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A SOLUÇÃO KANTIANA
A
resposta aos problemas do inatismo e do empirismo oferecida pelo
filósofo alemão do século XVIII, Immanuel Kant, é conhecida com o nome
de "revolução copernicana" em Filosofia. Por quê? Qual a relação entre
Kant e o que fizera Copérnico, quase dois séculos antes do kantismo?
Vejamos, muito brevemente, o que foi a revolução copernicana em
astronomia para, depois, vermos o que foi ela em Filosofia.
A
tradição antiga e medieval considerava que o mundo possuía limites (ou
seja, o mundo era finito), sendo formado por um conjunto de sete esferas
concêntricas, em cujo centro estava a Terra, imóvel. À volta da Terra
giravam as esferas nas quais estavam presos os planetas (o Sol e a Lua
eram considerados planetas). Em grego, Terra diz-se Gaia ou
Geia. Como ela se encontrava no centro, o sistema astronómico era
chamado geocêntrico e o mundo era explicado pelo geocentrismo.
A
revolução copernicana demonstrou que o sistema geocêntrico era falso e
que:
1.
o mundo não é finito, mas é um
Universo infinito;
2.
os astros não estão presos em
esferas, mas fazem um movimento (como demonstrará Kepler, depois de
Copérnico), cuja forma é a de uma elipse;
3.
o centro do Universo não é a
Terra;
4.
o Sol (como já fora demonstrado
por outros astrónomos) não é um planeta, mas uma estrela, e a Terra,
como os outros planetas, gira ao redor dele;
5.
o próprio Sol também se move, mas
não em volta da Terra.
Em
grego, Sol diz-se Hélios e por isso o sistema de Copérnico é
chamado heliocêntrico, e a sua explicação, heliocentrismo,
pois o Sol está no centro do nosso sistema planetário e tudo se move ao
seu redor.
Voltemos agora a Kant e observemos o que ele diz.
Inatistas e empiristas, isto é, todos os filósofos, parecem ser como
astrónomos geocêntricos, buscando um centro que não é verdadeiro.
Parecem, diz Kant, como alguém que, querendo assar um frango, fizesse o
forno girar em torno dele e não o frango em torno do fogo.
Qual o engano dos filósofos?
Em
lugar de, primeiro e antes de tudo, estudar o que é a própria razão e
indagar o que ela pode e o que não pode conhecer, o que é a experiência
e o que ela pode ou não pode conhecer; em vez, enfim, de procurar saber
o que é a verdade. Os filósofos preferiram começar por dizer o que a
realidade é, afirmando que ela é racional e que, por isso, pode ser
inteiramente conhecida pelas ideias da razão. Colocaram a realidade
exterior ou os objetos do conhecimento no centro e fizeram a razão, ou o
sujeito do conhecimento, girar em torno deles.
Façamos, pois, uma revolução copernicana em Filosofia: em vez de colocar
no centro a realidade objectiva, ou os objetos do conhecimento, dizendo
que são racionais e que podem ser conhecidos tais como são em si mesmos,
comecemos colocando no centro a própria razão.
Não
é a razão a Luz Natural? Não é ela o Sol que ilumina todas as coisas e
em torno do qual tudo gira? Comecemos, portanto, pela Luz Natural no
centro do conhecimento e indaguemos: O que é ela? O que ela pode
conhecer? Quais são as condições para que haja conhecimento verdadeiro?
Quais são os limites que o conhecimento humano não pode transpor? Como a
razão e a experiência se relacionam?
Comecemos, então, pelo sujeito do conhecimento. E comecemos mostrando
que este sujeito é a razão universal e não uma subjectividade pessoal e
psicológica, que ele é o sujeito conhecedor e não Pedro, Paulo, Maria ou
Isabel, esta ou aquela pessoa, este ou aquele indivíduo.
O
que é a razão?
A
razão é uma estrutura vazia, uma forma pura sem conteúdos. Essa
estrutura (e não os conteúdos) é que é universal, a mesma para todos os
seres humanos, em todos os tempos e lugares. Essa estrutura é inata,
isto é, não é adquirida através da experiência. Por ser inata e não
depender da experiência para existir, a razão é, do ponto de vista do
conhecimento, anterior à experiência. Ou, como escreve Kant, a estrutura
da razão é a priori (vem antes da experiência e não depende
dela).
Porém, os conteúdos que a razão conhece e nos quais ela pensa, esses
sim, dependem da experiência. Sem ela, a razão seria sempre vazia,
inoperante, nada conhecendo. Assim, a experiência fornece a matéria (os
conteúdos) do conhecimento à razão e esta, por sua vez, fornece a forma
(universal e necessária) do conhecimento. A matéria do conhecimento, por
ser fornecida pela experiência, vem depois desta e por isso é, no dizer
de Kant, a posteriori.
Qual o engano dos inatistas? Supor que os conteúdos ou a matéria do
conhecimento são inatos. Não existem ideias inatas.
Qual o engano dos empiristas? Supor que a estrutura da razão é adquirida
por experiência ou causada pela experiência. Na verdade, a experiência
não é causa das ideias, mas é a ocasião para que a razão, recebendo a
matéria ou o conteúdo, formule as ideias.
Dessa maneira, a estrutura da razão é inata e universal, enquanto os
conteúdos são empíricos e podem variar no tempo e no espaço, podendo
transformar-se com novas experiências e mesmo revelarem-se falsos,
graças a experiências novas.
O
que é o conhecimento racional, sem o qual não há Filosofia nem ciência?
É a
síntese que a razão realiza entre uma forma universal inata e um
conteúdo particular oferecido pela experiência.
Qual é a estrutura da razão?
