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Filósofo: -
Kant tinha desde o princípio a forte impressão de
que a diferença entre o justo e o injusto tinha de ser mais do que uma
questão de sentimentos. <…>
Todos os homens
sabem o que é justo e o que não é, e nós sabemo-lo não apenas porque o
aprendemos mas também porque é inerente à nossa razão. Kant achava que
todos os homens tinham uma “razão prática” que nos diz sempre o que é
justo e o que é injusto no domínio da moral.
Sofia: - Então é inata?
Filósofo:
- A capacidade de distinguir o justo do injusto é
tão inata como todos os outros atributos da razão. Todos os homens vêem
os fenómenos como determinados causalmente – e também têm acesso à mesma
lei moral universal. Esta lei moral tem a mesma validade absoluta que as
leis físicas da natureza. Isso é tão fundamental para a nossa vida moral
como é fundamental para a nossa vida racional que tudo tenha uma causa,
ou que sete mais cinco sejam doze.
Sofia: - E o que é que diz essa lei
moral?
Filósofo:
- Uma vez que precede qualquer experiência, é "formal". Significa que
não está relacionada com possibilidades morais de escolha determinadas.
É válida para todos os homens em todas as sociedades e em todos os
tempos. Logo, não diz que tens de fazer isto ou aquilo nesta ou naquela
situação. Diz como te deves comportar em todas as situações.
Sofia: - Mas que sentido tem uma
lei moral, se não nos diz como nos devemos comportar numa situação
determinada?
Filósofo:
- Kant formula a lei moral como imperativo
categórico. Por isto, ele entende que a lei moral é "categórica", quer
dizer, é válida em todas as situações. Além disso, é um "imperativo" e
consequentemente uma "ordem" e absolutamente inevitável.
Aliás, Kant
formula o seu imperativo categórico de diversas formas. Primeiro, diz:
“devíamos agir sempre de tal forma que pudéssemos desejar
simultaneamente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei
universal”.
Sofia: - Quando faço alguma
coisa, tenho de ter a certeza de que desejo que todos façam o mesmo na
mesma situação.
Filósofo:
- Exacto. Só nessa altura ages de acordo com a tua
lei moral interior. Kant também formulou o imperativo categórico da
seguinte forma: devemos tratar os outros homens sempre como um fim em si
e não como um meio para alguma outra coisa.
Sofia: - Não podemos portanto
"explorar" os outros para obtermos benefícios.
Filósofo: -
Não, porque todos os homens são um fim em si. Mas isso não é válido
apenas para os outros, mas também para nós mesmos. Também não nos
devemos explorar como meio para alcançar algo.
Sofia: - Isso faz-me lembrar a
"regra dourada": não faças aos outros o que não queres que te façam a
ti.
Filósofo:
- Sim, e isso é uma norma
formal que abrange basicamente todas as possibilidades éticas de
escolha. Podes afirmar que essa regra dourada exprime aproximadamente
aquilo a que Kant chamou lei moral.
Sofia: - Mas isso é apenas
conversa…<…>
Filósofo:
- Para Kant, a lei moral
era tão absoluta e universalmente válida como, por exemplo, a lei da
causalidade. Também não pode ser provada pela razão, mas é incontornável. Nenhum
homem a contestaria.
Sofia - Começo a ter a sensação
de que estamos realmente a falar da consciência moral, porque todos os
homens têm uma consciência moral.
Filósofo: -
Sim, quando Kant
descreve a lei moral, descreve a consciência humana. Não podemos provar
o que a consciência diz, mas sabêmo-lo.
Sofia: - Por vezes, sou muito
simpático para com os outros simplesmente porque é vantajoso para mim.
Desse modo, posso ser popular.
Filósofo: - Mas quando és simpática
para com os outros apenas para seres popular, não estás a agir de acordo
com a lei moral. Talvez não estejas a observar a lei moral. Talvez
estejas a agir numa espécie de acordo superficial com a lei moral - e
isso já é alguma coisa -, mas uma acção moral tem de ser o resultado de
uma superação de ti mesma. Só quando fazes algo porque achas ser teu
“dever” seguir a lei moral é que podes falar de uma acção moral. Por
isso, a ética de Kant é frequentemente chamada “ética do dever”.
Sofia: - Eu posso achar ser meu
dever juntar dinheiro para a Cruz Vermelha ou a Caritas.
