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Sem testemunhas
Albert Schweitzer, em "Minha infância e mocidade",
lembra o instante em que pela primeira vez sentiu vergonha de
si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma
abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido
pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert
percebeu que a dor já havia passado há vários minutos e que ele
continuava a chorar só para obter a atenção da plateia. Ao
relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de
si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de
filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e
doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira travessura.
Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória,
dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de
auto-engano.
Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino
Schweitzer soube da sua vergonha, só ele teve de prestar contas
de seu acto ante a sua consciência. Estou persuadido de que as
vivências desse tipo - os actos sem testemunha, como costumo
chamá-los - são a única base possível sobre a qual um homem pode
desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e
autónoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo
consigo mesmo - e contra si mesmo - é capaz de julgar os outros
com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão,
pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio
disfarçado em belos pretextos morais.
A razão disso é auto-evidente: um homem tem de estar livre de
toda fiscalização externa para ter a certeza de que olha para si
mesmo e não para um papel social - e só então ele pode fazer um
julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si
é livre - e ninguém é senhor de si se não aguenta nem olhar,
sozinho, para dentro de seu próprio coração.
Mesmo a conversa mais franca, a confissão mais espontânea não
substituem esse exame interior, porque aliás só valem quando são
expressões dele, não efusões passageiras, induzidas por uma
atmosfera casualmente estimulante ou por um sincerismo vaidoso.
Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se
desenvolve nesse confronto: é a consciência inteira. Pois ele é
ao mesmo tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento
solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo
mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço interior no
qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são
assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem
esse "mundo" pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um
tubo por onde as informações entram e saem - como os alimentos -
transformadas em detritos.
Olavo de Carvalho, O Globo, 22 de Julho de 2002
Actividades:
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Porque é que Albert
sentiu vergonha?
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O que é que significa
alguém ser “senhor de si”?
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Comente a seguinte
afirmação: “Somente aquele que é senhor de si é livre - e
ninguém é senhor de si se não aguenta nem olhar, sozinho, para
dentro de seu próprio coração.”
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Com base numa leitura
do texto caracterize a consciência moral.
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