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A Compaixão: Fundamento da Felicidade Humana
“Penso
que todos os seres humanos têm um sentimento inato de ‘si’. Não
podemos explicar por que razão este sentimento está presente - o
facto é que está. Este sentimento é acompanhado do desejo de
sermos felizes e da vontade de acabarmos com o sofrimento, o que
é plenamente justificado: temos naturalmente o direito de
alcançar tanta felicidade quanta nos for possível, tal como
temos o direito de pôr fim ao sofrimento.
Na verdade, isto não se limita aos seres humanos; na perspectiva
budista, mesmo o mais pequeno insecto tem este sentimento e
tenta, em função das suas capacidades, evitar situações
infelizes e obter alguma felicidade.
Hoje vou falar sobre o modo como um ser humano, enquanto
indivíduo, pode encontrar a felicidade - porque eu acredito
que a chave de todo o resto está no indivíduo. Para que a
mudança surja numa comunidade, a iniciativa tem de partir do
indivíduo. Se o indivíduo se tornar uma pessoa boa, calma e
tranquila, isso cria automaticamente uma atmosfera positiva na
família que o, ou a, rodeia.
O nosso modo de ser funciona de tal maneira que somos
frequentemente perturbados por factores exteriores, pelo que um
dos lados da questão consiste em eliminarmos os problemas que
nos rodeiam. O meio-ambiente, no sentido da situação ou daquilo
que nos rodeia, é um factor muito importante para estabelecermos
um estado de espírito feliz. Contudo, o outro lado da questão,
a nossa própria atitude mental, é ainda mais importante.
O ambiente que nos rodeia pode não ser muito favorável, pode
mesmo ser hostil, mas se a nossa atitude interior for adequada,
essa situação acaba por não perturbar a nossa paz de espírito.
Por outro lado, se a nossa atitude não for correcta, mesmo
rodeados de amigos e de facilidades seremos incapazes de ser
felizes. Por isso, a atitude mental é mais importante do que as
condições exteriores. Apesar disso, parece-me que a maior parte
das pessoas está mais preocupada com condições exteriores,
negligenciando a sua atitude de espírito interior. A minha
sugestão é que devíamos dar mais atenção às nossas qualidades
interiores.
Há inúmeras qualidades que são importantes para a paz de
espírito, mas, pela pouca experiência que tenho, creio que um
dos elementos mais importantes é a atitude humana de afeição e
de compaixão: o sentimento que nos leva a interessar-nos
pelos outros.
Permitam-me que explique o que entendo por compaixão.
Habitualmente, o nosso conceito de compaixão ou de amor
refere-se ao sentimento de proximidade que temos pelos nossos
amigos e entes queridos. Por vezes a compaixão acarreta também
um sentimento de piedade, o que não está certo - qualquer
sentimento de amor ou de compaixão que implique olhar de cima
para os outros não é uma verdadeira compaixão. Para ser
autêntica, a compaixão deve basear-se no respeito pelo outro
e na compreensão de que os outros, tal como nós, têm o direito
de ser felizes e de acabar com o sofrimento. A partir daí,
porque tomamos consciência do seu sofrimento, desenvolvemos um
verdadeiro sentimento de preocupação pelos outros.
Quanto à proximidade que sentimos pelos nossos amigos, em geral
esse sentimento é mais um tipo de apego do que compaixão. A
verdadeira compaixão deve ser imparcial. Se nos sentimos
próximos dos nossos amigos, mas não dos inimigos ou do grande
número de pessoas que nos são desconhecidas e indiferentes,
nesse caso, apenas temos uma compaixão parcial ou preconcebida.
Como disse atrás, a verdadeira compaixão baseia-se no
reconhecimento de que o direito dos outros à felicidade é
idêntico ao nosso e que, por conseguinte, mesmo um inimigo é um
ser humano que, tal como nós, aspira à felicidade e, tal como
nós, tem o direito de ser feliz. Chamamos compaixão ao
sentimento de interesse pelos outros que se desenvolve nesta
base - uma compaixão que se estende a todos, independentemente
da atitude amigável ou hostil que possam ter por nós.
