Filosofia   Ficha 18

F i c h a s 10º Ano

A ética da virtude

A ética da virtude teve a sua origem entre os filósofos gregos, principalmente em Aristóteles, tendo sido redescoberta contemporaneamente por filósofos como G. E. M.Anscombe e Alasdair McIntyre. Ela deixa de localizar o centro irradiador do valor moral no agir para localizá-lo no ser daquele que age. Ela se resume no dito “O que vale é a intenção”. O que vale não é o que o agente faz, mas as disposições de carácter que determinam motivos ou intenções das quais resultam as acções que possibilitam às pessoas viverem bem numa sociedade. Essas disposições chamam-se virtudes. Virtudes podem ser morais e não-morais. Virtudes morais são a bondade, o senso de justiça, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade, a lealdade... E virtudes não-morais são a coragem, a força de vontade, a inteligência, etc. Muitos consideraram a bondade e o senso de justiça as duas virtudes morais cardinais. Essas duas virtudes parecem, ademais, ser interdependentes, pois uma boa pessoa, para escolher as boas acções, precisará possuir senso de justiça e ninguém deseja o zelo justiceiro sem magnanimidade de um inquisidor. Virtudes morais podem depender de virtudes não-morais; embora uma virtude como a coragem não seja em si mesma moral, possuí-la é importante para o próprio exercício das virtudes morais. Uma pessoa pode sentir-se indignada contra uma injustiça, mas poderá precisar de coragem para lutar publicamente contra ela. Aristóteles via a virtude como um justo meio entre um extremo de excesso e outro de falta em relação a cada situação. Assim, ser corajoso é bom porque é um meio-termo entre a covardia e a temeridade. A adequação da disposição de carácter à circunstância era, para Aristóteles, resultado de hábito, podendo ser aprendida. Ele comparava a virtude à habilidade de acertar flechas no alvo; não é algo que dependa de teoria, mas de uma prática.

Mesmo reconhecendo a importância da virtude, é difícil admitir a tese dos defensores da ética da virtude, segundo a qual as qualidades de carácter têm prioridade sobre o agir. O meu argumento para mostrar que as virtudes são em última análise definidas pelas acções e pelos seus efeitos depende de uma distinção prévia entre o valor moral da intenção do agente (o qual se deriva da virtude) e o valor moral da ação por ele realizada.

Normalmente o valor da acção concorda com o da intenção: a uma boa intenção costuma seguir-se uma boa ação e vice-versa. Mas há excepções.

Imagine o caso de um médico que de forma responsável e com a melhor das intenções, ministra ao paciente uma droga que piora o seu estado; ou então imagine o caso de alguém que tenta envenenar um doente, mas que ao fazer isso casualmente o cura. No primeiro caso não culparemos o médico, que não deixará por isso de ser virtuoso; já no segundo caso continuaremos a acusar a pessoa que tentou envenenar o doente, pois o que nos importa não é o resultado, mas a sua verdadeira intenção. Defensores da ética da virtude, que pretendem dar prioridade ao valor moral da intenção, são pessoas que se fixam nesses casos excepcionais, nos quais o valor da intenção diverge do valor da acção e dos seus efeitos; tais casos parecem mostrar que avaliamos a virtude na independência da acção que dela resulta, dando prioridade à intenção, posto que aquilo que está essencialmente em julgamento é certamente o valor do agente. Mas não é assim. Pois embora o valor da intenção e o valor da acção possam divergir em casos isolados, não podemos conceber que eles divirjam em todos os casos, ou seja, que todas as acções das pessoas boas e justas tenham consequências más e injustas, ou vice-versa. Não é simplesmente possível imaginarmos um mundo no qual as pessoas virtuosas sempre realizem acções que, a despeito de suas boas intenções, são más ou vice-versa. Se em casos isolados é possível que consideremos a intenção I boa mas a acção A má, isso é porque na maioria dos casos a intenção I boa leva a uma acção A boa ou porque isso é inferido com base noutras correlações, maioritariamente observadas, entre virtudes e acções. Pois se não fosse assim, com que critério poderíamos avaliar as pessoas como sendo boas e justas?

Claudio F. Costa

  1. O que é que define a ética da virtude? Justifique a sua resposta tendo em conta aquilo que, de acordo com os defensores da ética da virtude, serve de fundamento às nossas acções de carácter moral.

  2. É fácil avaliar o valor moral das acções, se seguirmos os princípios da ética da virtude? Justifique a sua resposta tendo em conta as objecções apresentadas pelo autor do texto.

 

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