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Texto 1
A verdade é histórica
A verdade, como a razão, está na História e é histórica.
Também as transformações internas à própria Filosofia modificam a
concepção da verdade. A teoria da verdade como correspondência entre
coisa e ideia, ou facto e ideia, liga-se à concepção realista da razão e
do conhecimento, isto é, à prioridade do objecto do conhecimento, ou
realidade, sobre o sujeito do conhecimento. Ao contrário, a concepção da
verdade como coerência interna e lógica das ideias ou dos conceitos
liga-se à concepção idealista da razão e do conhecimento, isto é, à
prioridade do sujeito do conhecimento ou do pensamento sobre o objecto a
ser conhecido.
As concepções históricas e as transformações internas ao conhecimento
mostram que as várias concepções da verdade não são arbitrárias nem
casuais ou acidentais, mas possuem causas e motivos que as explicam, e
que a cada formação social e a cada mudança interna do conhecimento
surge a exigência de reformular a concepção da verdade para que o saber
possa realizar-se.
As verdades (os conteúdos conhecidos) mudam, a ideia da verdade (a forma
de conhecer) muda, mas não muda a busca do verdadeiro, isto é, permanece
a exigência de vencer o senso-comum, o dogmatismo, a atitude natural e
seus preconceitos. É a procura da verdade e o desejo de estar no
verdadeiro que permanecem. A verdade se conserva, portanto, como o valor
mais alto a que aspira o pensamento.
Se examinarmos as diferentes concepções da verdade, notaremos que
algumas exigências fundamentais são conservadas em todas elas e
constituem o campo da busca do verdadeiro:
1. compreender as causas da diferença entre o parecer e o ser das coisas
ou dos erros;
2. compreender as causas da existência e das formas de existência dos
seres;
3. compreender os princípios necessários e universais do conhecimento
racional;
4. compreender as causas e os princípios da transformação dos próprios
conhecimentos;
5. separar preconceitos e hábitos do senso comum e a atitude crítica do
conhecimento;
6. explicitar com todos os detalhes os procedimentos empregados para o
conhecimento e os critérios de sua realização;
7. liberdade de pensamento para investigar o sentido ou a significação
da realidade que nos circunda e da qual fazemos parte;
8. comunicabilidade, isto é, os critérios, os princípios, os
procedimentos, os percursos realizados, os resultados obtidos devem
poder ser conhecidos e compreendidos por todos os seres racionais. Como
escreve o filósofo Espinosa, o Bem Verdadeiro é aquele capaz de
comunicar-se a todos e ser compartilhado por todos;
9. transmissibilidade, isto é, os critérios, princípios, procedimentos,
percursos e resultados do conhecimento devem poder ser ensinados e
discutidos em público. Como diz Kant, temos o direito ao uso público da
razão;
10. veracidade, isto é, o conhecimento não pode ser ideologia, ou, em
outras palavras, não pode ser máscara e véu para dissimular e ocultar a
realidade servindo aos interesses da exploração e da dominação entre os
homens. Assim como a verdade exige a liberdade de pensamento para o
conhecimento, também exige que seus frutos propiciem a liberdade de
todos e a emancipação de todos;
11. a verdade deve ser objectiva, isto é, deve ser compreendida e aceite
universal e necessariamente, sem que isso signifique que ela seja
“neutra” ou “imparcial”, pois o sujeito do conhecimento está vitalmente
envolvido na actividade do conhecimento e o conhecimento adquirido pode
resultar em mudanças que afectem a realidade natural, social e cultural.
Como disseram os filósofos Sartre e Merleau-Ponty, somos “seres em
situação” e a verdade está sempre situada nas condições objectivas em
que foi alcançada e está sempre voltada para compreender e interpretar a
situação na qual nasceu e à qual volta para trazer transformações. Não
escolhemos o país, a data, a família e a classe social em que nascemos –
isso é a nossa situação -, mas podemos escolher o que fazer com isso,
conhecendo a nossa situação e indagando se merece ou não ser mantida.