Um aspecto deste tipo de compaixão é o sentimento de
responsabilidade pelos outros. Quando desenvolvemos semelhante
motivação, a nossa autoconfiança cresce automaticamente.
A compaixão dá-nos igualmente uma grande força interior.
Uma vez desenvolvida, ela abre-nos, naturalmente, uma porta
interior, através da qual podemos comunicar facilmente e de
coração a coração com os nossos semelhantes, os seres humanos, e
mesmo com os outros seres sensíveis. Por outro lado, se tivermos
ódio e maus sentimentos pelos outros, eles poderão sentir o
mesmo por nós.
Eu tento criar sempre um terreno propício à amizade com as
pessoas. Quando encontro alguém pela primeira vez, por exemplo,
dispenso apresentações. Essa pessoa é, obviamente, um outro ser
humano. Talvez algures no futuro os avanços da tecnologia me
façam confundir um robot com um ser humano, mas até agora isso
nunca me aconteceu. Vejo um sorriso, uns dentes a espreitar, um
olhar... e reconheço logo essa pessoa como um ser humano! Sendo
assim, do ponto de vista emocional somos idênticos e mesmo ao
nível físico somos basicamente idênticos, excepto, talvez, na
cor. Mas quer os ocidentais tenham o cabelo louro, azul ou
branco, isso pouco importa. O importante é sermos
emocionalmente idênticos. Com esta convicção, sinto que a outra
pessoa é um irmão humano e aproximo-me dela espontaneamente.
Na maior parte dos casos, a pessoa reage imediatamente em
sintonia e tornamo-nos amigos. Às vezes falho e, nesse caso,
tenho a liberdade de reagir segundo as circunstâncias.
Por conseguinte, devemos basicamente aproximar-nos dos outros
com abertura, reconhecendo em cada pessoa um ser humano igual a
nós. Não há assim diferenças tão grandes entre todos nós.
A compaixão cria naturalmente uma atmosfera positiva e, em
consequência, sentimo-nos tranquilos e contentes. Onde quer que
viva uma pessoa compassiva, reina sempre uma atmosfera
agradável. Mesmo os cães e os pássaros aproximam-se facilmente
de pessoas assim. Há já quase cinquenta anos, eu costumava
guardar alguns pássaros no jardim do Norbulingka, o Palácio de
Verão em Lhasa. Entre eles havia um pequeno papagaio. Nessa
altura, eu tinha um velho servidor com ar de poucos amigos - com
um olhar muito duro, de olhos esbugalhados - que passava a vida
a dar de comer ao papagaio, (nozes e esse tipo de coisas). Por
isso, sempre que esse servidor aparecia - às vezes bastava o
simples som dos seus passos ou uma tossidela - o papagaio
ficasse todo excitado. Ele tinha uns modos extremamente
amigáveis com esse passaroco e era retribuído de uma maneira
espantosa. Nalgumas raras ocasiões, eu também tentei dar-lhe
umas nozes, mas ele nunca me demonstrou grande afeição; um dia
pus-me então a espicaçá-lo com um pau, na esperança que ele
reagisse melhor; o resultado foi totalmente negativo.
A questão é: como desenvolver a compaixão? Com efeito, será que
podemos realmente cultivar uma compaixão imparcial por todos?
A minha resposta é sim, absolutamente. Eu acredito que a
natureza humana é gentil e compassiva, embora haja pessoas,
tanto agora como no passado, que pensam que ela é basicamente
agressiva.
Uma disposição afectiva não só torna o espírito mais calmo e
tranquilo, como afecta positivamente o nosso corpo. Por outro
lado, o ódio, a inveja e o medo perturbam a nossa paz de
espírito, tornam-nos agitados e afectam negativamente o nosso
corpo. O próprio corpo precisa de paz de espírito e não lhe
apraz a agitação. Isto mostra-nos que o apreço pela paz está-nos
no sangue.
