Filosofia     Ficha 7

F i c h a s 10º Ano

 

A nuvem e a duna

 

“Toda a gente sabe que a vida das nuvens é muito movimentada, mas também muito curta”, escreve Bruno Ferrero. E vamos a mais uma história:

Uma jovem nuvem nasceu no meio de uma grande tempestade no Mar Mediterrâneo. Mas sequer teve tempo de crescer ali; um vento forte empurrou todas as nuvens em direcção a África.

Assim que chegaram ao continente, o clima mudou: um sol generoso brilhava no céu, e em baixo estendia-se a areia dourada do deserto de Sahara. O vento continuou a empurrá-las em direcção às florestas do sul, já que no deserto quase não chove.

Entretanto, assim como acontece com os jovens humanos, também acontece com as jovens nuvens: ela resolveu desgarrar-se dos seus pais e amigos mais velhos, para conhecer o mundo.

- O que é que estás a fazer? – reclamou o vento. – O deserto é todo igual! Volta para a formação, e vamos até o centro da África, onde existem montanhas e árvores deslumbrantes!

Mas a jovem nuvem, rebelde por natureza, não obedeceu; pouco a pouco, foi baixando de altitude, até conseguir planar numa brisa suave, generosa, perto das areias douradas. Depois de muito passear, reparou que uma das dunas estava a sorrir para ela.

Viu que ela também era jovem, recém-formada pelo vento que acabara de passar. Na mesma hora, apaixonou-se pela sua cabeleira dourada.

- Bom dia – disse. – Como é viver aí em baixo?

- Tenho a companhia das outras dunas, do sol, do vento, e das caravanas que de vez em quando passam por aqui. Às vezes faz muito calor, mas dá para aguentar. E como é viver aí em cima?

- Também existe o vento e o sol, mas a vantagem é que posso passear pelo céu, e conhecer muita coisa.

- Para mim a vida é curta – disse a duna. – Quando o vento retornar das florestas, irei desaparecer.

- E isso entristece-te?

- Dá-me a impressão de que não sirvo para nada.

- Eu também sinto o mesmo. Assim que um novo vento passar, irei para o sul e me transformarei em chuva; entretanto, esse é meu destino.

A duna hesitou um pouco, mas acabou por dizer:

- Sabes que, aqui no deserto, nós chamamos à chuva Paraíso?

- Eu não sabia que podia transformar-me em algo tão importante – disse a nuvem, orgulhosa.

- Já ouvi várias lendas contadas por velhas dunas. Elas dizem que, após a chuva, nós ficamos cobertas de ervas e de flores. Mas eu nunca saberei o que é isso, porque no deserto chove muito raramente.

Foi a vez da nuvem ficar hesitante. Mas logo em seguida, tornou a abrir o seu largo sorriso:

- Se quiseres, eu posso cobrir-te de chuva. Embora tenha acabado de chegar, estou apaixonada por ti, e gostaria de ficar aqui para sempre.

- Quando te vi pela primeira vez no céu, também me enamorei – disse a duna. – mas se transformares a tua linda cabeleira branca em chuva, acabarás por morrer.

- O amor nunca morre – disse a duna. – Ele transforma-se; e eu quero mostrar-te o Paraíso.

E começou a acariciar a duna com pequenas gotas; assim permaneceram juntas por muito tempo, até que um arco-íris apareceu.

No dia seguinte, a pequena duna estava coberta de flores. Outras nuvens que passavam em direcção a África, achavam que ali estava parte da floresta de que andavam à procura, e despejavam mais chuva. Vinte anos depois, a duna tinha-se transformado num oásis, que refrescava os viajantes com a sombra das suas árvores.

Tudo porque, um dia, uma nuvem apaixonada não tivera medo de dar a sua vida por causa do amor.”

Paulo Coelho

Actividades:

1 – A história narrada no texto pode aplicar-se à nossa vida? Justifique a sua resposta apresentando um mínimo de quatro argumentos.

2 – Comente a seguinte afirmação do texto, tendo em conta o contexto em que se insere: “ Dá-me a impressão de que não sirvo para nada”.

SECÇÕES

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