Objectivos: 

  • Compreender que a ética deontológica de Kant assenta na Razão, sendo puramente formal.

  • Reconhecer que, de acordo com Kant, existem duas dimensões da natureza humana, a dimensão racional e a dimensão sensível (animal) e que o agir moral assenta na dimensão racional, excluindo a dimensão sensível.

  • Distinguir imperativos hipotéticos e imperativos categóricos.

  • Reconhecer o carácter incondicionado do imperativo categórico.

  • Compreender que a moral de Kant assenta no cumprimento do dever moral que corresponde ao agir completamente desinteressado (independente dos sentimentos – as inclinações sensíveis – e dos interesses egoístas), por puro respeito à lei moral.

  • Reconhecer que a pessoa só se realiza se for autónoma, uma vez que, de acordo com Kant, a pessoa é um fim em si.

  • Compreender que a lei moral é formulada pela nossa razão e, ao agirmos de acordo com ela, estamos a ser autónomos porque estamos a obedecer a uma legislação (universal) que é formulada pela nossa razão

 

Filosofia     Ficha A13

Aulas 10º Ano

Sumário:  A ética deontológica de Kant: uma moral fundada na Razão.

                          O Imperativo Categórico.

 

Filósofo: - Kant tinha desde o princípio a forte impressão de que a diferença entre o justo e o injusto tinha de ser mais do que uma questão de sentimentos. <…>

Todos os homens sabem o que é justo e o que não é, e nós sabemo-lo não apenas porque o aprendemos mas também porque é inerente à nossa razão. Kant achava que todos os homens tinham uma “razão prática” que nos diz sempre o que é justo e o que é injusto no domínio da moral.

   Sofia: - Então é inata?

 Filósofo: - A capacidade de distinguir o justo do injusto é tão inata como todos os outros atributos da razão. Todos os homens vêem os fenómenos como determinados causalmente – e também têm acesso à mesma lei moral universal. Esta lei moral tem a mesma validade absoluta que as leis físicas da natureza. Isso é tão fundamental para a nossa vida moral como é fundamental para a nossa vida racional que tudo tenha uma causa, ou que sete mais cinco sejam doze.

 Sofia: - E o que é que diz essa lei moral?

 Filósofo: - Uma vez que precede qualquer experiência, é "formal". Significa que não está relacionada com possibilidades morais de escolha determinadas. É válida para todos os homens em todas as sociedades e em todos os tempos. Logo, não diz que tens de fazer isto ou aquilo nesta ou naquela situação. Diz como te deves comportar em todas as situações.

   Sofia: - Mas que sentido tem uma lei moral, se não nos diz como nos devemos comportar numa situação determinada?

  Filósofo: - Kant formula a lei moral como imperativo categórico. Por isto, ele entende que a lei moral é "categórica", quer dizer, é válida em todas as situações. Além disso, é um "imperativo" e consequentemente uma "ordem" e absolutamente inevitável.

Aliás, Kant formula o seu imperativo categórico de diversas formas. Primeiro, diz: “devíamos agir sempre de tal forma que pudéssemos desejar simultaneamente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei universal”.

   Sofia: - Quando faço alguma coisa, tenho de ter a certeza de que desejo que todos façam o mesmo na mesma situação.

  Filósofo: - Exacto. Só nessa altura ages de acordo com a tua lei moral interior. Kant também formulou o imperativo categórico da seguinte forma: devemos tratar os outros homens sempre como um fim em si e não como um meio para alguma outra coisa.

   Sofia: - Não podemos portanto "explorar" os outros para obtermos benefícios.

  Filósofo: - Não, porque todos os homens são um fim em si. Mas isso não é válido apenas para os outros, mas também para nós mesmos. Também não nos devemos explorar como meio para alcançar algo.

   Sofia: - Isso faz-me lembrar a "regra dourada": não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

  Filósofo: - Sim, e isso é uma norma formal que abrange basicamente todas as possibilidades éticas de escolha. Podes afirmar que essa regra dourada exprime aproximadamente aquilo a que Kant chamou lei moral.

   Sofia: - Mas isso é apenas conversa…<…>

 Filósofo: - Para Kant, a lei moral era tão absoluta e universalmente válida como, por exemplo, a lei da causalidade. Também não pode ser provada pela razão, mas é incontornável. Nenhum homem a contestaria.

   Sofia - Começo a ter a sensação de que estamos realmente a falar da consciência moral, porque todos os homens têm uma consciência moral.

 Filósofo: - Sim, quando Kant descreve a lei moral, descreve a consciência humana. Não podemos provar o que a consciência diz, mas sabêmo-lo.

   Sofia: - Por vezes, sou muito simpático para com os outros simplesmente porque é vantajoso para mim. Desse modo, posso ser popular.