Por conseguinte, embora haja quem não esteja de acordo, creio
que apesar do lado agressivo da nossa natureza fazer parte da
vida, a força dominante da vida é a afeição.
Razão pela qual é possível fortalecer esta bondade fundamental,
que é a nossa natureza humana.
Neste contexto, não creio que o egoísmo esteja errado. Gostar
de si próprio é fundamental. Se não gostarmos de nós, como
havemos de amar os outros? Parece-me que há pessoas que ao
falarem de compaixão têm a noção que isso implica um desprezo
completo pelo seu interesse próprio - um sacrifício dos seus
interesses. Ora, isso não está certo. Com efeito, o verdadeiro
amor deve começar por ser direccionado para nós.
Há dois sentimentos de ‘eu’ diferentes. Um deles, que não hesita
em fazer mal às pessoas, é negativo e só nos traz problemas. O
outro, baseado na determinação, na força de vontade e na
autoconfiança, é um sentimento de ‘eu’ absolutamente necessário.
Sem ele, como poderíamos cultivar a confiança necessária para
cumprirmos os objectivos que nos impomos? De modo semelhante, há
igualmente dois tipos de desejo. O ódio, no entanto, é
invariavelmente negativo e destruidor da harmonia.
Como diminuir o ódio? Geralmente, o ódio é precedido pela
irritação. A irritação surge como uma reacção emotiva e
desenvolve-se gradualmente até ao sentimento de ódio. Neste
caso, a habilidade consiste em saber, antes de mais, que a
irritação é algo de negativo. Muitas vezes, as pessoas pensam
que a irritação faz parte de si e que é melhor exprimi-la;
creio, no entanto, que isso é uma ideia pouca sensata. Talvez as
pessoas que se sentem ofendidas ou ressentidas por questões do
passado tenham a expectativa de resolver esses sentimentos
exprimindo a sua raiva. Talvez isso não seja impossível.
Contudo, em geral é preferível estarem atentos à vossa
irritação, de modo a que, gradualmente, ano após ano, ela vá
diminuindo. Segundo a minha experiência, isso é mais fácil se
adoptarmos a posição de que a irritação é negativa e que é
melhor deixarmos de a sentir. Esta postura, em si, faz uma
grande diferença.
Por acréscimo, talvez uma fé religiosa, caso a tenham, seja útil
para alargarem
essas qualidades. Os Evangelhos, por exemplo, ensinam-nos a dar
a outra face, o que nos mostra claramente a prática da
tolerância. Para mim, a mensagem principal dos Evangelhos é o
amor pelos seres humanos, nossos semelhantes, e a razão pela
qual o desenvolvemos é o amor que temos por Deus - o que eu
compreendo no sentido de ter um amor infinito. Este tipo de
ensinamentos religiosos
são
muito poderosos para
desenvolver e ampliar as nossas qualidades. A abordagem budista
apresenta um método muito preciso. Primeiro, procuramos
considerar todos os seres sensíveis como iguais. Depois,
consideramos que a vida de todos os seres é tão preciosa como a
nossa e desenvolvemos assim um sentimento de interesse pelos
demais.
E no caso de uma pessoa sem fé religiosa? Seguir ou não uma
religião é um assunto do foro de cada indivíduo. Pode-se
muito bem passar sem religião e, nalguns casos, isso torna
inclusivamente a vida mais simples! Mas o facto de não terem
qualquer interesse pela religião não deve fazer com que
negligenciem o valor das qualidades humanas. Enquanto seres
humanos e membros da sociedade humana, temos necessidade da
compaixão. Sem ela não podemos ser felizes. Uma vez que
todos desejamos ser felizes e ter amigos e uma família feliz,
temos de cultivar a compaixão e a afeição. É importante
reconhecer que há dois níveis de espiritualidade: um com fé
religiosa, outro sem. Com este último, devemos tentar
simplesmente ser pessoas de bom coração.
Devemos também lembrar-nos que ao cultivarmos uma atitude
compassiva a não-violência surge automaticamente.
