Filosofia     Ficha 15

F i c h a s 10º Ano

A Consciência Moral

Sem testemunhas

         

         Albert Schweitzer, em "Minha infância e mocidade", lembra o instante em que pela primeira vez sentiu vergonha de si. Ele tinha por volta de 3 anos e brincava no jardim. Veio uma abelha e picou-lhe o dedo. Aos prantos, o menino foi socorrido pelos pais e por alguns vizinhos. De súbito, o pequeno Albert percebeu que a dor já havia passado há vários minutos e que ele continuava a chorar só para obter a atenção da plateia. Ao relatar o caso, Schweitzer era um septuagenário. Tinha atrás de si uma vida realizada, uma grande vida de artista, de médico, de filósofo, de alma cristã devotada ao socorro dos pobres e doentes. Mas ainda sentia a vergonha dessa primeira travessura. Esse sentimento atravessara os anos, no fundo da memória, dando-lhe repuxões na consciência a cada nova tentação de auto-engano.

Notem que, em volta, ninguém tinha percebido nada. Só o menino Schweitzer soube da sua vergonha, só ele teve de prestar contas de seu acto ante a sua consciência. Estou persuadido de que as vivências desse tipo - os actos sem testemunha, como costumo chamá-los - são a única base possível sobre a qual um homem pode desenvolver uma consciência moral autêntica, rigorosa e autónoma. Só aquele que, na solidão, sabe ser rigoroso e justo consigo mesmo - e contra si mesmo - é capaz de julgar os outros com justiça, em vez de se deixar levar pelos gritos da multidão, pelos estereótipos da propaganda, pelo interesse próprio disfarçado em belos pretextos morais.

A razão disso é auto-evidente: um homem tem de estar livre de toda fiscalização externa para ter a certeza de que olha para si mesmo e não para um papel social - e só então ele pode fazer um julgamento totalmente sincero. Somente aquele que é senhor de si é livre - e ninguém é senhor de si se não aguenta nem olhar, sozinho, para dentro de seu próprio coração.

Mesmo a conversa mais franca, a confissão mais espontânea não substituem esse exame interior, porque aliás só valem quando são expressões dele, não efusões passageiras, induzidas por uma atmosfera casualmente estimulante ou por um sincerismo vaidoso.

Mais ainda, não é apenas a dimensão moral da consciência que se desenvolve nesse confronto: é a consciência inteira. Pois ele é ao mesmo tempo aproximação e distanciamento: é o julgamento solitário que cria a verdadeira intimidade do homem consigo mesmo e é também ele que cria a distância, o espaço interior no qual as experiências vividas e os conhecimentos adquiridos são assimilados, aprofundados e personalizados. Sem esse espaço, sem esse "mundo" pessoal conquistado na solidão, o homem é apenas um tubo por onde as informações entram e saem - como os alimentos - transformadas em detritos. 

                             Olavo de Carvalho, O Globo, 22 de Julho de 2002
 

Actividades:

  1. Porque é que Albert sentiu vergonha?

  2. O que é que significa alguém ser “senhor de si”?

  3. Comente a seguinte afirmação: “Somente aquele que é senhor de si é livre - e ninguém é senhor de si se não aguenta nem olhar, sozinho, para dentro de seu próprio coração.”

  4. Com base numa leitura do texto caracterize a consciência moral.

 

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