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1. Não. Isto porque este saber, o senso
comum, nasce basicamente da nossa experiência quotidiana, de forma
espontânea (natural).
Trata-se, pois, de um saber empírico,
que não necessita de uma reflexão profunda para se constituir e cujos
conteúdos não são submetidos a qualquer controlo ou análise crítica,
podendo, por isso, conter inúmeros erros.
É saber básico, superficial e incompleto,
que está direccionado para a solução fácil dos pequenos problemas que
enfrentamos no nosso dia-a-dia.
No nosso quotidiano temos que desempenhar
muitas tarefas básicas, cujo desempenho não requer informações muito
profundas ou complexas sobre o funcionamento da realidade. Por exemplo,
para apanharmos o comboio, temos que saber o que é uma estação de
comboios, como comprar bilhete, como nos devemos dirigir à plataforma...
Todos estes conhecimentos são simples e podem ser apreendidos quer pela
nossa experiência directa das realidades em questão, quer através de
esclarecimentos dados por outras pessoas. Não necessitamos, neste caso,
de saber como se conduz um comboio, ou como este se desloca, como são
feitas as suas engrenagens, etc.
Muitas das nossas crenças nascem, também,
daquilo que ouvimos aos outros, nas conversas de café, na televisão, ou
em qualquer circunstância da nossa vida quotidiana. Há situações por que
nós não passámos, mas de que tomamos conhecimento através do testemunho
de outras pessoas que passaram por essas situações, ou que ouviram falar
delas. Muitos preconceitos são formados desta forma e esta forma de
aquisição de conhecimento é muito superficial e precária. No entanto, a
"normalidade" (ou regularidade) da nossa vida quotidiana estaria
comprometida se não recebêssemos por estas vias informações acerca da
realidade. Esta uma das vantagens de vivermos em sociedade, pois podemos
partilhar dum conjunto de experiências (de outros indivíduos) que nos
permitem antecipar acontecimentos futuros, ou precavermo-nos contra
situações complicadas, isto sem termos que passar por essas situações.
Por exemplo, ao sabermos que alguém está doente por causa do hábito de
fumar, podemos deixar de fumar ou evitar começar. De igual modo, se
alguém nos disser que foi mal servido num certo restaurante, quase de
certeza que iremos evitá-lo. Contudo, estas informações são subjectivas
e podem conter erros de apreciação. É até comum surgirem boatos, muitas
vezes sem qualquer suporte real, que influenciam certos comportamentos.
Ora, a questão é a de sabermos quais os
limites deste tipo de conhecimentos que compõem o nosso senso comum. e é
precisamente isso que falha na maior parte dos casos, pois as pessoas
não fazem uma análise crítica das informações que captam acerca da
realidade, formando assim crenças, ou convicções, que, sendo totalmente
infundadas, acabam por interferir, duma forma muito intensa, nas suas
escolhas e nos seus comportamentos.
2. Não, porque estas "crenças silenciosas"
são convicções básicas, assentes em conhecimentos que, embora
superficiais, são indispensáveis à nossa vida.
Por exemplo, se não acreditássemos que o
tempo existe, que pode ser medido, como poderíamos cumprir as nossas
tarefas quotidianas? Como poderíamos saber, por exemplo, o horário dos
transportes públicos, ou o nosso horário escolar ou laboral? Se não
distinguíssemos entre sonho e realidade, poderíamos enfrentar as
solicitações concretas da nossa vida?
Estas "crenças silenciosas" fazem parte do
senso comum. Ora, o senso comum, se bem que seja um saber superficial e
insuficiente para podermos compreender a nossa situação no mundo, é um
saber imprescindível, pois tem uma vertente prática cuja utilidade é
assinalável. De facto, se não soubéssemos acender a luz, o fogão, a
televisão, etc., como poderíamos desempenhar as tarefas mais simples do
dia-a-dia ?
Sem o senso comum a vida em sociedade não
seria possível. O que permite que vivamos em sociedade é a existência
dum conjunto de valores, crenças, hábitos, conhecimentos, experiências,
associado a um espaço de convivência, estruturado de acordo com regras
económicas relacionadas com a satisfação das necessidades dos
indivíduos. As sociedades humanas carecem duma cultura que lhes
sirva de base, todas as sociedades têm uma cultura que lhes dá coerência
(coesão) e as diferencia das demais sociedades. A diversidade
cultural é um dado importantíssimo quando temos que analisar a
situação do homem no mundo e o senso comum tem a ver com isso, pois ele
é a expressão da cultura de cada uma das sociedades humanas. O senso
comum varia de sociedade para sociedade e é, ao mesmo tempo, um acervo
de informações sobre a realidade específica de cada uma das sociedades.
Ao contrário dos saberes racionais (a filosofia e as
ciências) cujos conteúdos e práticas não variam de sociedade para
sociedade.
No entanto, podemos imaginar uma comunidade
humana a funcionar sem que os seus membros possuam quaisquer
conhecimentos científicos. Seria uma sociedade muito pouco desenvolvida,
pelo menos do ponto de vista da civilização ocidental, mas não deixaria
de funcionar como um todo coeso. O mesmo acontece ao nível da vida de
cada indivíduo, pois se é verdade que quem não vai à escola nem tem uma
formação científica e intelectual, vive pior por esse facto, também não
deixa de ser verdade que um indivíduo pode viver sem essa formação. Ora,
não podemos sequer imaginar uma sociedade sem senso, completamente
regida pelo saber científico. Do mesmo modo, ninguém pode aprender
ciências (ou outros saberes formais) sem partir do senso comum, sem ter
senso comum. Ele é o ponto de partida para a aquisição de conhecimentos
melhor fundamentados que, muitas vezes, o vêm contradizer, mas esses
conhecimentos ser-nos-iam inacessíveis se não possuíssemos um conjunto,
mais ou menos vasto, de elementos adquiridos ao nível do senso comum.
O senso comum deve ser criticado, pode ser
superado ao nível dos saberes racionais, mas é imprescindível para
podermos viver a nossa vida.
E também podemos concluir que o senso comum,
que está em constante mudança, pode evoluir, à medida que a sociedade se
desenvolve e adopta hábitos e valores que permitem uma melhor relação
entre os seus membros e destes com os membros das outras sociedades. É
o que acontece com a progressiva aceitação dos direitos do homem como
base da convivência dentro das sociedades mais desenvolvidas em termos
"humanos" (não nos estamos a referir apenas ao desenvolvimento
económico). Também acontece permanentemente a entrada de informações
científicas no senso comum das sociedades, informações sobre higiene,
segurança, descobertas, saúde, etc. Quem recebe essas informações ao
nível da sua vida quotidiana, não domina os porquês, mas pode mudar os
seus comportamentos de forma a evitar doenças, a melhorar a sua vida e a
dos outros. Daí a existência de campanhas informativas sobre os mais
diversos temas, desde a sexualidade, aos comportamentos de risco nas
questões de saúde, passando pela segurança rodoviária, pela prevenção de
incêndios, etc. |