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- “E está demonstrado!”.
As palmas irromperam efusivamente, enchendo a vasta sala de um crepitar
estrondoso que se ouviu no exterior como um sinal de sucesso.
O velho sábio tirou os óculos e enquanto os limpava olhando uma massa
fosca de vultos eufóricos, uma lágrima correu-lhe pela face. Mais de
vinte anos de dedicação total, muitos dinheiro gasto, dezenas de pessoas
a trabalhar quase sem parar, e, por fim, o país poderia livrar-se do seu
pior pesadelo, agora que há muito as armas se calaram e a promessa da
prosperidade e muito mais do que uma miragem.
Os representantes do governo estavam visivelmente agradados com a
conferência proferida pelo professor Lubango que, contra todas as
expectativas, trocara uma cátedra em Paris por um trabalho quase sem
remuneração no seu país no centro de África, ainda a guerra civil era
uma realidade e ninguém compreendia a utilidade da ciência e os
préstimos dos cientistas. O velho professor, e o seu país, colhia, por
fim os frutos mais preciosos do seu trabalho.
Com 32 anos resolveu radicar-se na capital do seu país, de onde saíra
ainda adolescente para estudar na Europa. Apesar da guerra civil estar a
devastar as entranhas da sua terra natal, António Lubango acreditava num
futuro de paz e de dignidade para os seus irmãos. O seu doutoramento em
medicina tropical qualificava-o para enfrentar um problema que, um dia
que a guerra acabasse, poderia ser um entrave ao desenvolvimento do seu
país.
No coração da República … uma vasta região encerrava uma imensidade de
recursos. Com um solo fértil, onde o clima permitia duas colheitas por
ano, com água em abundância, permitindo a produção energética e a
irrigação agrícola, com grandes potencialidades no que se refere à
actividade mineira, totalmente inexploradas. E talvez no subsolo
existisse petróleo.
No entanto, uma doença implacável impedia uma exploração intensiva desse
vasto território. Por um lado, isso impediu que a guerra fizesse
estragos irreparáveis, mas por outro, o nível de desenvolvimento dessa
região situava-se a um nível próximo do da idade da pedra…
Com alguns apoios de organizações internacionais, mas quase ignorado
pelas autoridades locais, António reuniu uma equipa de alunos seus e
começou a enfrentar o problema. Fez várias expedições, recolheu
amostras, estudou a fauna e a flora da região e procedeu a inúmeras
intervenções junto da população local, muitas vezes com o apoio dos
Médicos sem Fronteiras, mas o perigo de contágio limitava a permanência
das equipas nos locais mais atingidos pela doença.
Embora as pessoas infectadas vivessem em média quase dez anos com a
doença, o seu estado de grande debilidade levava a que ficassem
condenadas à inactividade e, muitas delas, morriam de fome por não
poderem cuidar da sua subsistência.
E António Lubango tinha acabado de comunicar a um auditório de
cientistas, na capital do seu país, que a sua equipa conseguira
descobrir a cura para a doença, bem como a forma de a erradicar de vez.
Todos os membros da assistência compreenderam a importância do que lhes
tinha sido comunicado. Até José Mefisto, ministro da saúde, apesar de
não ter formação científica. A autoridade do velho professor era
inatacável, mas o que o convencia de que ele tinha razão, era a reacção
dos outros cientistas, muitos deles estrangeiros, que, unanimenente,
consideraram as provas apresentadas elucidativas e irrefutáveis. A
ciência tinha-se pronunciado e agora cabia aos políticos fazer o resto.
Mas José Mefisto sabia que não ia ser fácil. As medidas preconizadas
pelos cientistas para a erradicação da doença tinham que ser aceites
pela população e pela classe política.
E havia entraves sérios que tinham que ser ultrapassados. O relatório da
equipa de António Lubango, entre muitas outras medidas mais pacíficas,
propunha três que, apesar da sua máxima importância, iriam, de certo,
encontrar resistência em muitos sectores da população e da classe
política.
Em primeiro lugar, havia que destruir o habitat que servia de centro
para a reprodução do insecto que transmitia a doença, um mosquito muito
raro que, se essa medida fosse implementada, quase de certeza que se
extinguiria. António defendia que esse ser vivo devia ter o mesmo
tratamento do vírus da varíola, a sua erradicação era um mal necessário,
podendo conservar-se alguns espécimes congelados em azoto líquido, para
que o seu ADN não se perca. Mas quando esta hipótese começou a ser
ventilada nos bastidores, algumas organizações ecologistas ameaçaram
combater essa medida. Uma conhecida organização internacional defendeu
numa conferência de imprensa em Oslo que, se se provasse que o raro
mosquito da selva era o causador da doença que desde sempre tinha
atacado aquela população africana, deveria ser criado um santuário
ecológico na região e a presença humana nessa área deveria ser
interditada. É óbvio que esta medida significaria a condenação de todo o
país à miséria. Confrontado com esta objecção, Frank Johannes,
presidente da organização, disse que esse era um problema que os líderes
da comunidade internacional tinham que resolver.
