Filosofia   Ficha 17A

F i c h a s 10º Ano

A importância ética da autonomia

 Quando o proibido é proibido

Logo depois duma palestra em Haia, na Holanda, um grupo de leitores aproximou-se. Queriam que visitasse a cidade onde vivem, já que, segundo eles, ali estavam a fazer uma experiência única na Europa.

Estou vacinado contra “experiências únicas no mundo”, mas ao mesmo tempo, adoro conversar com desconhecidos. Marcámos para o dia seguinte, já que o meu voo para Paris saía apenas no final da tarde.

Os leitores – duas raparigas e quatro rapazes, que se comprometeram a deixar-me no aeroporto assim que eu tivesse visto algo “único na Europa”, levaram-me até um bairro da cidade de Drachten. Saímos do carro, eles beberam cerveja, eu tomei um café. Olhavam-me surpresos, mas eu não conseguia entender o que estava a acontecer. Depois de algum tempo, um deles perguntou:

- Não reparou nada diferente?

Uma cidade pequena, bonita, com gente a andar pela rua, num Outono que ainda parecia Verão. Fora disso, igual a todas as outras cidades que conheço no mundo. Eles pagaram a conta, atravessámos a rua para ir a outro bar, pediram que olhasse de novo – e continuei a achar Drachten muito simpática, e muito igual ao resto da Europa.
- Você decepcionou-me – disse uma das raparigas. – Achei que acreditava em sinais.

- Claro que acredito.

- E você viu algum sinal aqui?

- Pois é justamente isso! Drachten é uma cidade sem qualquer sinal!
O seu namorado completou:

- De tráfego!

De repente,  dei-me conta que eles tinham absoluta razão: não havia a famosa placa “Stop”, as faixas de peões, as marcas de cruzamento e de “ceda a passagem” . Não havia um só aparelho daqueles que chamamos de sinais, ou semáforos, com as suas luzes vermelhas, amarelas e verdes! E, para minha surpresa, nem sequer existia a divisão entre a calçada e a rua. O movimento estava longe de ser pequeno: camiões, carros, bicicletas (omnipresentes na Holanda), peões, todos pareciam estar perfeitamente organizados no meio dum lugar onde não havia nada para colocar ordem no trânsito. Em momento algum ouvi um palavrão, ouvi travagens súbitas, ou buzinas ensurdecedoras.

No caminho para o aeroporto, eles contaram-me um pouco mais sobre a experiência, que – preciso concordar – é realmente singular. A ideia nasceu de um engenheiro, Hans Mondermann. Ele trabalhava para o governo holandês na década de 70, quando começou a pensar que a única maneira de diminuiu o crescimento constante de acidentes, era dar ao motorista total responsabilidade pelo que fazia.

A sua primeira providência foi diminuir a largura das estradas que passavam por aldeias, usar tijolos vermelhos em vez de asfalto, tirar a linha central que separa as duas mãos, e encher as alamedas com fontes e paisagens relaxantes – de modo que as pessoas, presas em engarrafamentos, pudessem distrair-se enquanto esperavam. Logo em seguida veio a decisão radical: tirar os sinais de trânsito, e acabar com o limite de velocidade.

Ao entrarem na cidade, os 6.000 motoristas que passavam ali por dia, ficavam assustados: onde posso virar? De quem é a prioridade? E assim, passavam a prestar o dobro de atenção ao que acontecia à sua volta. Duas semanas depois, a velocidade média era abaixo dos 30 km/h permitido em locais como Drachten. Monderman apostava alto:

“Se um peão vai atravessar a rua, claro que o carro terá que parar: os nossos avós ensinaram-nos as regras da boa-educação.”

Até o momento, isso tem dado certo. Cheguei no aeroporto pensando que Monderman não fez apenas uma experiência de trânsito, mas algo muito mais profundo. Afinal, é sua a frase:

“Se você tratar uma pessoa como idiota, ela comporta-se conforme o regulamento, e nada mais. Mas se você lhe der responsabilidade, ela saberá usá-la”.

Paulo Coelho

Actividades:

  1. A experiência de Drachten poderia resultar no nosso país? Justifique a sua resposta.
  2. O que é necessário para as pessoas se tornarem autónomas? Fundamente a sua resposta.”
  3. É desejável que as pessoas se tornem autónomas? Porquê?
  4. O excesso de regras pode ser prejudicial? Porquê?

SECÇÕES

Fichas 11º Ano

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

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