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1. O texto apresenta diversos elementos
que estão presentes na nossa vida quotidiana:
Em primeiro lugar, o camponês, que se
parece, em traços gerais, com os camponeses de que ouvimos falar (há de
facto anedotas sobre alentejanos, que representam, de certa forma, o
estereótipo do camponês na nossa cultura urbana).
O camponês é a personagem principal da
história.
Em segundo lugar, temos o porteiro. E
todos nós já ouvimos falar da prepotência de certos porteiros (os
porteiros das discotecas, por exemplo, cuja sensibilidade e proverbial
bom humor são um tanto ou quanto sui géneris – desculpem, mas o
palavrão fica bem aqui…). De facto, muitas vezes os porteiros, simples
funcionários na base da escala hierárquica das instituições, assumem
ares de donos da porta que têm a seu cargo e parecem, de peito inchado e
voz autoritária, pessoas que nasceram para mandar só porque aquela porta
está no caminho de alguém que, por qualquer necessidade, precisa de
passar por ela.
Mas há mais elementos que fazem parte do
nosso quotidiano: o portão da Lei, todos os dias vemos portas e portões,
entramos e saímos por eles. A própria Lei é representada como um
edifícios, que é algo de tão abundante que todos sabemos o que é.
Só não ficamos logo a saber o que é a
Lei, o que é que ela representa, mas isso será visto a seguir. Mas todos
nós sabemos que vivemos numa sociedade com leis e normas a que temos que
obedecer, mas pode ser que a Lei a que o texto se refere seja outra
coisa…
2. Não, a história narrada no texto não
pode retratar um evento real. E isto por várias razões:
Há elementos no texto que são
imaginários, que não podem ser reais. O porteiro não envelhece, ao
contrário do que acontece com o camponês. Sendo assim, o tempo é um
factor decisivo na narrativa, uma vez que não afecta da mesma maneira as
personagens e confere uma unidade à acção, mesmo que os seus elementos
sejam radicalmente diferentes.
Por outro lado, a permanência do
camponês em frente à Lei, durante muitos anos, até morrer, não é
verosímil . Ninguém seria tão paciente, nem o célebre Job e se o
camponês fosse algo parecido com um alentejano de gema não teria deixado
de entrar na Lei.
Estamos, então, perante uma história de
ficção, na qual o autor se permitiu usar de uma liberdade que é própria
da imaginação, que consiste na transfiguração do real, colocando-nos
perante um espaço que não é o do nosso quotidiano, por ser mágico e
surpreendente, e fazendo-nos entrar por um tempo parecido com o fluir
meio concreto, meio abstracto dos nossos sonhos.
Mas há outra razão: o mistério que
rodeia a Lei. O que é que será a Lei? Poderá o sentido da vida de um
homem estar encerrado entre as paredes de um edifício?
3. A tentativa de interpretar esta
história levanta os problemas de todas as interpretações: não poderá
deixar de ser pessoal, porque os textos ganham vida pelo nosso acto tão
íntimo da leitura, como não deixará de ser parcial, porque muitos
pormenores da história ficarão por analisar, pois só um demónio com
milhões de olhos poderia ver tudo o que há para ver num pedaço de mundo.
Sendo assim, convém deixar assente que
há muitas interpretações possíveis desta história, algumas são mais
profundas e melhor fundamentadas. Mas é preciso que não esqueçamos que
este texto, contrariamente ao que se deve fazer normalmente, está aqui a
ser instrumentalizado, uma vez que o estou a utilizar com o propósito de
introduzir um conjunto de temas que iremos abordar ao longo do ano. Por
isso puxei a brasa à minha sardinha, o que é fundamental quando o que
importa é fazer ver aquilo que só à força de muito pensamento pode ser
alcançado…
Posto isto, podemos considerar que o
camponês representa o ser humano, representa-nos a nós, na nossa vida.
Ele procura conhecer a Lei, nós, caso não esteja a acontecer-nos algo de
tão terrível que esteja a corroer a nossa humanidade, procuramos a
Felicidade, ou, o que talvez venha a dar no mesmo, procuramos saber qual
o sentido de estarmos vivos e de sermos como somos e de vivermos como
vivemos. Qualquer um de nós se sentiria atraído por aquilo que nos
permitisse alcançar todas as respostas ou nos permitisse alcançar a
felicidade, penso que isto é um ponto assente.
E há que notar uma verdade que o
camponês descobre tarde demais: aquela porta por onde ele tanto esperou
poder entrar, era só dele. O porteiro estava lá em função do dono da
porta, que era o camponês. Confuso não é? Já agora podemos ver que o
camponês fez tudo para entrar na Lei, menos ordenar ao porteiro
que o deixasse entrar, o camponês teve sempre uma atitude passiva
face ao porteiro, manteve sempre uma atitude de inferioridade,
talvez devido ao facto de ignorar que aquela porta era só para si.
Podemos até supor, se bem que nada possa confirmá-lo, que essa
ignorância do camponês seria o que o impedia de entrar na Lei.
Mas como é que ele poderia descobrir que
aquela porta era só para si? De uma forma simples: levantando questões.
Não foi isso que acabou por fazer, mas já tarde demais? Podemos mesmo
ter como certo que é questionando que podemos abrir as portas da
realidade que nos rodeia. Quem não se interroga fica de fora lá
dentro…não sei se estás a perceber…
Tal como o camponês tinha uma porta na
Lei só para ele, também nós temos uma porta só nossa para a Vida.
Entramos por ela se quisermos ou se merecermos, que também aqui parece
ser a mesma coisa.
Mas o que é que representará o Porteiro?
O porteiro é de facto um problema, um obstáculo, surge entre o camponês
e a Lei. Se a porta estivesse escancarada e não tivesse porteiro, talvez
o camponês tivesse entrado. Talvez…
O porteiro representará, nesta nossa
interpretação, os obstáculos que nos vão surgindo ao longo da vida.
Esses obstáculos, ou problemas, na altura em que nos surgem no caminho
podem parecer-nos gigantescos e intransponíveis, mas muito tempo depois
de ultrapassados, parecem-nos menores e sem muita importância. Há que
reparar que o Porteiro ameaça o camponês com a possível existência de
porteiros muito mais terríveis depois daquela porta. Também a nós nos
parece, quando temos um problema a resolver, que mais à frente poderão
surgir problemas muito mais graves.
Ora esta história parece conter um
aviso: ou resolvemos os problemas que vão surgindo na nossa vida e
procuramos avançar sempre em direcção à felicidade, ou ficaremos
parados, como o camponês, a ver a vida passar-nos ao lado e a sentirmos
quão absurda é a nossa situação de espectadores da vida.
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