Filosofia     Ficha 6

F i c h a s 10º Ano

 

Texto I - A existência autêntica e a existência inautêntica

 

“Julgamos ser coisa simples pensar na vida. Muitas vezes, ficamos a pensar no que nos tem acontecido, revemos os nossos actos, fazemos planos para o futuro. Imaginamos um outro caminho, que poderíamos ter seguido, imaginamos o que gostaríamos que nos acontecesse de futuro e julgamos com isto que pensamos na vida. Pensar na vida, no entanto, não é assim tão simples.

Dizia Platão que o homem vive preso a uma falsa imagem do real. Para ele, não contemplamos em geral a própria realidade, mas apenas as imagens, que estão para o real como a sombra de um objecto para o próprio objecto. Para mostrar este facto, criou a famosa alegoria da caverna: os homens vivem acorrentados, numa caverna, voltados para o seu interior; a luz, que nela penetra, projecta sobre as suas paredes interiores sombras dos objectos reais; desta forma, vemos as sombras projectadas, e julgamos que estas sombras são a realidade; ora, estas sombras têm alguma coisa da forma real, mas são uma imagem pálida e imprecisa da realidade e não a sua visão efectiva e directa. Para Platão, o conhecimento sensível está para o conhecimento intelectual como a sombra está para o objecto de que ela é urna imprecisa projecção. Por isso, para Platão, a missão do filósofo consistiria fundamentalmente em libertar os homens desta visão subalterna, para que eles pudessem contemplar a verdadeira realidade.

Esta concepção de Platão, que nos pormenores poderemos criticar, continua essencialmente válida. A missão fundamental do filósofo consiste em libertar o Homem de um tipo de visão espontânea e superficial, para conduzi lo a um outro tipo de visão do mundo.

Também o filósofo alemão contemporâneo Martin Heidegger nos fala de uma existência inautêntica e de uma existência autêntica. Para Heidegger, o homem comum deixa se levar por uma série de questões superficiais, por uma curiosidade inconsequente, que se perde no conhecimento das simples notícias, sem maiores exigências: esta curiosidade vã coloca o homem diante de uma existência inautêntica, em consequência dos conhecimentos adquiridos sem profundidade. Só quando o homem substitui esta curiosidade inconsequente pela angústia, que é a expressão de uma percepção dramática da existência humana, em que o homem se vê permanentemente numa encruzilhada, em que lhe cabe decidir a sua vida (como o diria igualmente o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard), é que o homem vive a sua existência autêntica.

Quando pensamos a vida não se trata apenas de recordar o passado ou imaginar o futuro. Trata se de julgar a nossa participação na existência, de decidir a nossa vida em função de uma consciência, e de uma responsabilidade assumida, que efectiva a possibilidade de existirmos como seres livres, segundo o que dispõe a nossa natureza.

«Na estrada da vida», eis uma expressão que se repete permanentemente. Fosse apenas uma expressão literária e não haveria problema. Há um problema, no entanto, e grave. É que pensamos a vida como uma estrada.

Nascemos, crescemos aprendemos a andar. Andamos por ruas, andamos por estradas, andamos por caminhos, andamos por picadas, andamos por florestas, abrindo trilhas. Ficamos com a ideia de que a vida é como uma estrada por onde passamos, por onde outros já passaram e por onde outros passarão. E aí está porque somos incapazes de pensar convenientemente a vida.

Martin Heidegger propôs que, para pensarmos a nossa existência, nos imaginássemos a despertar no meio de uma floresta sem qualquer estrada ou caminho. A existência de cada um é uma floresta onde jamais um caminho foi aberto. Cada um de nós tem de abrir o seu caminho, cada um de nós tem de construir a sua própria estrada. Com esta imagem, Heidegger procura mostrar que o fundamental para pensar a existência é não a pensar como uma estrada que já está preparada e a qual é suficiente percorrer. Não, os caminhos não estão preparados, e, na verdade, não existem estradas e não existem caminhos. Existe o ser humano, que se desenvolve no tempo. Para o ser humano, do ponto de vista da sua vida, de facto, nem as ruas por onde caminhamos, nem as estradas que percorremos são sempre as mesmas. Na perspectiva da duração interior que é o nosso existir no tempo, que é o nosso existir histórico, tudo é novo.

E, no entanto, viver é ter a consciência de construir a própria vida. Viver é caminhar, certos de que não existe um caminho anteriormente traçado na existência. O caminhar é o caminho, cada passo que damos abre um caminho, cada escolha que realizamos aprisiona nos e fortalece nos, porque é uma autodeterminação. O modo por que vivemos constrói a expressão do que somos e do que nos fazemos ser. Pensar a vida não é pensá-la em termos de caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser. E, por isso, o que importa é saber como participamos na vida, como sentimos a vida, o que construímos do nosso próprio ser no nosso próprio modo de ser. Desta forma, a vida aparentemente mais simples pode ser a mais heróica, tudo dependendo da intensidade de vida com que o nosso ser se realiza no seu modo de ser.”

