os outros, rebaixá-los à condição de seres inferiores,
há que combater a possibilidade da sua existência. Não se combatem já as
ideias, as ideologias, os valores religiosos e políticos, combate-se o
direito à existência de todos aqueles que não estão em conformidade com
certos sistemas de crenças e de valores.
E isso é vivido nas relações entre indivíduos na nossa sociedade, uma
vez que esta tendência não nasce dentro de algumas culturas, mas é
global. Assim, quando recusamos aos nossos vizinhos, aos nossos colegas
de trabalho, aos nossos concidadãos, o direito de serem em verdade, na
sua diferença, estamos a alimentar o monstro que gera as fomes e as
guerras, dá origem ao terrorismo e à exclusão. A xenofobia, a exclusão
social, o quietismo político-social em nome dum hedonismo consumista que
torna tudo indiferente, são sintomas que devem levar a que devamos
combater esse mal, começando por nós próprios, pela forma como olhamos
para nós e para os outros.
A cultura da responsabilidade ética é uma exigência civilizacional que
está profundamente enraizada na história da humanidade (e do Ocidente).
Caracteriza-se pela emancipação do indivíduo em relação a tudo o que
torna a diferença um impedimento à sua plena realização como pessoa. As
diferenças entre sexos, por exemplo, não devem dar lugar à discriminação
das mulheres (ou dos homens). As diferenças no que respeita à orientação
sexual, por exemplo, não devem dar lugar, igualmente, a qualquer tipo de
discriminação.
E só há uma vacina para essa doença, ou um antídoto para esse veneno: a
argumentação, a discussão livre, a abertura à troca de ideias e de
argumentos.
E neste aspecto os sistemas de ensino e de educação devem abandonar o
modelo da massificação, próprio da era industrial, e devem abrir-se cada
vez mais à diversidade.
Há um longo caminho de evolução dos sistemas de moral até à emergência
da cultura da responsabilidade ética.
As sociedades tribais, de carácter predominantemente nómada, deram
origem à que se pode chamar cultura da vergonha. Nestas culturas
as regras morais fundamentam-se na submissão do indivíduo ao grupo
consanguíneo, seja ele a família, a tribo, o clã ou, até mesmo, nas
sociedades mais próximas de nós em termos históricos, a pátria. Nessa
cultura a propriedade privada não é uma prioridade, pois os bens tendem
a ser partilhados pelos membros do grupo familiar (podemos chamar-lhe
assim). A moral sexual está intimamente ligada às normas que presidem ao
comportamento dos indivíduos dentro do clã, ou da família próxima ou
alargada. E a vida da comunidade familiar obedece a uma rigorosa
hierarquia que o chefe de família (o patriarca ou a matriarca) como
líder incontestável.
Neste tipo de cultura aplica-se o preceito "olho por olho, dente por
dente" (a chamada lei de Talião). As infracções são punidas duma forma
directa e rigorosamente proporcional. Se um indivíduo mata outro, é
morto, muitas vezes da mesma forma. Por vezes a punição recai sobre um
membro do mesmo clã a que pertence o ofensor. O que importa é a
retribuição. Dentro deste tipo de sociedades a vingança é considerada um
direito e um dever, invioláveis. Há muitos exemplo, nos dias de hoje, de
sociedades que vivem ainda de acordo com este tipo de mentalidade. Entre
nós a etnia cigana é um exemplo claro disto. E no mundo rural há ainda
muitos afloramentos desta forma de viver os preceitos morais.
Mesmo na Grécia antiga, considerada o berço da civilização ocidental, as
normas morais derivavam da cultura da vergonha.
Nesse tipo de sociedade não há distinção entre vida pública e vida
privada. Todos os comportamentos dos indivíduos pertencem, por direito,
à esfera pública. O indivíduo só encontra justificação para a sua
existência e para a sua aceitação como pessoa de bem, no grupo familiar
ou social. A reprovação social determina a desgraça moral. O aplauso
social, determina, por sua vez, o reconhecimento da dignidade moral do
indivíduo.
Pode ver-se que neste tipo de mentalidade a consciência moral dos
indivíduos não é verdadeiramente autónoma, pois depende da sanção
social. Não se colocando nunca a hipótese duma justificação do indivíduo
contra a vontade colectiva.
