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Conteúdos:
A radicalidade
Texto 1 - O
valor da filosofia
Texto 2 - A
dúvida e o reconhecimento da ignorância
Texto 3 - O que
é a Filosofia ?
Texto 4 - O
objecto e o método da filosofia
Texto 5 - As questões da filosofia
Texto 6 - A
filosofia e os outros saberes
A Radicalidade
A filosofia é um saber radical porque vai à raiz dos problemas. Para o
filósofo não existem respostas conclusivas: cada resposta é um momento
do questionamento filosófico, é um patamar na busca da verdade, que
serve de apoio para a colocação de novas questões, mais profundas e
abrangentes.
Em filosofia não há outra saída: nada pode deixar de ser questionado,
nem mesmo o que parece inquestionável. Quanto mais óbvia uma ideia
nos parecer, mais necessário é interrogarmo-nos acerca da sua verdade ou
consistência. Com isto não devemos ficar com a ideia de que em
filosofia as respostas não são importantes. Não devemos pensar que os
filósofos se limitam a questionar por questionar, que tudo é incerto.
Muito pelo contrário: o que caracteriza o questionamento filosófico é o
facto de ser um caminho para a verdade, orientado por um espírito de
rigor e de coerência racional. O questionamento filosófico é uma busca
do sentido de tudo: da vida humana, do universo, do tempo, da morte...
Enquanto busca do sentido, o filosofar dá sentido, em primeiro lugar, à
ignorância que é o seu ponto de partida, em segundo lugar, ao mundo
enquanto objecto de interrogação. Ao tentar compreender o porquê de
todas as coisas, o filósofo está perante o mundo como um construtor de
puzzles: começa por separar as peças, por baralhá-las para as poder ver
uma a uma sem estar preso a relações ilusórias; depois começa a encaixar
as peças formando pequenas ilhas de sentido que, por vezes permitem ter
uma ideia, ainda que muito vaga, do todo.
Mas para que esta imagem do construtor de puzzles se pudesse adequar ao
filósofo teríamos que imaginar um puzzle com um numero quase
infinito de peças, em constante mudança e do qual o próprio construtor
faz parte.
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Texto 1
O valor da filosofia
“O valor da filosofia, em grande parte, deve ser buscado na sua mesma
incerteza. Quem não tem umas tintas de filosofia é homem que caminha
pela vida fora sempre agrilhoado a preconceitos que cresceram no seu
espírito sem a cooperação ou o consentimento de uma razão ponderada. O
mundo tende, para tal homem, a tornar-se finito, definido, óbvio; Quando
começamos a filosofar, pelo contrário, imediatamente caímos na conta de
que até os objectos mais familiares conduzem o espírito a certas
perguntas a que incompletissimamente se dá resposta . A filosofia
sugere numerosas possibilidades que nos conferem amplidão aos
pensamentos, descativando-nos da tirania do hábito. Varre o dogmatismo,
um tudo nada arrogante e vivifica o sentimento de admiração. ”
Bertrand Russell
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Texto 2
A dúvida e o reconhecimento da
ignorância
" A filosofia supõe, com efeito, presente na própria questão, uma
certa intenção, da qual se pode dizer que constitui o pressuposto do
questionamento filosófico. E uma questão não poderia ser em si mesma
filosófica sem esta intenção. Isto aplica-se à própria questão "O que é
a filosofia?". Digamo-lo nitidamente: a questão como filosófica,
supõe uma colocação em dúvida da resposta enquanto saber. Não que a
resposta ela mesma "possa eventualmente" ser posta em dúvida, como
quando por exemplo percebemos que aquele que responde se baralha e que à
resposta falta clareza. A colocação em dúvida aqui é um pressuposto
do questionamento filosófico.
A filosofia é, antes de mais, colocação em dúvida da mestria.
