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Como estudar ?
Não tenho aqui quaisquer
intenções moralistas: penso que todos os estudantes sabem que aquilo que
vem a seguir é verdade, no entanto, e eu passei por isso enquanto
estudante ( e ainda hoje quando tenho que estudar para preparar as
minhas aulas ), há muitas coisas que vão prendendo a nossa atenção e que
nos impedem de adoptar hábitos de estudo regulares.
Posso, contudo, dizer
que convém que nos habituemos a guardar uma parte do dia para cuidarmos
de nós e daquilo que mais gostamos: jogar computador, navegar na net,
cuidar da aparência, ouvir música, fazer exercício físico, ler (estes
dois últimos aspectos são importantíssimos). Estar com os amigos, sair
para ir ao cinema, etc., são actividades que podemos excluir deste
cuidado mais íntimo connosco. Devemos tentar não abdicar deste tempo
diário, sem culpas nem inibições. Depois podemos dedicar-nos aos outros
e às tarefas chatas (ou não) do quotidiano. Estudar, se bem que possa
ser muito interessante, é uma actividade que incluo sem reservas nesta
última categoria. É chato, principalmente se envolver muitas actividades
que nos são impostas e que nos obrigam a desempenhar tarefas repetitivas
e monótonas. Se bem que existam coisas que podemos fazer para tornar o
estudo mais agradável, há sempre tarefas cansativas e matérias secantes,
por isso é que o estudo é tão importante, pois ensina-nos que na vida
temos que fazer coisas que não são muito agradáveis.
Vou começar por referir
um aspecto que muitas vezes é negligenciado quando se fala em estudar:
as condições materiais que podem contribuir para optimizar o tempo que
“perdemos” a estudar.
a) O
local onde estudamos deve estar bem arejado, bem iluminado e deve ser
minimamente sossegado. Se uma destas coisas estiver em falta, então
qualquer actividade relacionada com estudo irá ser pouco proveitosa e
irá ter consequências negativas na nossa saúde.
b) Devemos
sentar-nos de forma confortável, numa cadeira que nos permita manter as
costas direitas. É importante que tenhamos os braços apoiados.
c) Se
utilizarmos um computador, o teclado deve estar paralelo aos nossos
cotovelos, ou ligeiramente elevado em relação a eles (dois dedos no
máximo). Devemos ser capazes de escrever no teclado e de utilizar o rato
sem precisarmos de levantar os cotovelos. O monitor deve estar bem em
frente dos nossos olhos (devemos poder ver o seu conteúdo sem
necessitarmos de levantar ou baixar a cabeça) e deve estar afastado mais
de dois palmos do nosso nariz (30 cm no mínimo). A resolução de ecrã
deve permitir-nos ler e visualizar os gráficos sem esforçar a vista
(acho recomendável a utilização de um monitor de 17’’ no mínimo, com uma
resolução de 800x600). Devemos ter também atenção à frequência do
monitor: esta deve ser ajustada, de acordo com as especificações do
fabricante, de forma a diminuir a cintilação. Também é importante que
exista sempre uma fonte de luz, natural ou artificial, quando estamos a
trabalhar no computador. Devemos também parar no mínimo de meia em meia
hora quando estamos a utilizar o computador.
d) Devemos
alimentar-nos de duas em duas horas e consumir líquidos de forma
generosa. A água deve ser preferida aos refrigerantes. Devemos procurar
não associar o estudo aos petiscos, como o chocolate, rebuçados e outros
doces. No entanto, em momentos de maior dispêndio de energia ou de
sobrecarga do nosso sistema nervoso, o consumo moderado de chocolate tem
um efeito estimulante e traz benefícios ao cérebro. Devemos é obedecer à
regra de ouro das duas horas: não devemos ingerir alimentos no período
de duas horas que media entre as refeições (quanto aos líquidos podemos
ingeri-los a todo o instante).
e) Devemos
ter cuidado com o excesso de café, pois causa stress e dificulta a
concentração. É importante também que não nos habituemos a fumar
enquanto estudamos, pois a nicotina, tendo semelhanças com os da
cafeína, prejudica a memória e gera cansaço mental. Por outras razões
mais ponderosas, o consumo de tabaco deve ser evitado, no entanto não
quero cair aqui nos exageros dos antitabagistas militantes.