A
razão é constituída por três estruturas a priori:
1.
a estrutura ou forma da
sensibilidade, isto é, a estrutura ou forma da percepção sensível ou
sensorial;
2.
a estrutura ou forma do
entendimento, isto é, do intelecto ou inteligência;
3.
a estrutura ou forma da razão
propriamente dita, quando esta não se relaciona nem com os conteúdos da
sensibilidade, nem com os conteúdos do entendimento, mas apenas consigo
mesma. Como, para Kant, só há conhecimento quando a experiência oferece
conteúdos à sensibilidade e ao entendimento, a razão, separada da
sensibilidade e do entendimento, não conhece coisa alguma e não é sua
função conhecer. A sua função é a de regular e controlar a sensibilidade
e o entendimento. Do ponto de vista do conhecimento, portanto, a razão é
a função reguladora da actividades do sujeito do conhecimento.
A
forma da sensibilidade é o que nos permite ter percepções, isto é, a
forma é aquilo sem o qual não pode haver percepção, sem o qual a
percepção seria impossível. Percebemos todas as coisas como dotadas de
figura, dimensões (altura, largura, comprimento), grandeza: ou seja, nós
as percebemos como realidades espaciais.
Não
interessa se cada um de nós vê cores de uma certa maneira, gosta mais de
uma cor ou de outra, ouve sons de uma certa maneira, gosta mais de
certos sons do que de outros, etc. O que importa é que nada pode ser
percebido por nós se não possuir propriedades espaciais; por isso, o
espaço não é algo percebido, mas é o que permite que haja percepção
(percebemos lugares, posições, situações, mas não percebemos o próprio
espaço). Assim, o espaço é a forma a priori da sensibilidade e
existe na nossa razão antes e sem a experiência.
Também só podemos perceber as coisas como simultâneas ou sucessivas:
percebemos as coisas como se dando num só instante ou em instantes
sucessivos. Ou seja, percebemos as coisas como realidades temporais. Não
percebemos o tempo (temos a experiência do passado, do presente e do
futuro, porém não temos percepção do próprio tempo), mas ele é a
condição de possibilidade da percepção das coisas e é a outra forma a
priori da sensibilidade que existe na nossa razão antes da
experiência e sem a experiência.
A
percepção recebe conteúdos da experiência e a sensibilidade organiza
racionalmente segundo a forma do espaço e do tempo. Essa organização
espaço-temporal dos objectos do conhecimento é que é inata, universal e
necessária.
O
entendimento, por sua vez, organiza os conteúdos que lhe são enviados
pela sensibilidade, isto é, organiza as percepções. Novamente o conteúdo
é oferecido pela experiência sob a forma do espaço e do tempo, e a
razão, através do entendimento, organiza tais conteúdos empíricos.
Essa organização transforma as percepções em conhecimentos intelectuais
ou em conceitos. Para tanto, o entendimento possui a priori (isto
é, antes da experiência e independente dela) um conjunto de elementos
que organizam os conteúdos empíricos. Esses elementos são chamados
categorias e sem elas não pode haver conhecimento intelectual, pois
são as condições para tal conhecimento. Com as categorias a priori,
o sujeito do conhecimento formula os conceitos.
As
categorias organizam os dados da experiência segundo a qualidade, a
quantidade, a causalidade, a finalidade, a verdade, a falsidade, a
universalidade, a particularidade. Assim, longe da causalidade, a
qualidade e a quantidade serem resultados de hábitos psicológicos
associativos, eles são os instrumentos racionais com os quais o sujeito
do conhecimento organiza a realidade e a conhece. As categorias,
estruturas vazias, são as mesmas em toda época e em todo lugar, para
todos os seres racionais.
Graças à universalidade e à necessidade das categorias, as ciências são
possíveis e válidas; o empirismo, portanto, está equivocado.
Em
instante algum Kant admite que a realidade, em si mesma, é espacial,
temporal, qualitativa, quantitativa, causal, etc. Isso seria regredir ao
forno a girar em torno do frango. O que Kant afirma é que a razão e o
sujeito do conhecimento possuem essas estruturas para poder conhecer e
que, por serem elas universais e necessárias, o conhecimento é racional
e verdadeiro para os seres humanos.
É
isso que a razão pode. O que ela não pode (e nisso inatistas e
empiristas se enganaram) é supor que com as suas estruturas passe a
conhecer a realidade tal como esta é em si mesma. A razão conhece os
objectos do conhecimento. O objecto do conhecimento é aquele conteúdo
empírico que recebeu as formas e as categorias do sujeito do
conhecimento. A razão não está nas coisas, mas em nós. A razão é sempre
razão subjectiva e não pode pretender conhecer a realidade tal como ela
seria em si mesma, nem pode pretender que exista uma razão objectiva a
governar as próprias coisas.
O
erro dos inatistas e empiristas foi o de supor que nossa razão alcança a
realidade em si. Para um inatista como Descartes, a realidade em si é
espacial, temporal, qualitativa, quantitativa, causal. Para um empirista
como Hume, a realidade em si pode ou não repetir factos sucessivos no
tempo, pode ou não repetir fatos contíguos no espaço, pode ou não
repetir as mesmas sequências de acontecimentos.
Para Kant, jamais poderemos saber se a realidade em si é espacial,
temporal, causal, qualitativa, quantitativa. Mas sabemos que nossa razão
possui uma estrutura universal, necessária e a priori que
organiza necessariamente a realidade em termos das formas da
sensibilidade e dos conceitos e categorias do entendimento. Como razão
subjectiva, nossa razão pode garantir a verdade da Filosofia e da
ciência.
Marilena Chaiu, Convite à Filosofia.
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