A verdade é, ao mesmo tempo, frágil e poderosa. Frágil porque os poderes
estabelecidos podem destruí-la, assim como mudanças teóricas podem
substituí-la por outra. Poderosa, porque a exigência do verdadeiro é o
que dá sentido à existência humana. Um texto do filósofo Pascal nos
mostra essa fragilidade-força do desejo do verdadeiro:
O homem é apenas um caniço, o mais fraco da Natureza: mas é um caniço
pensante. Não é preciso que o Universo inteiro se arme para esmagá-lo:
um vapor, uma gota de água são suficientes para matá-lo. Mas, mesmo que
o Universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que aquilo que
o mata, porque ele sabe que morre e conhece a vantagem do Universo sobre
ele; mas disso o Universo nada sabe. Toda a nossa dignidade consiste,
pois, no pensamento. É a partir dele que nos devemos elevar e não do
espaço e do tempo, que não saberíamos ocupar. Martinho Carlos
Rost
http://www.armazem.literario.nom.br/autoresarmazemliterario/eles/martinhocarloshost/filosofia/23_modulo23.htm
Texto 2
Origens da ideia de verdade
A nossa ideia da verdade foi construída ao longo dos séculos, a partir
de três concepções diferentes, vindas da língua grega, da latina e da
hebraica.
Em grego, verdade se diz aletheia, significando: não-oculto,
não-escondido, não-dissimulado. O verdadeiro é o que se manifesta aos
olhos do corpo e do espírito; a verdade é a manifestação daquilo que é
ou existe tal como é. O verdadeiro opõe-se ao falso, pseudos, que
é o encoberto, o escondido, o dissimulado, o que parece ser e não é como
parece. O verdadeiro é o evidente ou o plenamente visível para a razão.
Assim, a verdade é uma qualidade das próprias coisas e o verdadeiro está
nas próprias coisas. Conhecer é ver e dizer a verdade que está na
própria realidade e, portanto, a verdade depende de que a realidade se
manifeste, enquanto a falsidade depende de que ela se esconda ou se
dissimule em aparências.
Em latim, verdade se diz veritas e se refere à precisão, ao rigor
e à exactidão de um relato, no qual se diz com detalhes, pormenores e
fidelidade o que aconteceu. Verdadeiro se refere, portanto, à linguagem
enquanto narrativa de factos acontecidos, refere-se a enunciados que
dizem fielmente as coisas tais como foram ou aconteceram. Um relato é
veraz ou dotado de veracidade quando a linguagem enuncia os factos
reais.
A verdade depende, de um lado, da veracidade, da memória e da acuidade
mental de quem fala e, de outro, de que o enunciado corresponda aos
factos acontecidos. A verdade não se refere às próprias coisas e aos
próprios factos (como acontece com a aletheia), mas ao relato e
ao enunciado, à linguagem. O seu oposto, portanto, é a mentira ou a
falsificação. As coisas e os factos não são reais ou imaginários; os
relatos e enunciados sobre eles é que são verdadeiros ou falsos.
Em hebraico verdade se diz emunah e significa confiança. Agora
são as pessoas e é Deus quem são verdadeiros. Um Deus verdadeiro ou um
amigo verdadeiro são aqueles que cumprem o que prometem, são fiéis à
palavra dada ou a um pacto feito; enfim, não traem a confiança.
A verdade se relaciona com a presença, com a espera de que aquilo que
foi prometido ou pactuado irá cumprir-se ou acontecer. Emunah é
uma palavra de mesma origem que amém, que significa: assim seja. A
verdade é uma crença fundada na esperança e na confiança, referidas ao
futuro, ao que será ou virá. A sua forma mais elevada é a revelação
divina e sua expressão mais perfeita é a profecia.
Aletheia se refere ao que as coisas são; veritas se
refere aos fatos que foram; emunah se refere às acções e
as coisas que serão. A nossa concepção da verdade é uma síntese
dessas três fontes e por isso se refere às coisas presentes (como na
aletheia), aos factos passados (como na veritas) e às coisas
futuras (como na emunah). Também se refere à própria realidade
(como na aletheia), à linguagem (como na veritas) e à
confiança-esperança (como na emunah).
Palavras como “averiguar” e “verificar” indicam buscar a verdade;
“veredicto” é pronunciar um julgamento verdadeiro, dizer um juízo veraz;
“verossímil” e “verossimilhante” significam: ser parecido com a verdade,
ter traços semelhantes aos de algo verdadeiro.
Texto recolhido na Internet
Actividades:
1 -
O que significa dizer-se que a verdade é histórica? Significa que a
verdade é relativa? Justifique a sua resposta com base numa
interpretação do texto 1.
2
- A busca do verdadeiro é o fundamento da indagação filosófica.
Apresente 4 argumentos que fundamentem esta asserção.
3 – A noção ocidental de verdade tem uma raiz tripla. Exponha cada uma
dessas 3 raízes. |