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A ética da virtude teve a sua origem entre os filósofos gregos,
principalmente em Aristóteles, tendo sido
redescoberta contemporaneamente por filósofos como G. E.
M.Anscombe e Alasdair McIntyre. Ela deixa de localizar o centro
irradiador do valor moral no agir para localizá-lo no
ser daquele que age. Ela se resume no dito “O que vale é a
intenção”. O que vale não é o que o agente faz, mas as
disposições de carácter que determinam motivos ou intenções das
quais resultam as acções que possibilitam às pessoas viverem bem
numa sociedade. Essas disposições chamam-se virtudes. Virtudes
podem ser morais e não-morais. Virtudes morais são a bondade, o
senso de justiça, a sinceridade, a honestidade, a fidelidade, a
lealdade... E virtudes não-morais são a coragem, a força de
vontade, a inteligência, etc. Muitos consideraram a bondade
e o senso de justiça as duas virtudes morais
cardinais. Essas duas virtudes parecem, ademais, ser
interdependentes, pois uma boa pessoa, para escolher as boas
acções, precisará possuir senso de justiça e ninguém deseja o
zelo justiceiro sem magnanimidade de um inquisidor. Virtudes
morais podem depender de virtudes não-morais; embora uma virtude
como a coragem não seja em si mesma moral, possuí-la é
importante para o próprio exercício das virtudes morais. Uma
pessoa pode sentir-se indignada contra uma injustiça, mas poderá
precisar de coragem para lutar publicamente contra ela.
Aristóteles via a virtude como um justo meio entre um extremo de
excesso e outro de falta em relação a cada situação. Assim, ser
corajoso é bom porque é um meio-termo entre a covardia e a
temeridade. A adequação da disposição de carácter à
circunstância era, para Aristóteles, resultado de hábito,
podendo ser aprendida. Ele comparava a virtude à habilidade de
acertar flechas no alvo; não é algo que dependa de teoria, mas
de uma prática.
Mesmo reconhecendo a importância da virtude, é difícil admitir a
tese dos defensores da ética da virtude, segundo a qual as
qualidades de carácter têm prioridade sobre o agir. O meu
argumento para mostrar que as virtudes são em última análise
definidas pelas acções e pelos seus efeitos depende de uma
distinção prévia entre o valor moral da intenção do agente (o
qual se deriva da virtude) e o valor moral da ação por ele
realizada.
Normalmente o valor da acção concorda com o da intenção: a uma
boa intenção costuma seguir-se uma boa ação e vice-versa.
Mas há excepções.
Imagine o caso de um médico que de forma responsável e com a
melhor das intenções, ministra ao paciente uma droga que piora o
seu estado; ou então imagine o caso de alguém que tenta
envenenar um doente, mas que ao fazer isso casualmente o cura.
No primeiro caso não culparemos o médico, que não deixará por
isso de ser virtuoso; já no segundo caso continuaremos a acusar
a pessoa que tentou envenenar o doente, pois o que nos importa
não é o resultado, mas a sua verdadeira intenção. Defensores da
ética da virtude, que pretendem dar prioridade ao valor moral da
intenção, são pessoas que se fixam nesses casos excepcionais,
nos quais o valor da intenção diverge do valor da acção e dos
seus efeitos; tais casos parecem mostrar que avaliamos a virtude
na independência da acção que dela resulta, dando prioridade à
intenção, posto que aquilo que está essencialmente em julgamento
é certamente o valor do agente. Mas não é assim. Pois embora o
valor da intenção e o valor da acção possam divergir em casos
isolados, não podemos conceber que eles divirjam em todos os
casos, ou seja, que todas as acções das pessoas boas e justas
tenham consequências más e injustas, ou vice-versa. Não é
simplesmente possível imaginarmos um mundo no qual as pessoas
virtuosas sempre realizem acções que, a despeito de suas boas
intenções, são más ou vice-versa. Se em casos
isolados é possível que consideremos a intenção I boa mas
a acção A má, isso é porque na maioria dos casos a
intenção I boa leva a uma acção A boa ou porque
isso é inferido com base noutras correlações, maioritariamente
observadas, entre virtudes e acções. Pois se não fosse assim,
com que critério poderíamos avaliar as pessoas como sendo
boas e justas?
Claudio F. Costa
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O que é que define a ética da virtude? Justifique a sua
resposta tendo em conta aquilo que, de acordo com os
defensores da ética da virtude, serve de fundamento às
nossas acções de carácter moral.
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É fácil avaliar o valor moral das acções, se seguirmos os
princípios da ética da virtude? Justifique a sua resposta
tendo em conta as objecções apresentadas pelo autor do
texto.
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