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A tese
fundamental do consequencialismo é a de que uma acção é
moralmente correcta se os seus resultados forem mais bons do que
maus. Há três espécies de consequencialismo: o egoísmo ético,
o altruísmo ético e o
utilitarismo.
Quero argumentar no sentido de mostrar que as duas primeiras são
insustentáveis, e que a espécie mais plausível de
consequencialismo é uma forma de utilitarismo.
Vejamos o
caso do egoísmo ético. O seu princípio é:
PE: uma
acção é moralmente correcta quando ela tem consequências boas
para o agente que a realiza, independentemente do que ela possa
trazer para as outras pessoas.
Há poucos
filósofos que defenderam essa doutrina. Exemplos foram
Ayn Rand,
figura de culto de empresários norte-americanos, e
Nietzsche,
que acreditava que o egoísmo era justo ao permitir a ascensão de
pessoas dotadas de “virtudes nobres” como força, coragem e
individualismo.
Há,
contudo, dificuldades que parecem fatais a essa doutrina.
Primeiro, os seres humanos são naturalmente dotados de
disposições altruístas que se manifestam nas virtudes morais
como a benevolência e o sentimento de justiça, além de
disposições para o amor, a amizade, a lealdade, a compaixão etc.
Contudo, nada disso poderia ter lugar numa sociedade de egoístas
éticos. Numa tal sociedade cada um agiria em defesa dos seus
próprios interesses sem a menor consideração pelos demais, pois
tal constrangimento culposo implicaria a posse de valores morais
altruístas. O resultado disso seria a criação de uma sociedade
cruel, sem amizade, sem lealdade, sem compaixão etc., uma
sociedade onde as pessoas se chocariam umas contra as outras
como bolas de bilhar. Consequentemente, o egoísmo ético
revela-se uma teoria contraditória, pois no objectivo, comum a
todas as éticas, de conduzir à felicidade social, acabaria por
produzir uma sociedade profundamente infeliz.
Mas há
outra objecção: por não pressupor disposições altruístas, uma
sociedade de egoístas éticos teria dificuldades para estabelecer
níveis eficazes de cooperação social. Considere a
preocupação ambiental com o futuro do planeta. Numa sociedade de
egoístas éticos tal preocupação não seria justificada, pois
seria altruísmo preocupar-se com um mundo no qual o egoísta não
estará mais vivo. Considere agora a crença de um eleitor de que
o político que ele elege é uma pessoa imbuída de ideais
altruístas e fiel aos seus eleitores. Numa sociedade de egoístas
éticos não haveria lugar para tais crenças. O sistema mais apto
a funcionar seria talvez o de um déspota autoritário que
forçasse a colaboração altruísta no objectivo de satisfazer a
sua vontade pessoal. Na verdade, receio que o cenário final seja
bem pior, e que o exemplo real mais próximo de uma sociedade de
egoístas éticos seja o de uma comunidade de celerados, que por
natureza possuem muito pouca vocação altruísta e muitas
disposições egoístas, como foi, por exemplo, a de presídios como
o da
Ilha Grande. Mas quem gostaria de viver em semelhante
sociedade?
O
contraponto do egoísmo ético é o altruísmo ético, cujo princípio
é:
PA: uma
acção é moralmente correcta quando produz um bem maior para os
outros, independentemente do bem ou mal que ela possa trazer
para o agente que a realiza.
O
cristianismo, com o mandamento de oferecer a outra face e amar
os inimigos, possui um forte elemento de altruísmo ético. Um
problema básico do altruísmo é que ele só daria eventualmente
certo numa sociedade de pessoas igualmente altruístas. O exemplo
real mais próximo de sociedade altruísta é o de comunidades
autónomas religiosas, como a dos
Quakers. Mas
numa sociedade mista, que incluísse pessoas menos altruístas ou
egoístas éticos, os altruístas acabariam por ser menorizados ou
usados para satisfazer os interesses dos últimos, o que faria
com que eles acabassem inferiorizados e eliminados do jogo
competitivo. A sociedade dos altruístas só poderia defender-se
se os altruístas fossem a maioria e reprimissem os egoístas. Mas
nesse caso eles deixariam de agir altruisticamente. Parece,
pois, que admitindo a natureza humana como ela é, o altruísmo
ético consistente seria na prática uma opção auto-destrutiva.
Consideremos agora a terceira forma de consequencialismo: o
utilitarismo, que defende ser a acção moralmente correcta aquela
que tem como consequência um bem maior para todos, inclusive
para o agente. Na sua forma mais típica, que foi o utilitarismo
hedonista de acção proposto por
Jeremy
Bentham, bem e mal são interpretados em termos não-morais
respectivamente como prazer e sofrimento, o que
redunda numa naturalização da moral. O princípio geral do
utilitarismo hedonista de acção pode ser enunciado como:
PGU:
Uma ação moralmente correta é a que produz maior prazer (bem)
e/ou menor sofrimento (mal) para a maioria.
O
utilitarista clássico Jeremy Bentham foi quem primeiro elaborou
esse princípio. Para medir a diferença entre o prazer e o
sofrimento (a que ele chamava dor), Bentham sugeriu um cálculo
utilitário, que consiste em fazer um balanço do prazer e da dor,
medidos em termos de intensidade, duração,
certeza, proximidade, fecundidade e pureza
para cada pessoa envolvida, somando em seguida os resultados
de modo a obter um balanço final. No caso do balanço final
privilegiar o prazer sobre a dor, a acção será moralmente
correcta, caso contrário ela será uma má acção. Para
exemplificar, suponhamos que se queira construir uma represa
numa certa localidade. Essa acção produzirá um bem por
possibilitar a produção de energia eléctrica e irrigação de
terras da região. Ela produzirá também um certo sofrimento:
famílias que há muito tempo vivem na região que será alagada
terão de ser deslocadas etc. Esse mal poderá ser reduzido se o
governo reembolsar as perdas... Como o prazer resultante acabará
sendo muito maior que o sofrimento, a construção da represa
torna-se, quando medida pelos seus prováveis efeitos, uma boa
acção.
Claudio F. Costa
Actividades:
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Defina o consequencialismo.
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O que é o egoísmo ético? Explicite esta
posição ética.
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O que é o altruísmo ético? O altruísmo
ético é viável? Justifique.
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O que é o utilitarismo? Esta posição
ética pode ser aplicada? Justifique a sua resposta tendo em
conta a forma como são tomadas as decisões políticas nas
sociedades democráticas.
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Das três posições éticas apresentadas
nesta ficha, qual, segundo a sua opinião, está mais presente
na nossa sociedade? Justifique a sua resposta.
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