Depois da erradicação do mosquito, havia que descontaminar os seres
humanos, através dum procedimento semelhante à hemodiálise, desenvolvido
pela equipa de Lubango, única forma de curar a doença e impedir o
contágio através de contactos entre os seres humanos, uma vez a produção
de uma vacina parecia impossível.
Esta medida chocava com as crenças religiosas da maioria da população
local. Nessa região, o animismo tradicional naquela região de África,
fundira-se com um sistema de crenças importando dos Estados Unidos da
América. Nos anos trinta do século XX, um grupo de missionários duma
igreja cristã do Missouri, a Igreja dos Últimos Santos Redentores,
estabeleceu alguns centros de missionação na periferia da maior cidade
da região, Urugandi. Se bem que os missionários americanos tivessem
abandonado o território cerca de dez anos depois, vencidos pela doença,
deixaram uma rede bem estabelecida de pastores que continuaram o seu
trabalho de evangelização. Hoje subsiste uma forma de culto que mistura
os princípios cristãos dessa seita, com as práticas ancestrais da
população local. Por essa razão os clérigos africanos cortaram relações
com a igreja americana e governam-se de forma independente.
Ora, qualquer manipulação médica do sangue humano é proibida à luz dos
dogmas dessa seita religiosa. O que levará a que a população recuse o
tratamento preconizado por António Lubango e pela comunidade científica.
Por estas razões, a tarefa de José Mefisto não é nada fácil. Em primeiro
lugar, o Presidente do país é praticante da religião dos lagos, nome
pelo qual é conhecida a prática religiosa da seita que resistirá ao
tratamento. Se bem que tenha manifestado por diversas vezes o seu total
apoio às investigações de António Lubango, sendo seu amigo íntimo, o
presidente Marcos Silvério terá que enfrentar eleições dentro de oito
meses, pelo que qualquer conflito com a população da sua região natal
pode prejudicar a sua re-eleição. E embora tenha sempre defendido a
separação dos assuntos do estado e dos assuntos religiosos, a sua
aceitação das teses de Lubango e da comunidade científica, pode ser
vista pelo eleitorado como uma rejeição das suas convicções religiosas o
que, num país daquela região de África é considerado um sério defeito de
carácter.
Depois há o parlamento, onde existe um número significativo de deputados
cuja eleição foi possível graças a financiamentos quer por grupos
religiosos, quer por grupos ecologistas. Alguns deputados são pastores
da religião dos lagos. Outros são representantes do Partido
Ecologista para a libertação de África, e uma comissão desse partido
esteve presente na conferência de imprensa de Oslo que rejeitou a
erradicação do mosquito. Este partido é, se bem que minoritário, o
sustentáculo da maioria de governo. Por isso, caso não defina bem a sua
estratégia, José Mefisto poder ser, no mínimo, demitido.
É por tudo isto que António Lubango se detém por pouco tempo a saborear
esta sua vitória. Resolutamente limpa as lágrimas, põe os óculos e
silencia o auditório com o seu olhar coruscante. Pega no microfone e
grita:
- “Agora é que começa a nossa luta!”.
Actividades:
-
A demonstração científica é suficiente
para convencer as pessoas a aderirem às teses científicas? Justifique
a sua resposta com base num confronto do texto com a sua realidade
quotidiana.
-
A Democracia deve ser substituída por
uma “tecnocracia” ou por um governo exercido por cientistas?
Justifique a sua resposta.
-
Qual a sua opinião sobre o conflito
cientistas/ecologistas presente no texto? Qual a sua opinião?
Fundamente-a com quatro argumentos da sua autoria.
-
Qual a sua opinião sobre o conflito
cientistas/religiosos presente no texto? Qual a sua opinião?
Fundamente-a com quatro argumentos da sua autoria.
-
Escreva um discurso dirigido a um
auditório de pessoas com pouca escolaridade (de 0 a menos de 4 anos)
em que defende a tese de que é necessário que as pessoas façam o
tratamento.
5.1. Esse discurso poderia ser dirigido
a um auditório constituído por pessoas com frequência universitária?
Porquê? |