|
Dois modelos para a explicação da origem
do conhecimento: o racionalismo e o empirismo.
Racionalismo
A posição epistemológica que vê no pensamento, na razão, a fonte
principal do conhecimento humano, chama-se
racionalismo (de
ratio = razão). Segundo ele, um conhecimento só merece na realidade
este nome quando é logicamente necessário e universalmente válido.
Quando a nossa razão julga que uma coisa tem que ser assim e que não
pode ser de outro modo, que tem de ser assim, portanto, sempre e em
todas as partes, então, e só então, nos encontramos ante um verdadeiro
conhecimento, na opinião do racionalismo. Um conhecimento desse tipo
apresenta-se-nos, por exemplo, quando formulamos o juízo «o todo é maior
do que a parte», ou o juízo «todos os corpos são extensos». Em ambos os
casos vemos com evidência que tem de ser assim e que a razão se
contradizia a si mesma se quisesse sustentar o contrário. E porque tem
de ser assim, é também sempre e em todas as partes assim. Estes juízos
possuem, pois, uma necessidade lógica e uma validade universal
rigorosa.
Pelo contrário, sucede uma coisa muito diferente com o juízo «todos os
corpos são pesados», ou no juízo «a água ferve a 100 graus». Neste caso
só podemos ajuizar que é assim, mas não que tem de ser assim. É
perfeitamente concebível que a água ferva a uma temperatura inferior ou
superior; e também não significa uma contradição interna representar-se
um corpo que não possua peso, pois a nota do peso não está contida no
conceito do corpo. Estes juízos não têm, pois, necessidade lógica. E
mesmo assim falta-lhes a rigorosa validade universal. Podemos julgar
unicamente que a água ferve a 100 graus e que os corpos são pesados, até
onde podemos comprová-lo. Estes juízos só são válidos, pois, dentro de
limites determinados. A razão disto é que, nestes juízos, encontramo-nos
limitados à experiência. Isto não acontece nos juízos primeiramente
citados. Formulamos o juízo «todos os corpos são extensos» representando
o conceito de corpo e descobrindo nele a nota da extensão. Este juízo
não se funda, pois, em qualquer experiência mas sim no pensamento. Daqui
resulta, portanto, que os juízos fundados no pensamento, os juízos que
procedem da razão, possuem necessidade lógica e validade universal; os
outros, pelo contrário, não a possuem. Todo o verdadeiro conhecimento se
funda deste modo — assim conclui o racionalismo —, no pensamento. Este
é, por conseguinte, a verdadeira fonte e base do conhecimento humano.
Uma forma determinada do conhecimento serviu evidentemente de modelo à
interpretação racionalista do conhecimento. Não é difícil dizer qual é:
é o conhecimento matemático. Este é, com efeito, um conhecimento
predominantemente conceptual e dedutivo. Na geometria, por exemplo,
todos os conhecimentos derivam de alguns conceitos e
axiomas supremos. O
pensamento impera com absoluta independência de toda a experiência,
seguindo somente as suas próprias leis. Todos os juízos que formula,
distinguem-se, além disso, pelas características da necessidade lógica e
da validade universal. Pois bem; quando se interpreta e concebe todo o
conhecimento humano em relação a esta forma de conhecimento, chega-se ao
racionalismo.
J. Hessen, Teoria do Conhecimento.
Empirismo
O empirismo (de “empeiria” = experiência) opõe à tese do
racionalismo (segundo a qual o pensamento, a razão, é a verdadeira fonte
de conhecimento), a antítese que diz: a única fonte do conhecimento
humano é a experiência. Na opinião do empirismo, não há qualquer
património
a priori
da razão. A consciência cognoscente não tira
os seus conteúdos da razão; tira-os exclusivamente da experiência. O
espírito humano está por natureza vazio; é uma tábua rasa, uma
folha em branco onde a experiência escreve. Todos os nossos conceitos,
incluindo os mais gerais e abstractos, procedem da experiência. Enquanto
que o racionalismo se deixa levar por uma ideia determinada, por uma
ideia de conhecimento, o empirismo parte dos factos concretos. Para
justificar a sua posição, recorre à evolução do pensamento e do
conhecimento humanos. Esta evolução prova, na opinião do empirismo, a
alta importância da experiência na produção do conhecimento. A criança
começa por ter percepções concretas. Com base nessas percepções chega,
paulatinamente, a formar representações gerais e conceitos. Estes
nascem, por conseguinte, organicamente da experiência. Não se encontra
nada semelhante a esses conceitos que existem completos no espírito ou
se formam com total independência da experiência. A experiência
apresenta-se, pois, como a única fonte do conhecimento.
Enquanto que os racionalistas procedem da matemática a maior parte das
vezes, a história do empirismo revela que os seus defensores procedem
quase sempre das ciências naturais. Isto é
compreensível. Nas ciências naturais a experiência representa o papel
decisivo. Nelas trata-se sobretudo de comprovar exactamente os factos
mediante uma cuidadosa observação. O investigador está completamente
entregue à experiência. É muito natural que quem trabalha de preferência
ou exclusivamente com este
método das ciências naturais, tenha tendência
para de antemão colocar o factor empírico sobre o racional. Enquanto que
o filósofo de orientação matemática chega facilmente a considerar o
pensamento como a fonte única do conhecimento, o filósofo que vem das
ciências naturais tenderá para considerar a experiência como fonte e
base de todo o conhecimento humano.
J. Hessen, Teoria do Conhecimento
Actividades: 1. A partir da leitura dos textos,
defina cada uma das posições gnosiológicas neles apresentadas.
2. O racionalismo e o
empirismo podem conciliar-se? Justifique a sua resposta.
|