E. Prado de Mendonça, 0 Mundo Precisa de Filosofia.

 

 

Texto II - Para além do absurdo

 

A procura de um «sentido» para a vida não se preocupa pela vida em geral nem pelo «mundo» em abstracto, mas pela vida humana e pelo mundo em que nós habitamos e sofremos. Ao perguntar se a vida tem sentido, o que queremos saber é se os nossos esforços morais serão recompensados, se vale a pena trabalhar honradamente e respeitar o próximo ou se seria o mesmo entregar se a vícios criminosos, em suma, se nos espera algo para lá e fora da vida ou apenas o túmulo, como parece evidente.

Mas implicará isto necessariamente que o projecto moral seja sem sentido e supérfluo, a não ser que alguma sanção sobrenatural o avalize contra a própria morte? O homem sabe se mortal e é esse destino que o desperta para a tarefa de pensar. A sua primeira reacção diante da certeza da morte (no caso de optar por não a negar e renunciar a refugiar se na ilusão de algum tipo de existência no além) é de desespero angustiado.

Quando se consegue sobrepor ao desespero, o ser humano constata que é tão verdade que vai morrer como que agora está vivo. Se a morte consiste em não ser nem estar de modo nenhum em parte nenhuma, todos já derrotamos a morte uma vez, a decisiva. Como? Nascendo. Não haverá morte eterna para nós, visto que já estamos vivos, ainda vivos.

O ser humano, quando constata a sua presença na vida, exalta se. E essa constatação exaltada é o que constitui a alegria. A alegria afirma e assume a vida face à morte, face ao desespero.

Mas a alegria não é puro êxtase, mas actividade e vai ainda mais além: luta contra o mal estar desesperado da morte que nos contagia de medo, de avidez e de ódio. A alegria nunca poderá triunfar completamente sobre o desespero (dentro de cada um de nós coexistem o desespero e a alegria) mas também não se renderá diante dela. Baseando nos na alegria, procuramos «aligeirar» a vida do peso opressor e nefasto da morte. O desespero só conhece o nada que ameaça cada um, enquanto que a alegria procura apoio e estende a sua simpatia activa aos nossos semelhantes, os mortais vivos.

Em si mesmo, o mundo em que nós, humanos, nos movemos não tem qualquer sentido ou significado próprios. Como se prova? Que resiste a todos, por mais diferentes que sejam.

O sentido é algo que nós, humanos, damos à vida e ao mundo face ao abismo insignificante do caos, que vencemos aparecendo e ao qual nos submetemos morrendo. É uma grande vitória e uma derrota insignificante, porque o indivíduo morre, mas o sentido que ele quis dar à sua vida não morre... Esse fica para nós, seus companheiros de humanidade. Mas o abismo caótico também está oculto em todos os nossos significados, como o seu reverso, como a sua espessura. Vivemos sobre o abismo e conscientes dele. Por isso a razão humana não é simples fábrica de instrumentos nem se contenta em encontrar soluções para perguntas ainda não definitivas. E também é por isso que a filosofia não é apenas razão mas também imaginação criadora.

A religião promete salvar a alma e ressuscitar o corpo. Pelo contrário, a filosofia nem salva nem ressuscita mas apenas pretende levar até onde for possível a aventura do sentido do humano, a exploração dos significados. Nem rejeita a realidade da morte nem se deixa imbuir desesperadamente pelo medo e pelo ódio que dela brotam: procura pensar os conteúdos da vida e os seus limites ... como se a própria vida dependesse disso. E fá-lo com tanto afinco que às vezes provoca a troça e o sorriso.

Fernando Savater

Actividades:

Grupo I

Texto I:

1.  Explique a distinção, presente no texto, entre existência autêntica e existência inautêntica.

2.  Comente a seguinte afirmação do texto, a partir duma reflexão pessoal sobre o que é a (nossa) vida: “Pensar a vida não é pensá-la em termos de caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser.”

3. Com base no texto, podemos dizer que temos um destino traçado? Justifique a sua resposta.

Texto II:

1.  Comente o último parágrafo do texto.

2.  A morte é um obstáculo na nossa busca de um sentido para a (nossa) vida? Justifique a sua resposta.

 

Grupo II

  1. O que é que significa ter uma “percepção dramática da existência humana”? (Texto 1). Justifique a sua resposta.

  2. Podemos afirmar que a nossa vida é construída pelas decisões que tomamos? Justifique.

  3. Podemos duvidar de que somos livres? Justifique.

SECÇÕES

Fichas 11º Ano

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Pode confrontar os textos desta ficha, com o seguinte artigo:

A importância do presente

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