Esta ausência de saber não quer dizer que alguns possam saber ou que se
possa vir a saber; ela é radical. No momento em que se coloca a
questão filosófica, o saber é posto em dúvida radicalmente. E enquanto o
questionamento se mantém, esta colocação em dúvida repete-se. Podemos
mesmo dizer que a filosofia se caracteriza pelo facto da questão valer
por ela mesma; não pelo saber ao qual ela poderia conduzir, mas pela
provação de um não saber que ela supõe. A questão filosófica não é
uma questão que se põe de qualquer maneira, mas uma questão que o
filósofo se coloca a si mesmo, e, mais profundamente, que se "coloca".
O questionamento filosófico caracteriza-se, portanto, pela exigência
contraditória de um desejo de saber, "dramático" em certa medida, e
de uma antecipada colocação em dúvida do saber que se possa vir a
obter. É como se houvesse um saber que deveríamos saber que não
temos. É conhecida a célebre frase de Sócrates: "Só sei que nada
sei".
Alain Juranville
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Texto 3
O que é a Filosofia ?
Essa é uma das perguntas mais irritantes e complicadas de se
responder. Talvez a forma menos penosa seja mudar a pergunta. Como
assim? Ora, ao invés de privilegiarmos o "o que", daremos atenção
ao "como". Continua sem entender? É simples, vou mostrar-lhe.
A melhor maneira de se compreender o que é Filosofia, sem
sombra de dúvida, é perguntarmos pelo seu modo peculiar de proceder, sem
nos preocuparmos tanto com o que ela estuda ou o que ela é, mas
como faz a sua investigação. Desse modo, tão logo estivermos de
posse de um texto filosófico, perceberemos que ele possui algumas
características compartilhadas por várias outras obras escritas por
diferentes filósofos:
Primeiramente, constitui uma análise racional,
precisa e rigorosa do(s) tema(s) em questão, num esforço
interminável de fundamentar as suas ideias. A forma mais frequente e
equivocada de julgar o exercício filosófico é aproximá-lo de uma mera
emissão de opiniões e pontos de vista. A filosofia, pelo contrário, a
todo momento, tenta afastar as ideias superficiais e preconceituosas -
próprias do senso comum – caminhando em direcção às ideias fortes
e bem articuladas. Por conseguinte, é indispensável que o trabalho do
filósofo prime, antes de mais nada, pela precisão e rigor
dos conceitos utilizados e pela preocupação com a lógica e
clareza na exposição de seus argumentos. Isso não quer dizer,
necessariamente que as obras filosóficas tenham que ser chatas difíceis,
mas que apresentam características próprias, específicas da Filosofia.
A análise filosófica preocupa-se com a totalidade e
não com partes dos problemas – os problemas parcelares são específicos
das ciências. A sociologia, por exemplo, tem por objecto a sociedade, a
psicologia, a psique (a alma), a física, os corpos em movimento
(as suas leis, estruturas etc.) e assim sucessivamente. Todas essas
ciências constituem áreas específicas do saber, que mesmo quando
ultrapassam os seus limites com o intuito de solucionar problemas,
continuam limitadas às suas perspectivas singulares. Isso não acontece
com a Filosofia. O primeiro passo da reflexão filosófica é a (tentativa
de) suspensão de tudo o que venha a limitar o carácter abrangente,
característico da Filosofia. Assim, o filósofo é aquele que tem por
obrigação uma "visão alargada" e razoável do mundo e dos saberes, sendo,
desse modo, o questionador mais competente dentre os demais, pois é
capaz de unir as diversas perspectivas - quando julga necessário - ou
perceber os seus pontos fracos. Não pretendo defender aqui que o
filósofo seria um super-homem ser mas uma pessoa com a mente aberta e
com a constante preocupação de buscar novas formas de visar os
problemas.
