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Texto I - A existência autêntica e a
existência inautêntica
“Julgamos ser coisa simples
pensar na vida. Muitas vezes, ficamos a pensar no que nos tem
acontecido, revemos os nossos actos, fazemos planos para o
futuro. Imaginamos um outro caminho, que poderíamos ter seguido,
imaginamos o que gostaríamos que nos acontecesse de futuro e
julgamos com isto que pensamos na vida. Pensar na vida, no
entanto, não é assim tão simples.
Dizia
Platão que o homem vive preso a uma falsa imagem do real.
Para ele, não contemplamos em geral a própria realidade, mas
apenas as imagens, que estão para o real como a sombra de um
objecto para o próprio objecto. Para mostrar este facto, criou a
famosa alegoria da caverna: os homens vivem acorrentados,
numa caverna, voltados para o seu interior; a luz, que nela
penetra, projecta sobre as suas paredes interiores sombras dos
objectos reais; desta forma, vemos as sombras projectadas, e
julgamos que estas sombras são a realidade; ora, estas sombras
têm alguma coisa da forma real, mas são uma imagem pálida e
imprecisa da realidade e não a sua visão efectiva e directa.
Para Platão, o conhecimento sensível está para o conhecimento
intelectual como a sombra está para o objecto de que ela é urna
imprecisa projecção. Por isso, para Platão, a missão do filósofo
consistiria fundamentalmente em libertar os homens desta visão
subalterna, para que eles pudessem contemplar a verdadeira
realidade.
Esta concepção de Platão,
que nos pormenores poderemos criticar, continua essencialmente
válida. A missão fundamental do filósofo consiste em libertar o
Homem de um tipo de visão espontânea e superficial, para
conduzi lo a um outro tipo de visão do mundo.
Também o filósofo alemão
contemporâneo
Martin Heidegger nos fala de uma existência inautêntica e de
uma existência autêntica. Para Heidegger, o homem comum deixa se
levar por uma série de questões superficiais, por uma
curiosidade inconsequente, que se perde no conhecimento das
simples notícias, sem maiores exigências: esta curiosidade vã
coloca o homem diante de uma existência inautêntica, em
consequência dos conhecimentos adquiridos sem profundidade. Só
quando o homem substitui esta curiosidade inconsequente pela
angústia, que é a expressão de uma percepção dramática da
existência humana, em que o homem se vê permanentemente numa
encruzilhada, em que lhe cabe decidir a sua vida (como o diria
igualmente o filósofo dinamarquês
Soren Kierkegaard), é que o homem vive a sua existência
autêntica.
Quando pensamos a vida não
se trata apenas de recordar o passado ou imaginar o futuro.
Trata se de julgar a nossa participação na existência, de
decidir a nossa vida em função de uma consciência, e de
uma responsabilidade assumida, que efectiva a
possibilidade de existirmos como seres livres, segundo o
que dispõe a nossa natureza.
«Na estrada da vida», eis
uma expressão que se repete permanentemente. Fosse apenas uma
expressão literária e não haveria problema. Há um problema, no
entanto, e grave. É que pensamos a vida como uma estrada.
Nascemos, crescemos
aprendemos a andar. Andamos por ruas, andamos por estradas,
andamos por caminhos, andamos por picadas, andamos por
florestas, abrindo trilhas. Ficamos com a ideia de que a vida é
como uma estrada por onde passamos, por onde outros já passaram
e por onde outros passarão. E aí está porque somos incapazes de
pensar convenientemente a vida.
Martin Heidegger propôs que,
para pensarmos a nossa existência, nos imaginássemos a despertar
no meio de uma floresta sem qualquer estrada ou caminho. A
existência de cada um é uma floresta onde jamais um caminho foi
aberto. Cada um de nós tem de abrir o seu caminho, cada um de
nós tem de construir a sua própria estrada. Com esta imagem,
Heidegger procura mostrar que o fundamental para pensar a
existência é não a pensar como uma estrada que já está preparada
e a qual é suficiente percorrer. Não, os caminhos não estão
preparados, e, na verdade, não existem estradas e não existem
caminhos. Existe o ser humano, que se desenvolve no tempo.
Para o ser humano, do ponto de vista da sua vida, de facto,
nem as ruas por onde caminhamos, nem as estradas que percorremos
são sempre as mesmas. Na perspectiva da duração interior que é o
nosso existir no tempo, que é o nosso existir histórico, tudo é
novo.
E, no entanto, viver é ter a
consciência de construir a própria vida. Viver é caminhar,
certos de que não existe um caminho anteriormente traçado na
existência. O caminhar é o caminho, cada passo que damos abre um
caminho, cada escolha que realizamos aprisiona nos e
fortalece nos, porque é uma autodeterminação. O modo por que
vivemos constrói a expressão do que somos e do que nos fazemos
ser. Pensar a vida não é pensá-la em termos de caminho que
percorremos, porque viver não é passar, mas é ser. E, por isso,
o que importa é saber como participamos na vida, como sentimos a
vida, o que construímos do nosso próprio ser no nosso próprio
modo de ser. Desta forma, a vida aparentemente mais simples pode
ser a mais heróica, tudo dependendo da intensidade de vida com
que o nosso ser se realiza no seu modo de ser.”