f) Devemos
preocupar-nos em criar um ambiente adequado ao estudo. Há pessoas que
conseguem concentrar-se ouvindo música, e esse é um hábito salutar, pois
a música pode isolar-nos dos estímulos do meio envolvente. Se estivemos
num local barulhento o uso de auscultadores pode ser uma medida
acertada. No entanto, devemos ter cuidado com os níveis de som que,
quando muito altos, podem causar lesões auditivas irreversíveis. Se
quando em silêncio sentimos um zumbido nos ouvidos, isso é sinal de que
estivemos expostos a sons demasiado fortes, devendo tomar medidas
preventivas. Outra questão a ter em conta é o tipo de música que
ouvimos. Quanto a isto só há uma regra: a música deve ser agradável sem
ser demasiado irregular, para que não seja uma fonte de distracção. Há
situações me que músicas mais agitadas podem ser estimulantes: se
tivermos que passar um texto a computador, por exemplo, ou se tivermos a
trabalhar em cima do prazo de entrega de um trabalho.
g) Por
último, o repouso é fundamental. Devemos dormir bem, num mínimo de oito
horas consecutivas. Se pudermos fazer uma ou duas sestas, de manhã ou à
tarde, menos mal, pois basta que nos deixemos hipnotizar pelo sono
durante uns vinte minutos para recebermos uma carga de energia tipo
duracell (passo a publicidade).
E agora vão os conselhos
sobre como estudar:
Em primeiro
lugar, há que reconhecer que não existem receitas quanto ao estudo, em
Filosofia, como em qualquer outra disciplina.
Mas uma coisa é certa: sem método não se
estuda. Por isso passar muitas horas a ler manuais ou a decorar
apontamentos não é, propriamente, estudar.
Quem estuda, antes de mais, procura alguma
coisa, tem curiosidade, ou vontade, ou necessidade de encontrar,
normalmente uma resposta para um problema.
Se o problema é o teste que se vai realizar amanhã
e se esse é o problema que te leva a estudar, Filosofia ou quase
qualquer outra disciplina, então está tudo perdido. E digo está e
não estará, porque tudo está perdido desde o princípio.
Em primeiro lugar, eu como teu professor não te
consegui motivar para que deixasses de pensar que em filosofia tens que
estudar coisas chatas. Não consegui, enfim, fazer-te ter vontade de
saber o que é a vida e tudo o que ela traz agarrado (a nós, pobres
mortais, traz-nos agarrados pelo pescoço). Mas aqui tenho vontade de ser
cínico: penso que, mesmo que a minha prestação tenha sido um tanto ou
quanto apagada ou sensaborona, as iguarias estavam lá nas aulas, mesmo à
tua frente…
Pois é, as nossas pernas só começam a caminhar
quando nós, depois de sentirmos vontade ou necessidade de ir a algum
lado, levamos o nosso sistema nervoso a injectá-las com impulsos
eléctricos que as põe em movimento. Se essa vontade não surgir ficamos
no mesmo sítio. Então, a responsabilidade por poder estar tudo perdido
não é só minha, ou se calhar não é mesmo minha, mas de quem será?
Voltando ao princípio: primeiro tens que sentir
curiosidade, ou tens que ter necessidade, de descobrir respostas para um
ou mais problemas, para depois poderes estudar, ou seja,
procurar metodicamente uma resposta que seja, verdadeiramente,
satisfatória. Não vou aqui levantar o problema, deveras recalcitrante,
de saber se em filosofia há respostas satisfatórias, mas no estudo há:
uma resposta é satisfatória quando nos satisfaz, como um prato de comida
é saciante quando nos sacia .
De tudo isto podemos concluir que para estudares
filosofia, tem que, primeiro, ver que problemas são abordados nas aulas
e nas fichas que lhes servem de suporte. Depois, deves procurar,
avidamente, se for o caso, respostas (essa treta de que em filosofia não
há respostas é só uma treta para enganar os tolos…). E deves procurar,
antes de mais, se esses problemas te dizem respeito. Caso contrário, não
há estudo que se aguente.
E isso faz-se reflectindo sobre a nossa vida (outra
vez a vida), sobre o mundo em que vivemos, sobre as pessoas que
conhecemos: será que este problema X, que pode ser mesmo tramado, tem a
ver com a minha vida? Tem a ver com a minha rua ou a minha escola? Tem a
ver com as pessoas que eu conheço?
Há problemas nos quais topamos logo com coisas que
nos dizem respeito: a morte, a toxicodependência, o suicídio, a alegria,
o pensamento, a sexualidade, a existência de Deus (é lá! Acalma-te que
não vamos entrar numa de religião e moral…), a arte, a linguagem (ai
não? Então o que seria de nós se não falássemos?), etc. Obviamente,
outros problemas são mais subtis…
Depois, temos que mobilizar todos os meios para
encontrarmos a tal resposta satisfatória. E aí devemos consultar os
materiais da disciplina, como o manual, este site, outros sites,
enciclopédias, os apontamentos das aulas… e registar as nossas
descobertas e as novas dúvidas que vão surgindo, porque são elas que
servem de combustível à vontade de estudar.
Isto só se consegue, como já disse, com método.