Filósofo: - Mas quando és simpática para com os outros apenas para seres popular, não estás a agir de acordo com a lei moral. Talvez não estejas a observar a lei moral. Talvez estejas a agir numa espécie de acordo superficial com a lei moral - e isso já é alguma coisa -, mas uma acção moral tem de ser o resultado de uma superação de ti mesma. Só quando fazes algo porque achas ser teu “dever” seguir a lei moral é que podes falar de uma acção moral. Por isso, a ética de Kant é frequentemente chamada “ética do dever”.

   Sofia: - Eu posso achar ser meu dever juntar dinheiro para a Cruz Vermelha ou a Caritas.

 Filósofo: - Sim, e o importante é tu fazeres uma coisa porque a achas correcta. Mesmo quando o dinheiro que tu juntaste se extravia ou nunca alimente as pessoas que devia alimentar, tu cumpriste a lei moral. Agiste com a atitude correcta e, segundo Kant, a atitude é decisiva para podermos dizer que uma acção é moralmente correcta. Não são as consequências de uma acção que são decisivas. Por isso, também dizemos que a “ética de Kant é uma ética da boa vontade”.

   Sofia: - Porque é que era tão importante para ele saber quando é que agimos por respeito à lei moral? Não é mais importante que aquilo que fazemos ajude os outros?

 Filósofo: - Sim, Kant concordaria, mas só quando sabemos que agimos por respeito à lei moral é que agimos em “liberdade”.

   Sofia: - Só obedecendo a uma lei é que agimos em liberdade? Isso não é estranho?

 Filósofo: - Segundo Kant, não. Kant achava que todas as coisas seguem a lei da causalidade. Como é que podemos ter livre arbítrio assim?

   Sofia: - Não me perguntes.

 Filósofo: - Aqui, Kant divide o homem em duas partes<…>: enquanto seres sensíveis, estamos completamente sujeitos às leis imutáveis da causalidade, segundo Kant. Não decidimos o que sentimos; as sensações surgem necessariamente e influenciam-nos, quer queiramos quer não. Mas o homem não é apenas um ser sensível. Somos também seres racionais.

   Sofia: - Explica-me isso!

 Filósofo: - Enquanto seres sensíveis, pertencemos à ordem da natureza. Por isso estamos sujeitos à lei da causalidade. Deste ponto de vista, não temos livre arbítrio. Mas enquanto seres racionais, participamos no mundo "em si" – ou seja, no mundo independente das nossas sensações. Só quando seguimos a nossa "razão prática" - que nos possibilita fazer uma escolha moral -, temos livre arbítrio. Se obedecermos à lei moral, somos nós que fazemos a lei pela qual nos orientamos.

   Sofia: - Sim, isso está certo. Eu digo (ou alguma coisa em mim diz) que eu não devo ser má para os outros.

 Filósofo: - Se decides não ser má - mesmo quando ages contra o teu próprio interesse egoísta - então estás a agir livremente.

   Sofia: - Pelo menos, não somos livres e autónomos quando seguimos apenas os nossos instintos.

Filósofo: - Podemos fazer-nos escravos de tudo. Sim, podemos inclusivamente ser escravos do nosso próprio egoísmo. Para nos elevarmos acima dos nossos instintos e vícios é necessário autonomia - e liberdade.

   Sofia: - E quanto aos animais? Eles seguem só os seus instintos e necessidades. Não têm essa liberdade de seguir uma lei moral?

Filósofo: - Não, é justamente esta liberdade que nos torna seres humanos.

   Sofia: - Estou a ver.

                                                                                             Jostein Gaarder, Mundo de Sofia.

 

 

Exercício de aprofundamento:

 

Sente-se num local sossegado. Feche os olhos. Concentre-se na respiração (sem a querer controlar). Siga o percurso do ar na inspiração e na expiração.

Ao inspirar imagine que está a captar energias positivas que se vão espalhando por todas as células do seu corpo, deixando-as completamente vitalizadas e harmonizadas umas com as outras. Ao expirar imagine que está a ver-se livre de todas as energias negativas que acumulou ao longo do tempo. Pode manter esta prática o tempo que desejar.

Quando se sentir energizado/a, imagine que do céu azul bem acima de si uma luz muito brilhante e dourada desce na sua direcção e penetra pelo topo da sua cabeça. Sinta a energia subtil dessa luz a inundá-lo lentamente, deixando-o/a em paz e completamente feliz consigo próprio/a.

Depois, imagine que essa luz, sem deixar de fluir desde o céu e dentro de si, lhe sai pelo peito e se vai comunicar com todos os seres humanos que ficam unidos numa imensa teia de luz. Sinta a comunicação que se estabelece desse modo com todos os seres humanos.

 

Lentamente, saia dessa experiência e olhe em redor…

 

Depois, responda às seguintes questões:

   - O que é que eu não devo fazer se quiser que uma comunicação deste tipo se estabeleça entre mim e os outros? Essa comunicação pode ser estabelecida exclusivamente por via racional? Se achar que sim, explique porquê; se achar que não, indique que via, ou que vias podem servir para esse objectivo (também pode achar que isso é impossível e aí deverá dizer porquê). Justifique sempre as suas conclusões.

 

 

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