E. Prado de Mendonça, 0
Mundo Precisa de Filosofia.
Texto II -
Para além do absurdo
A procura de um «sentido»
para a vida não se preocupa pela vida em geral nem pelo «mundo»
em abstracto, mas pela vida humana e pelo mundo em que nós
habitamos e sofremos. Ao perguntar se a vida tem sentido, o que
queremos saber é se os nossos esforços morais serão
recompensados, se vale a pena trabalhar honradamente e respeitar
o próximo ou se seria o mesmo entregar se a vícios criminosos,
em suma, se nos espera algo para lá e fora da vida ou apenas o
túmulo, como parece evidente.
Mas implicará isto
necessariamente que o projecto moral seja sem sentido e
supérfluo, a não ser que alguma sanção sobrenatural o avalize
contra a própria morte? O homem sabe se mortal e é esse destino
que o desperta para a tarefa de pensar. A sua primeira reacção
diante da certeza da morte (no caso de optar por não a negar e
renunciar a refugiar se na ilusão de algum tipo de existência no
além) é de desespero angustiado.
Quando se consegue sobrepor
ao desespero, o ser humano constata que é tão verdade que vai
morrer como que agora está vivo. Se a morte consiste em não ser
nem estar de modo nenhum em parte nenhuma, todos já derrotamos a
morte uma vez, a decisiva. Como? Nascendo. Não haverá morte
eterna para nós, visto que já estamos vivos, ainda vivos.
O ser humano, quando
constata a sua presença na vida, exalta se. E essa constatação
exaltada é o que constitui a alegria. A alegria afirma e assume
a vida face à morte, face ao desespero.
Mas a alegria não é puro
êxtase, mas actividade e vai ainda mais além: luta contra o
mal estar desesperado da morte que nos contagia de medo, de
avidez e de ódio. A alegria nunca poderá triunfar completamente
sobre o desespero (dentro de cada um de nós coexistem o
desespero e a alegria) mas também não se renderá diante dela.
Baseando nos na alegria, procuramos «aligeirar» a vida do peso
opressor e nefasto da morte. O desespero só conhece o nada que
ameaça cada um, enquanto que a alegria procura apoio e estende a
sua simpatia activa aos nossos semelhantes, os mortais vivos.
Em si mesmo, o mundo em que
nós, humanos, nos movemos não tem qualquer sentido ou
significado próprios. Como se prova? Que resiste a todos, por
mais diferentes que sejam.
O sentido é algo que nós,
humanos, damos à vida e ao mundo face ao abismo insignificante
do caos, que vencemos aparecendo e ao qual nos submetemos
morrendo. É uma grande vitória e uma derrota insignificante,
porque o indivíduo morre, mas o sentido que ele quis dar à sua
vida não morre... Esse fica para nós, seus companheiros de
humanidade. Mas o abismo caótico também está oculto em todos os
nossos significados, como o seu reverso, como a sua espessura.
Vivemos sobre o abismo e conscientes dele. Por isso a razão
humana não é simples fábrica de instrumentos nem se contenta em
encontrar soluções para perguntas ainda não definitivas. E
também é por isso que a filosofia não é apenas razão mas também
imaginação criadora.
A religião promete salvar a
alma e ressuscitar o corpo. Pelo contrário, a filosofia nem
salva nem ressuscita mas apenas pretende levar até onde for
possível a aventura do sentido do humano, a exploração dos
significados. Nem rejeita a realidade da morte nem se deixa
imbuir desesperadamente pelo medo e pelo ódio que dela brotam:
procura pensar os conteúdos da vida e os seus limites ... como
se a própria vida dependesse disso. E fá-lo com tanto afinco que
às vezes provoca a troça e o sorriso.
Fernando Savater
Actividades:
Grupo I
Texto I:
1. Explique a distinção, presente no texto, entre existência
autêntica e existência inautêntica.
2. Comente a seguinte
afirmação do texto, a partir duma reflexão pessoal sobre o que é
a (nossa) vida: “Pensar a vida não é pensá-la em termos de
caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser.”
3. Com base no texto,
podemos dizer que temos um destino traçado? Justifique a sua
resposta.
Texto II:
1. Comente
o último parágrafo do texto.
2. A morte é um obstáculo
na nossa busca de um sentido para a (nossa) vida? Justifique a
sua resposta.
Grupo II
-
O que é que significa ter
uma “percepção dramática da existência humana”? (Texto 1).
Justifique a sua resposta.
-
Podemos afirmar que a
nossa vida é construída pelas decisões que tomamos?
Justifique.
-
Podemos duvidar de que
somos livres? Justifique.
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