É eminentemente crítica. Se o filósofo pretende
reflectir sobre os problemas e temas relevantes, para que possa
construir uma argumentação coerente e com as características
anteriormente abordadas, inevitavelmente, transformará o seu pensamento
em crítica: às formas anteriores de abordagem da questão, aos sistemas
filosóficos que o antecederam, à tradição e etc. Essa é a forma mais
característica do filósofo proceder. No entanto, não se trata de uma
crítica ofensiva, mas um pôr-em-questão, de modo a perceber os
limites das teorias vigentes e apontar para novas formas de abordagem.
Por fim, o rigor característico de toda actividade racional está
frequentemente aliado, no exercício filosófico, à ideia de
sistematização. É indispensável na exposição de argumentos, além da
clareza e precisão abordados acima que o filósofo reflicta e demonstre
de modo sistemático o seu raciocínio. Um conjunto confuso e superficial,
com ausência de encadeamento lógico, desqualifica um trabalho que
pretende ser filosófico.
Vimos que a filosofia pode ser mais precisamente definida, a
despeito de seus inúmeros sistemas e métodos, como
uma actividade racional que utiliza
procedimentos sistemáticos, rigorosos e precisos de análise e exposição
de ideias, sempre a partir de uma postura crítica e coerente.”
Emanuel Fraga
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Texto 4
O objecto e o método da filosofia
A
filosofia é um conhecimento, uma forma de saber que, como tal, tem uma
esfera própria de competência, a respeito da qual procura adquirir
informações válidas, precisas e ordenadas. Mas, enquanto é fácil dizer
qual é a esfera de competência das várias ciências experimentais, o
mesmo não se dá com a filosofia. Sabemos, por exemplo, que a botânica
estuda as plantas, a geografia, os lugares, a história, os factos, a
medicina, as doenças etc. Quanto à filosofia, o que é que ela estuda? No
dizer dos filósofos, ela estuda todas as coisas. Aristóteles, que foi o
primeiro a fazer uma pesquisa rigorosa e sistemática em torno desta
disciplina, diz que a filosofia estuda “as causas últimas de todas as
coisas”; Cícero define a filosofia como “o estudo das causas humanas e
divinas das coisas”; Descartes afirma que a filosofia “ensina a
raciocinar bem”; Hegel entende-a como “o saber absoluto”. Poderíamos
citar muitos outros filósofos que definem a filosofia ora como o estudo
do valor do conhecimento, ora como a indagação do fim último do homem,
ora como estudo da linguagem, do ser, da história, da arte, da cultura,
da política etc. Realmente, coerentes com essas diferentes definições,
os filósofos estudaram todas as coisas. Devemos então concluir que a
filosofia estuda tudo? Sim, e por duas razões.
Em primeiro lugar, porque todas as
coisas podem ser examinadas no nível científico e também no filosófico.
Assim, os homens, os animais, as plantas, a matéria, estudados por
muitas ciências e sob diversos pontos de vista, podem ser objecto também
da indagação filosófica. De facto, os cientistas se perguntam-se de que
é feita a matéria, o que é a vida, como são formados os animais e o
homem, mas não consideram outros problemas que dizem respeito também ao
homem, aos animais, às plantas, à matéria, como, por exemplo, o que é a
existência. Especialmente a respeito do homem, que as ciências estudam
sob vários aspectos, muitos são os problemas que nenhuma delas estuda
(supondo-os já resolvidos), como o do valor da vida e do conhecimento
humanos, o da natureza do mal, o da origem e do valor da lei moral.
Destes problemas ocupa-se somente a filosofia.
Em
segundo lugar, porque, enquanto as ciências estudam esta ou aquela
dimensão da realidade, a filosofia estuda o todo, a totalidade, o
universo tomado globalmente.
Eis, portanto, a primeira característica que distingue a filosofia de
qualquer outra forma de saber: ela estuda toda a realidade ou, pelo
menos, procura oferecer uma explicação completa e exaustiva de uma
esfera particular da realidade.
Há, porém, duas outras qualidades que contribuem para dar um carácter
próprio e específico ao saber filosófico: trata-se do método e do
objectivo.