E neste aspecto a condenação de Sócrates não deixa de ser, ao mesmo
tempo, paradoxal e profundamente elucidativa.
Pois Sócrates, mesmo rejeitando o fundamento das acusações que lhe foram
movidas, dá sempre prova da sua inegável conformidade com a vontade
colectiva. Mesmo sabendo que é injustamente acusado e condenado, aceita
a condenação em nome do seu dever (moral) como cidadão, que é o mesmo
que dizer, como homem. Mesmo quando a sentença lhe confere a
possibilidade de optar pelo exílio, evitando a sua execução, Sócrates
coloca o dever cívico (moral) acima da sua sobrevivência física. Por
esta razão recusa, igualmente, a fuga quando os seus amigos e discípulos
se propõem subornar os carcereiros e os magistrados.
Esta atitude de Sócrates é responsável pela exigência do primado do
Direito que, desde então, se impõe no mundo antigo, assumindo a sua mais
clara expressão no Império Romano. Não que os desmandos não se sucedam.
Mas essa preocupação está no centro da mundividência cívica que os
Romanos impuseram ao mundo Ocidental.
Com o advento do cristianismo, uma outra forma de encarar o fundamento
da moral se vai impor, progressivamente, ao mundo Ocidental.
A cultura da vergonha dá lugar à cultura da culpa (é de
notar que em muitos casos as duas culturas coexistem). A origem da
sanção moral é interiorizada. Mesmo que não exista uma sanção social em
relação a qualquer comportamento individual, a consciência moral do
indivíduo pode sancionar negativamente esse comportamento. Mais: mesmo a
mera intenção de agir, por mais fantasiosa que seja, pode levar ao
sentimento de culpa. Se um indivíduo tiver o desejo de praticar uma
acção contrária ao seu dever moral, mesmo que não pratique, de facto,
essa acção, ele sente-se culpado. Isto deriva da concepção cristã de
pecado que ganha uma densidade diferente da que tinha a prática do mal
no âmbito da cultura da vergonha. Nas sociedades centradas na vergonha,
o "pecado" recaía sobre o grupo social e não só sobre o indivíduo que o
praticava. E transmitia-se como uma doença infecciosa, ou genética. Os
pecados dos pais recaíam sobre os filhos, muitas vezes transmitia-se por
várias gerações. E com eles, o direito à vingança.
No cristianismo a condição de pecador é herdada geneticamente, por assim
dizer (o pecado original), o que garante que todos os indivíduos são
portadores de culpa e que a suspeita é legítima, mesmo em relação a
pessoas que passem como honestas e boas aos olhos da sociedade. Assim
todos são encarados como capazes de mal e é necessário que se
interiorizem nos indivíduos mecanismos de vigilância e de punição que
levem a que mesmo a interioridade da consciência, um reduto que escapa à
vigilância externa, seja permanentemente escrutinada. Por isso, a
educação tornou-se repressiva de tudo o que esteja ligado ao desejo e,
principalmente, ao desejo sexual.
O medo e a culpa reinam sobre os indivíduos como fantasmas insaciáveis,
pelo menos desde há dois milénios. O medo da justiça divina e o
sentimento de inconformidade com os mandamentos divinos, aliado a um
culto do sofrimento como forma de libertação, de redenção, mantiveram os
indivíduos reféns da sua consciência, sem poderem assumir, de forma
plena, a sua liberdade.
Se a cultura da culpa valoriza o indivíduo, não o liberta, não fomenta a
sua autonomia, indispensável para que se eleve, de forma plena, à
condição de Pessoa. E isto porque a fonte da legitimidade moral é
exterior à consciência do indivíduo. Depende de Deus ou de qualquer
outra instância que o substitua, como por exemplo, o Estado, o Partido,
a Economia.
A cultura da responsabilidade ética nasce da exigência de valorização da
Pessoa, a cima de quaisquer outras instâncias, enquanto indivíduo
consciente de si e capaz de se auto-determinar, com base numa liberdade
inalienável e constitutiva do ser do homem. Ser homem é ser livre.
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