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Ficha 16
Texto 1 - O problema da origem do bem e do mal
“O existencialista opõe-se muito a um certo tipo de moral laica
que gostaria de suprimir Deus com o menor dispêndio possível.
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O existencialismo, pelo contrário, pensa que é muito
incomodativo que Deus não exista, porque desaparece com ele a
possibilidade de achar valores num céu inteligível; não pode
existir já o bem a priori, visto não haver já uma
consciência infinita e perfeita para pensá-lo; não está escrito
em parte alguma que o bem existe, que é preciso ser honesto, que
não devemos mentir, já que precisamente estamos agora num plano
em que há somente homens. Dostoievsky escreveu: “Se Deus não
existisse, tudo seria permitido”.
Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito,
tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem, por
conseguinte, abandonado, já que não encontra em si, nem fora de
si, uma possibilidade a que se apegue. Antes de mais nada, não
há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a
essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma
natureza dada e imutável; por outras palavras, não há
determinismo, o homem é liberdade. Se, por outro lado, Deus não
existe, não encontramos diante de nós valores, justificações ou
desculpas. Estamos sós e sem desculpas. É o que traduzirei
dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado porque
não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez
lançado no mundo é responsável por tudo quanto fizer.”
Texto 2 - Somos responsáveis por nós e por toda a humanidade
“Quando dizemos que o homem se escolhe a si, queremos dizer que
cada um de nós se escolhe a si próprio; mas com isso queremos
também dizer que, ao escolher-se a si próprio, ele escolhe todos
os homens. Com efeito, não há nos nossos actos um sequer que ao
criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma
imagem do homem como julgamos que deve ser. Escolher ser isto ou
aquilo, é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos,
porque nunca podemos escolher o mal, o que escolhemos é sempre o
bem, e nada pode ser bom para nós sem que o seja para todos.
Se a existência, por outro lado, precede a essência e se
quisermos existir, ao mesmo tempo que criamos a nossa imagem,
esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época.
Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos
supor, porque ela envolve toda a humanidade. Se sou operário e
se prefiro aderir a um sindicato cristão a ser comunista, se por
esta adesão quero eu indicar que a resignação é no fundo a
solução que convém ao homem, que o reino do homem não é da
terra, não abranjo somente o meu caso: pretendo ser o
representante de todos, e por conseguinte a minha decisão ligou
a si a humanidade inteira. E se quero, facto mais individual,
casar-me, ter filhos, ainda que este casamento dependa
unicamente da minha situação, ou da minha paixão, ou do meu
desejo, tal acto implica-me não somente a mim, mas a toda a
humanidade na escolha desse caminho: a monogamia. Assim sou
responsável por mim e por todos, e crio uma certa imagem do
homem por mim escolhida¸ escolhendo-me, escolho o homem.”
Jean-Paul Sartre, O existencialismo é um humanismo.
Actividades:
1.
Explique a frase: “a existência precede a essência”.
2.
De acordo com os textos, qual a origem do mal?
3.
Porque é que, no texto 2, se afirma que somos
responsáveis por nós e por todos os homens?
4.
Sartre está mais próximo de Rousseau ou de Hobbes?
Justifique a sua resposta.
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