Não-violência não é um termo diplomático, é a compaixão em
acção. Se tiverem o coração repleto de ódio, as vossas acções
serão frequentemente violentas, enquanto se tiverem o coração
cheio de compaixão elas serão não-violentas.
Como disse atrás, enquanto houver seres humanos nesta Terra
haverá sempre desacordos e visões conflituosas. Podemos tomar
isso por garantido. Se utilizarmos a violência para reduzir os
desacordos e os conflitos, cada vez podemos esperar mais
violência e creio que o resultado disso será terrível. Além do
mais, na verdade é impossível eliminar os desacordos através
da violência. A violência só serve para aumentar os
ressentimentos e a insatisfação.
Não-violência, por sua vez, significa diálogo,
significa usar a linguagem para comunicar. E diálogo significa
compromisso: ouvir a opinião dos outros e respeitar os direitos
dos outros num espírito de reconciliação. Ninguém sai cem por
cento vencedor e ninguém sai cem por cento vencido. Esta é uma
via praticável. Na verdade, é a única via. Hoje em dia, à medida
que o mundo se vai tornando cada vez mais pequeno, o conceito de
‘nós’ e de ‘eles’ praticamente passou de validade. Se os nossos
interesses pudessem existir independentemente dos interesses dos
outros, talvez fosse possível ganhar ou perder completamente,
mas uma vez que, na realidade, todos nós dependemos uns dos
outros, os nossos interesses e os dos outros estão
consideravelmente interligados. Por isso, como pode alguém obter
uma vitória a cem por cento? É impossível. Temos de partilhar;
metade para cada lado, ou talvez sessenta por cento de um lado e
quarenta por cento do outro! Sem esta abordagem, a reconciliação
é impossível.
A realidade do mundo de hoje implica que temos de aprender a
pensar deste modo. Esta é a base da minha abordagem das coisas -
a abordagem do ‘caminho do meio’.
Nós, os tibetanos, não poderemos obter uma vitória a cem por
cento, porque, quer queiramos ou não, o futuro do Tibete depende
em grande parte da China. Por conseguinte, num espírito de
reconciliação, eu advogo uma partilha de interesses, de modo a
que seja possível um verdadeiro progresso. O compromisso é a
única via. Através de meios não-violentos podemos partilhar
visões, sentimentos e direitos e, deste modo, podemos resolver
os problemas.
Por vezes digo que o Século XX foi o século do sangue derramado,
um século de guerras. Ao longo do Século XX houve mais
conflitos, mais derramamento de sangue e mais armas do que em
qualquer outro. Portanto, com a experiência que todos nós
tivemos desse século e com tudo o que aprendemos, creio que
devíamos considerar o próximo como um século de diálogo. O
princípio da não-violência deve ser praticado por toda a parte.
Ora, isso não se consegue se ficarmos simplesmente aqui sentados
a rezar. Isso implica trabalho, esforço e mais esforço.”
Dalai Lama
(texto adaptado)
http://www.uniaobudista.pt/dharma.php?show=textos&txtid=1
Actividades:
-
A
partir duma reflexão sobre o filme Kundun,
visualizado na aula, comente as afirmações do texto sobre a
não-violência e as relações com a China. (mínimo de 120
palavras).
-
Discuta criticamente a seguinte afirmação do texto, tendo em
conta a actual situação do terrorismo internacional: “devíamos
considerar o próximo (século – o séc. XXI) como um século de
diálogo. O princípio da não-violência deve ser praticado por
toda a parte”. (mínimo de 120 palavras).
-
No
texto, o Dalai Lama faz uma referência ao cristianismo.
Elabore uma dissertação (num mínimo de 350 palavras),
subordinada ao tema: “Confronto entre o Cristianismo e o
Budismo”. Nessa dissertação deverá ter em especial
consideração os seguintes tópicos:
a)
A forma como o budismo e o cristianismo encaram a vida
humana.
b)
A ideia de Deus, no budismo e no cristianismo (a relação
do homem com a transcendência).
c)
O problema do diálogo inter-religioso: a sua
possibilidade e os obstáculos que ele enfrenta.
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