A filosofia exige um estudo regular. Por isso, os
apontamentos que tirares nas aulas são muito importantes, porque eles
são um registo precioso dos temas e dos problemas que servirão de
orientação ao teu estudo.
Deves tirar os apontamentos que julgares
necessários, sem nunca esquecer que mais importante do que os
apontamentos é estares com atenção nas aulas, participando activamente
nas actividades propostas e intervindo sempre que julgares pertinente.
Por isso os apontamentos não devem desconcentrar-te da aula. Também é
bom que te mentalizes de que não poderás registar tudo o que o professor
diz.
Assim, os apontamentos das aulas devem ser um
registo de frases-chave, bem como dos esquemas que o professor for
fazendo no quadro. Deves também registar as passagens mais importantes
dos textos que estiverem a ser analisados.
Só depois da aula é que os apontamentos se tornarão
mais ricos em conteúdos: no mesmo dia da aula, ou no dia imediato, deves
reservar algum tempo para poderes passar a limpo os apontamentos da
última aula, procurando preencher as lacunas que os teus apontamentos
tiverem. É importante que aprendas a estudar com outros colegas, para
que possa haver uma partilha de apontamentos e materiais.
Se tiveres um dossier em casa onde possas arquivar
os materiais da disciplina, estas tarefas estarão muito facilitadas.
Com os apontamentos clarificados e sistematizados,
já não tens meros apontamentos, mas sínteses das aulas. A partir delas
podes partir para o aprofundamento das matérias que estás a estudar. O
manual é um bom ponto de partida, embora os manuais, por melhores que
sejam, me pareçam demasiado pré-fabricados para se ajustarem a todas as
exigências do teu estudo, mas são um bom ponto de partida, porque, antes
de mais, fornecem um ponto de vista sobre o programa diferente do do teu
professor. Não vejo que o meu ponto de vista seja algo a desvalorizar,
mas para poderes aprender a ver as coisas do teu ponto de vista, convém
ires experimentando outros pontos de vista para além do meu.
Os dicionários de filosofia e as enciclopédias
também são importantes. Neste site tens links para dicionários e
enciclopédias, pelo que podes consultá-los sistematicamente, e de borla,
o que não é nada mau…
Como cedo te aperceberás, as aulas são sempre
acompanhadas de fichas, com textos e questões. Ora, se entrares,
digamos, no jogo, tens o teu trabalho um pouco facilitado, porque neste
site irás encontrar correcções das fichas, que se forem cruzadas com os
apontamentos das aulas, serão uma boa ajuda no teu estudo.
Mas deves ter em conta que em filosofia a
originalidade é muito importante, pelo que as respostas que eu for
dando, não são respostas-padrão: é sempre possível responder mais e
melhor. Devem servir-te de orientação. Mas tu é que tens que definir o
teu rumo e caminhar em direcção aos objectivos que te for propondo.
Até aqui tenho-me referido a coisas que podes fazer
para que o teu estudo possa ser bem orientado. Mas há uma coisa que tem
que ficar assente: nada disto é muito útil se tem grandes problemas na
leitura e na expressão escrita. Na ficção e nos mitos, a personagens
podem voar ou caminhar sobre as águas sem bóias, pranchas de surf, asas
delta, ou outros instrumentos de auxílio. Em filosofia não podes
interpretar textos ou expressar os teus raciocínios se tens problemas
graves no domínio do Português. Se for esse o caso, é urgente que
procures melhorar as tuas competências linguísticas, para poderes
atingir os objectivos da nossa disciplina…
Voltando ao método: a filosofia exige um estudo
contínuo. Ou melhor: deves estar sempre a par do que está a ser dado.
Por isso a forma como estás nas aulas é importantíssima: se estás
constantemente a distrair-te com o teu colega do lado, o melhor é
solucionares o problema.
Devem também participar em todas as actividades que
te forem propostas na aula: a leitura de um texto, a resposta a uma
questão, etc. E deves colocar todas as dúvidas que te forem surgindo.
Não deves sair da sala sem colocar as tuas dúvidas. Podes mesmo colocar
dúvidas enquanto estudas, para isso basta clicares no meu e-mail.
Podes também enriquecer as aulas com as tuas
intervenções, se elas forem oportunas e consistentes. Há alunos que
intervêm só para intervir, provocando muitas vezes momentos de paragem
que podem ser prejudiciais ao desenvolvimento da aula, nesse caso mais
vale esperar pela oportunidade certa para intervir. Isto a não ser, é
claro, que tenhas uma dúvida, nesse caso a intervenção torna-se urgente,
embora seja necessário esperar pela oportunidade certa para intervir.
Por todas estas razões, não deves deixar o estudo
para a véspera dos testes. Aí podes fazer apenas uma pequena revisão da
matéria e deves, acima de tudo, descansar, distrair, descontrair, enfim,
saborear a alegria do dever cumprido.
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