Filosofia   Ficha 3

Correcção

F i c h a s 10º Ano

 

1. Não. Isto porque este saber, o senso comum, nasce basicamente da nossa experiência quotidiana, de forma espontânea (natural).

Trata-se, pois, de um saber empírico, que não necessita de uma reflexão profunda para se constituir e cujos conteúdos não são submetidos a qualquer controlo ou análise crítica, podendo, por isso, conter inúmeros erros.

É saber básico, superficial e incompleto, que está direccionado para a solução fácil dos pequenos problemas que enfrentamos no nosso dia-a-dia.

No nosso quotidiano temos que desempenhar muitas tarefas básicas, cujo desempenho não requer informações muito profundas ou complexas sobre o funcionamento da realidade. Por exemplo, para apanharmos o comboio, temos que saber o que é uma estação de comboios, como comprar bilhete, como nos devemos dirigir à plataforma... Todos estes conhecimentos são simples e podem ser apreendidos quer pela nossa experiência directa das realidades em questão, quer através de esclarecimentos dados por outras pessoas. Não necessitamos, neste caso, de saber como se conduz um comboio, ou como este se desloca, como são feitas as suas engrenagens, etc.

Muitas das nossas crenças nascem, também, daquilo que ouvimos aos outros, nas conversas de café, na televisão, ou em qualquer circunstância da nossa vida quotidiana. Há situações por que nós não passámos, mas de que tomamos conhecimento através do testemunho de outras pessoas que passaram por essas situações, ou que ouviram falar delas. Muitos preconceitos são formados desta forma e esta forma de aquisição de conhecimento é muito superficial e precária. No entanto, a "normalidade" (ou regularidade) da nossa vida quotidiana estaria comprometida se não recebêssemos por estas vias informações acerca da realidade. Esta uma das vantagens de vivermos em sociedade, pois podemos partilhar dum conjunto de experiências (de outros indivíduos) que nos permitem antecipar acontecimentos futuros, ou precavermo-nos contra situações complicadas, isto sem termos que passar por essas situações. Por exemplo, ao sabermos que alguém está doente por causa do hábito de fumar, podemos deixar de fumar ou evitar começar. De igual modo, se alguém nos disser que foi mal servido num certo restaurante, quase de certeza que iremos evitá-lo. Contudo, estas informações são subjectivas e podem conter erros de apreciação. É até comum surgirem boatos, muitas vezes sem qualquer suporte real, que influenciam certos comportamentos.

Ora, a questão é a de sabermos quais os limites deste tipo de conhecimentos que compõem o nosso senso comum. e é precisamente isso que falha na maior parte dos casos, pois as pessoas não fazem uma análise crítica das informações que captam acerca da realidade, formando assim crenças, ou convicções, que, sendo totalmente infundadas, acabam por interferir, duma forma muito intensa, nas suas escolhas e nos seus comportamentos.

 

2. Não, porque estas "crenças silenciosas" são convicções básicas, assentes em conhecimentos que, embora superficiais, são indispensáveis à nossa vida.

Por exemplo, se não acreditássemos que o tempo existe, que pode ser medido, como poderíamos cumprir as nossas tarefas quotidianas? Como poderíamos saber, por exemplo, o horário dos transportes públicos, ou o nosso horário escolar ou laboral? Se não distinguíssemos entre sonho e realidade, poderíamos enfrentar as solicitações concretas da nossa vida?

Estas "crenças silenciosas" fazem parte do senso comum. Ora, o senso comum, se bem que seja um saber superficial e insuficiente para podermos compreender a nossa situação no mundo, é um saber imprescindível, pois tem uma vertente prática cuja utilidade é assinalável. De facto, se não soubéssemos acender a luz, o fogão, a televisão, etc., como poderíamos desempenhar as tarefas mais simples do dia-a-dia ?

Sem o senso comum a vida em sociedade não seria possível. O que permite que vivamos em sociedade é a existência dum conjunto de valores, crenças, hábitos, conhecimentos, experiências, associado a um espaço de convivência, estruturado de acordo com regras económicas relacionadas com a satisfação das necessidades dos indivíduos. As sociedades humanas carecem duma cultura que lhes sirva de base, todas as sociedades têm uma cultura que lhes dá coerência (coesão) e as diferencia das demais sociedades. A diversidade cultural é um dado importantíssimo quando temos que analisar a situação do homem no mundo e o senso comum tem a ver com isso, pois ele é a expressão da cultura de cada uma das sociedades humanas. O senso comum varia de sociedade para sociedade e é, ao mesmo tempo, um acervo de informações sobre a realidade específica de cada uma das sociedades. Ao contrário dos saberes racionais (a filosofia e as ciências) cujos conteúdos e práticas não variam de sociedade para sociedade.

No entanto, podemos imaginar uma comunidade humana a funcionar sem que os seus membros possuam quaisquer conhecimentos científicos. Seria uma sociedade muito pouco desenvolvida, pelo menos do ponto de vista da civilização ocidental, mas não deixaria de funcionar como um todo coeso. O mesmo acontece ao nível da vida de cada indivíduo, pois se é verdade que quem não vai à escola nem tem uma formação científica e intelectual, vive pior por esse facto, também não deixa de ser verdade que um indivíduo pode viver sem essa formação. Ora, não podemos sequer imaginar uma sociedade sem senso, completamente regida pelo saber científico. Do mesmo modo, ninguém pode aprender ciências (ou outros saberes formais) sem partir do senso comum, sem ter senso comum. Ele é o ponto de partida para a aquisição de conhecimentos melhor fundamentados que, muitas vezes, o vêm contradizer, mas esses conhecimentos ser-nos-iam inacessíveis se não possuíssemos um conjunto, mais ou menos vasto, de elementos adquiridos ao nível do senso comum.

O senso comum deve ser criticado, pode ser superado ao nível dos saberes racionais, mas é imprescindível para podermos viver a nossa vida.

E também podemos concluir que o senso comum, que está em constante mudança, pode evoluir, à medida que a sociedade se desenvolve e adopta hábitos e valores que permitem uma melhor relação entre os seus membros e destes com os membros das outras sociedades. É  o que acontece com a progressiva aceitação dos direitos do homem como base da convivência dentro das sociedades mais desenvolvidas em termos "humanos" (não nos estamos a referir apenas ao desenvolvimento económico). Também acontece permanentemente a entrada de informações científicas no senso comum das sociedades, informações sobre higiene, segurança, descobertas, saúde, etc. Quem recebe essas informações ao nível da sua vida quotidiana, não domina os porquês, mas pode mudar os seus comportamentos de forma a evitar doenças, a melhorar a sua vida e a dos outros. Daí a existência de campanhas informativas sobre os mais diversos temas, desde a sexualidade, aos comportamentos de risco nas questões de saúde, passando pela segurança rodoviária, pela prevenção de incêndios, etc. 

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