A
filosofia tem um método diferente, o da justificação lógica, racional.
Das coisas que estuda, a filosofia deseja oferecer uma explicação
conclusiva e, para consegui-la, se serve somente da razão, isto é,
daquilo que os gregos chamaram logos.
Quanto ao objectivo, a filosofia não busca fins práticos e não tem
interesses externos como a ciência, a arte, a religião e a técnica, as
quais, de um modo ou de outro, sempre têm em vista alguma satisfação ou
alguma vantagem. A filosofia tem como único objectivo o conhecimento;
ela procura a verdade pela verdade, prescindindo de eventuais
utilizações práticas. A filosofia tem a finalidade puramente teorética,
ou seja, contemplativa; ela não procura a verdade por algum motivo que
não seja a própria verdade. Por isso, como diz Aristóteles, ela é
“livre” enquanto não se destina a nenhum uso de ordem prática,
realizando-se na pura contemplação da verdade.
http://www.micropic.com.br/noronha/filosofias.htm
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Texto 5
As questões da filosofia
A filosofia
é uma actividade: é uma forma de pensar acerca de certas questões. A sua
característica mais marcante é o uso de argumentos lógicos. A actividade
dos filósofos é, tipicamente, argumentativa: ou inventam argumentos, ou
criticam os argumentos de outras pessoas ou fazem as duas coisas.
Que tipo de
coisas discutem os filósofos? Muitas vezes examinam crenças que quase
toda a gente aceita acriticamente a maior parte do tempo. Ocupam-se de
questões relacionadas com o que podemos chamar vagamente «o sentido da
vida»: questões acerca da religião, do bem e do mal, da política, da
natureza do mundo exterior, da mente, da ciência, da arte e de muitos
outros assuntos. Por exemplo, muitas pessoas vivem as suas vidas sem
questionarem as suas crenças fundamentais, tais como a crença de que não
se deve matar. Mas porque razão não se deve matar? Não se deve matar em
nenhuma circunstância? E, afinal, que quer dizer a palavra «deve»? estas
são questões filosóficas. Ao examinarmos as nossas crenças, muitas delas
revelam fundamentos firmes; mas algumas não. O estudo da filosofia não
só nos ajuda a clarificar de forma precisa aquilo em que acreditamos. Ao
longo desse processo desenvolve-se uma capacidade para argumentar de
forma coerente sobre um vasto leque de temas – uma capacidade muito útil
que pode ser aplicada em muitas áreas.
Warburton, Nigel,
Elementos Básicos de Filosofia.
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Texto 6
A filosofia e os outros saberes
A
filosofia é diferente da ciência e da matemática. Ao contrário da
ciência, não assenta em experimentações nem na observação, mas apenas no
pensamento. E, ao contrário da matemática, não tem métodos formais de
prova. A filosofia faz-se colocando questões, argumentando, ensaiando
ideias e pensando em argumentos possíveis contra elas e procurando saber
como funcionam realmente os nossos conceitos.
A
preocupação fundamental da filosofia consiste em questionarmos e
compreendermos ideias muito comuns que usamos todos os dias sem
pensarmos nelas. Um historiador pode perguntar o que aconteceu em
determinado momento do passado, mas um filósofo perguntará: «O que é o
tempo?» Um matemático pode investigar as relações entre os números, mas
um filósofo perguntará: «O que é um número?» Um físico perguntará de que
são constituídos os átomos ou o que explica a gravidade, mas um filósofo
irá perguntar como podemos saber que existe qualquer coisas for a das
nossas mentes. Um psicólogo pode investigar como é que as crianças
aprendem uma linguagem, mas um filósofo perguntará: «Que faz uma palavra
significar qualquer coisas?» Qualquer pessoa pode perguntar se entra num
cinema sem pagar se está errado, mas um filósofo perguntará: «O que
torna uma acção certa ou errada?»
Nagel,
Thomas., Que quer dizer tudo isto?, “Introdução”, pp. 8-9.
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