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O espanto como a origem do filosofar
Texto 1
A
atitude crítica
A primeira característica da atitude filosófica é negativa, isto é, um
dizer não ao senso comum, aos pré-conceitos, aos pré-juízos,
aos factos e às ideias da experiência quotidiana, ao que "toda a gente diz
e pensa", ao estabelecido.
A segunda característica da atitude filosófica é positiva, isto é, uma
interrogação sobre o que são as coisas, as ideias, os factos, as
situações, os comportamentos, os valores, nós mesmos. É também uma
interrogação sobre o porquê disso tudo e de nós, e uma interrogação sobre
como tudo isso é assim e não de outra maneira. O que é? Por que é? Como é?
Essas são as indagações fundamentais da atitude filosófica.
A face negativa e a face positiva da atitude filosófica constituem o que
chamamos de atitude crítica e pensamento crítico. A Filosofia começa por
dizer não às crenças e aos preconceitos do senso comum e, portanto, começa
por dizer que não sabemos o que imaginávamos saber; por isso, o patrono da
Filosofia, o grego
Sócrates, afirmava que a primeira e fundamental verdade filosófica
é dizer: "Só sei que nada sei".
Para o discípulo de Sócrates, o filósofo grego
Platão, a Filosofia
começa com a admiração; já o discípulo de
Platão, o filósofo
Aristóteles,
acreditava que a Filosofia começa com o espanto. Admiração e espanto
significam: tomamos distância do nosso mundo costumeiro, através do nosso
pensamento, olhando-o como se nunca o tivéssemos visto antes, como se não
tivéssemos tido família, amigos, professores, livros e outros meios de
comunicação que nos tivessem dito o que o mundo é; como se tivéssemos
acabado de nascer para o mundo e para nós mesmos e precisássemos de
perguntar o que é, por que é e como é o mundo, e precisássemos perguntar
também o que somos, por que somos e como somos.
Marilena
Chaui
Texto 2
O
espanto e a origem do filosofar
De
facto, é devido ao seu espanto que os homens começam a filosofar, isto é
válido tanto para os homens de hoje, como para aqueles que primeiro se
dedicaram à filosofia.
Estes espantaram-se de início com as dificuldades mais óbvias e, depois,
avançaram a pouco e pouco e levantaram problemas sobre assuntos mais
importantes, tais como os fenómenos da lua, do sol e das estrelas e,
também, acerca da origem do Universo.
E um
homem que se sente confundido e se espanta considera-se ignorante. Sendo
assim, uma vez que eles filosofavam para fugirem à ignorância, é evidente
que perseguiam o saber simplesmente para conhecer e não com um qualquer
fim utilitário.
E
isto é confirmado pelos factos, pois só quando praticamente todas as
necessidades da vida estavam satisfeitas e as coisas que contribuem para o
conforto e para o bem-estar foram asseguradas, é que esse conhecimento
começou a ser procurado.
Evidentemente, então não
o procuramos com vista a nenhuma outra vantagem, mas, tal como dizemos que
um homem livre é aquele que vive de acordo com as suas aspiraçġes e não de
acordo com as aspirações de outrem, assim nós perseguimos este
conhecimento como o único saber livre, pois ele só existe em função de si
mesmo.
Aristóteles
Para reflectir:
1 – O que é o espanto?
2 – Por que razão Aristóteles afirma que a filosofia
é um saber que vale por si mesmo e não em virtude de um fim utilitário?
(Deve ter em conta os dois textos).
3 – Descreva a experiência do mundo que teria se
tivesse acabado de nascer neste preciso momento (com a capacidade de
pensar, ou seja, com a mente completamente desenvolvida).
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