Filósofo:
- Sim, e o importante é tu
fazeres uma coisa porque a achas correcta. Mesmo quando o dinheiro que
tu juntaste se extravia ou nunca alimente as pessoas que devia
alimentar, tu cumpriste a lei moral. Agiste com a atitude correcta e,
segundo Kant, a atitude é decisiva para podermos dizer que uma acção é
moralmente correcta. Não são as consequências de uma acção que são
decisivas. Por isso, também dizemos que a “ética de Kant é uma ética da
boa vontade”.
Sofia: - Porque é que era tão
importante para ele saber quando é que agimos por respeito à lei moral?
Não é mais importante que aquilo que fazemos ajude os outros?
Filósofo:
- Sim, Kant concordaria,
mas só quando sabemos que agimos por respeito à lei moral é que agimos
em “liberdade”.
Sofia: - Só obedecendo a uma lei
é que agimos em liberdade? Isso não é estranho?
Filósofo: - Segundo Kant, não. Kant
achava que todas as coisas seguem a lei da causalidade. Como é que
podemos ter livre arbítrio assim?
Sofia: - Não me perguntes.
Filósofo:
- Aqui, Kant divide o
homem em duas partes<…>: enquanto seres sensíveis, estamos completamente
sujeitos às leis imutáveis da causalidade, segundo Kant. Não decidimos o
que sentimos; as sensações surgem necessariamente e influenciam-nos,
quer queiramos quer não. Mas o homem não é apenas um ser sensível.
Somos também seres racionais.
Sofia: - Explica-me isso!
Filósofo:
- Enquanto seres
sensíveis, pertencemos à ordem da natureza. Por isso estamos sujeitos à
lei da causalidade. Deste ponto de vista, não temos livre arbítrio. Mas
enquanto seres racionais, participamos no mundo "em si" – ou seja, no
mundo independente das nossas sensações. Só quando seguimos a nossa
"razão prática" - que nos possibilita fazer uma escolha moral -, temos
livre arbítrio. Se obedecermos à lei moral, somos nós que fazemos a lei
pela qual nos orientamos.
Sofia: - Sim, isso está certo. Eu
digo (ou alguma coisa em mim diz) que eu não devo ser má para os outros.
Filósofo:
- Se decides não ser má -
mesmo quando ages contra o teu próprio interesse egoísta - então estás a
agir livremente.
Sofia: - Pelo menos, não somos
livres e autónomos quando seguimos apenas os nossos instintos.
Filósofo: - Podemos fazer-nos
escravos de tudo. Sim, podemos inclusivamente ser escravos do nosso
próprio egoísmo. Para nos elevarmos acima dos nossos instintos e vícios
é necessário autonomia - e liberdade.
Sofia: - E quanto aos animais?
Eles seguem só os seus instintos e necessidades. Não têm essa liberdade
de seguir uma lei moral?
Filósofo: - Não, é justamente esta
liberdade que nos torna seres humanos.
Sofia:
- Estou a ver.
Jostein Gaarder,
Mundo de Sofia.
Exercício de aprofundamento:
Sente-se num local sossegado. Feche os
olhos. Concentre-se na respiração (sem a querer controlar). Siga o
percurso do ar na inspiração e na expiração.
Ao inspirar imagine que está a captar
energias positivas que se vão espalhando por todas as células do seu
corpo, deixando-as completamente vitalizadas e harmonizadas umas com as
outras. Ao expirar imagine que está a ver-se livre de todas as energias
negativas que acumulou ao longo do tempo. Pode manter esta prática o
tempo que desejar.
Quando se sentir energizado/a, imagine
que do céu azul bem acima de si uma luz muito brilhante e dourada desce
na sua direcção e penetra pelo topo da sua cabeça. Sinta a energia
subtil dessa luz a inundá-lo lentamente, deixando-o/a em paz e
completamente feliz consigo próprio/a.
Depois, imagine que essa luz, sem
deixar de fluir desde o céu e dentro de si, lhe sai pelo peito e se vai
comunicar com todos os seres humanos que ficam unidos numa imensa teia
de luz. Sinta a comunicação que se estabelece desse modo com todos os
seres humanos.
Lentamente, saia dessa experiência e
olhe em redor…
Depois, responda às seguintes questões:
- O que é que eu não devo fazer se
quiser que uma comunicação deste tipo se estabeleça entre mim e os
outros? Essa comunicação pode ser estabelecida exclusivamente por via
racional? Se achar que sim, explique porquê; se achar que não, indique
que via, ou que vias podem servir para esse objectivo (também pode achar
que isso é impossível e aí deverá dizer porquê). Justifique sempre as
suas conclusões.
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