Filosofia     Ficha 12

F i c h a s 10º Ano

 

Carta do Chefe Seattle

“Como é que se pode comprar ou vender o céu e o calor da terra? Essa ideia  parece-nos estranha. Se não possuímos a frescura do ar e o brilho da água, com é possível comprá-los? Cada pedaço desta terra é sagrado para o meu povo. Cada ramo brilhante de um pinheiro, cada punhado de areia das praias, a penumbra da floresta densa, cada clareira e insecto a zumbir são sagrados na memória e na experiência do meu povo. A seiva que percorre o corpo das árvores tem em si as lembranças do homem vermelho.

Os mortos do homem branco esquecem a sua terra de origem quando vão caminhar entre as estrelas. Os nossos mortos jamais esquecem esta bela terra pois ela é a mãe do homem vermelho. Somos parte da terra e ela faz parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs; o veado, o cavalo, a grande águia, são nossos irmãos. Os picos rochosos, os sulcos húmidos nas várzeas, o calor do potro, e o homem - todos pertencem à mesma família.

No entanto o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra, pede muito de nós. O Grande Chefe diz que nos reservará um lugar onde possamos viver satisfeitos. Ele será nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, nós vamos analisar  a sua oferta de comprar a nossa terra. Mas isso não será fácil. Essa terra é sagrada para nós.

Essa água brilhante que escorre nos riachos não é apenas água, mas o sangue dos nossos antepassados. Se lhes vendermos a terra, vocês devem lembrar-se que ela é sagrada e devem ensinar às vossas crianças que ela é sagrada e que cada reflexo nas águas límpidas dos lagos fala de acontecimentos e lembranças da vida do meu povo. O murmúrio das águas é a voz dos meus ancestrais.

Os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede. Os rios sustêm as nossas canoas e alimentam as nossas crianças. Se lhes vendermos a nossa terra, vocês devem lembrar e ensinar aos vossos filhos que os rios são nossos irmãos e seus também. E, portanto, vocês devem dar aos rios a bondade que dedicariam a qualquer irmão.

Sabemos que o homem branco não compreende os nossos costumes. Uma porção da terra, para ele, tem o mesmo significado que qualquer outra, pois é um forasteiro que vem à noite e extrai da terra aquilo de que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e quando ele a conquista, prossegue o seu caminho. Deixa para trás os túmulos dos seus antepassados e não se incomoda. Rapta da terra aquilo que seria dos seus filhos e não se importa. A sepultura do seu pai e os direitos dos seus filhos são esquecidos. Trata a sua mãe, a terra, e o seu irmão, o céu, como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como carneiros. O seu apetite devorará a terra, deixando somente um deserto.

Eu não sei, os nossos costumes são diferentes dos vossos. A visão das vossas cidades fere os olhos do homem vermelho. Talvez seja porque o homem vermelho é um selvagem e não compreende.

Não há um lugar sereno na cidade do homem branco. Nenhum lugar onde se possa ouvir o desabrochar das flores na primavera ou o bater das asas de um insecto. Mas talvez porque eu sou um selvagem e não compreendo. O ruído parece somente insultar os ouvidos. E o que resta da vida se um homem não pode ouvir o canto solitário de uma ave ou a conversa dos sapos à volta de uma lagoa à noite? Eu sou um homem vermelho e não compreendo.

O índio prefere o suave murmúrio do vento encrespando a face do lago, e o próprio verão limpo por uma chuva diurna ou perfumado pelos pinheiros.

O ar é precioso para o homem vermelho pois todas as coisas compartilham o mesmo sopro - o animal, a árvore, o homem, todos compartilham o mesmo sopro. Como um homem agonizante há vários dias, o homem branco é insensível ao mau cheiro. Mas se vendermos a nossa terra ao homem branco, ele deve lembrar-se que o ar é precioso para nós, que o ar compartilha o seu espírito com toda a vida que mantém. O vento que deu ao nosso avô o seu primeiro respirar também recebe o seu último suspiro. Se lhes vendermos a nossa terra, vocês devem mantê-la intacta e sagrada, como um lugar onde até mesmo o homem branco possa ir saborear o vento açucarado pelas flores dos prados.

Portanto, vamos meditar sobre sua oferta de comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, imporei uma condição, o homem branco deve tratar os animais dessa terra como irmãos.

Sou um selvagem e não compreendo outra forma de agir. Vi um milhar de búfalos apodrecendo na planície, abandonados pelo homem branco que os alvejou de um comboio ao passar. Eu sou um selvagem e não compreendo como é que o fumegante cavalo de ferro pode ser mais importante que o búfalo, que sacrificamos somente para permanecermos vivos.

O que é os homens sem os animais? Se todos os animais se fossem, os homens morreriam de uma grande solidão de espírito. Pois o que ocorre com os animais, breve acontece com o homem. Há uma ligação em tudo.

Vocês devem ensinar às vossas crianças que o solo que elas pisam é a cinza dos nossos avós. Para que respeitem a terra, digam aos vossos filhos que ela foi enriquecida com as vidas do nosso povo. Ensinem às vossas crianças o que ensinamos às nossas que a terra é nossa mãe. Tudo o que acontecer à terra, acontecerá aos filhos da terra. Se os homens cospem no solo, estão a cuspir em si mesmos.

Isto sabemos: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une a família. Há uma ligação em tudo.

O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um dos seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.

Mesmo o homem branco cujo Deus caminha e fala com ele de amigo para amigo, não pode estar isento do destino comum. É possível que sejamos irmãos, apesar de tudo. Veremos. De uma coisa estamos certos e o homem branco poderá vir a descobrir um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é o Deus do homem, e a sua compaixão é igual para o homem vermelho e para o homem branco. A terra  é-lhe preciosa, e feri-la é desprezar o seu criador. Os brancos também passarão; talvez mais cedo que todas as tribos. Contaminem as vossas camas, e uma noite serão sufocados pelos vossos próprios dejectos.

Mas aquando da vossa desaparição, vocês brilharão intensamente, iluminados pela força do Deus que os trouxe a esta terra e por alguma razão especial lhes deu o domínio sobre o homem vermelho. Esse destino é um mistério para nós, pois não compreendemos que todos os búfalos sejam exterminados, os cavalos sejam todos domados, os recantos secretos da floresta densa impregnadas do cheiro de muitos homens, e a visão dos morros obstruídos por fios que falam. Onde está o arvoredo? Desapareceu. Onde está a águia? Desapareceu.

É o final da vida e o início da sobrevivência.”

Este documento é uma carta escrita, em 1854, pelo chefe Seatle ao presidente dos EUA, Franklin Pierce, quando este propôs comprar grande parte das terras de sua tribo, oferecendo, em contrapartida, a concessão de uma outra "reserva".

 

Actividades:

    1. Leia atentamente o texto e, depois, exponha os principais valores da cultura dos índios, expostos no texto.

    2. Faça uma lista de valores da cultura do homem ocidental (o “homem branco”) que se opõe aos valores dos índios expostos no texto.

    3. É possível um diálogo inter-cultural? Responda a esta questão tendo em conta a forma como o chefe Seatle vê a nossa cultura, dando a sua opinião acerca da possibilidade de podermos incorporar alguns dos nossos valores dos índios na nossa cultura.


 

 

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