Filosofia     Ficha 19

F i c h a s 11º Ano

O racionalismo crítico de Karl Popper - O problema da indução.

"Quando, no início da década de 1930, o ainda jovem Popper começou a frequentar o famoso "Círculo de Viena", nem ele próprio poderia imaginar o papel central que desempenharia posteriormente no campo de filosofia da ciência. Muito pouca gente esperava um futuro promissor daquele obscuro professor do secundário. A única coisa que o distinguia dos demais integrantes do círculo, constituído por filósofos como Moritz Schlick (1882-1936), Otto Neurath (1882-1945), Rudolph Carnap (1891-1970), Hans Reichenbach (1891-1953), Herbert Feigl (1902-1988) e outros afamados "positivistas lógicos" da época, era a sua rejeição da indução como lógica da ciência, em flagrante oposição aos seus companheiros. De facto, estes defendiam que o método científico era o indutivo. Em outras palavras, partindo-se de enunciados singulares, resultantes de descrições de observações ou  de experimentos, chega-se a (induz-se) enunciados universais -hipóteses ou teorias. Mas, como argumentava Popper, não existe nenhuma garantia lógica capaz de assegurar a inferência dos enunciados universais a partir de enunciados singulares, por mais numerosos que fossem estes. Mesmo observando milhares e milhares de cisnes brancos, não se pode afirmar que todos os cisnes são brancos, pois, a despeito de serem raros, também existem cisnes negros. Essa questão sobre a validade e as condições de inferência indutiva é conhecida como "problema da indução". Ela remete para o problema acerca da validade e veracidade dos enunciados universais baseados na experiência. Contudo, a descrição da experiência é sempre um enunciado singular, não um universal. Portanto, o problema da indução só pode ser resolvido se existir um "princípio de indução", capaz de garantir a inferência indutiva. Porém, do ponto de vista lógico, não existe tal princípio.

Logo, diz Popper, o método indutivo não é o método da ciência. E não adianta deslocar a questão, afirmando que a inferência indutiva pode não ser válida estritamente, mas que tem algum grau de confiabilidade e de probabilidade, como fizeram os positivistas lógicos, utilizando o cálculo de probabilidades. Na sua essência, o problema fica inalterado e o impasse continua.

Então, não tem sentido falar em lógica da pesquisa científica? Claro que sim, responde Popper. O que estava errado era a forma da pergunta. Ela queria saber se existe uma fonte privilegiada, cujos dados garantissem por si o conhecimento científico, demarcando a fronteira da ciência e da não-ciência (metafísica) e qual a lógica da demarcação. Tal fonte não existe. Os dados sensoriais, base da indução, tão caros aos pensadores do Círculo de Viena, não têm esse "pedigree" capaz de assegurar, pela origem, o carácter científico do conhecimento. Todavia, eles podem perfeitamente mostrar a falsidade das hipóteses e teorias que constituem a ciência, fundamentada numa assimetria da lógica clássica conhecida como "modus tollens". Se o enunciado B é deduzido do enunciado A, a sua veracidade não implica necessariamente a verdade de A, mas da sua falsidade decorre necessariamente a falsidade de A. De modo semelhante, não é possível afirmar a validade de um enunciado universal, porém é perfeitamente possível refutá-lo, ou falseá-lo, segundo o pensamento do austríaco. Assim, o trabalho do cientista seria fazer conjecturas sobre uma realidade e depois tentar refutá-las. Na primeira parte do processo, não há lógica. Esta aparece na segunda parte, no esforço de refutação, baseado no "modus tollens". A teoria ou hipótese conjecturada deve, portanto, ter um formato adequado para ser testado, caracterizado pelo seu conteúdo empírico.

 Essa era a sua engenhosa proposta, posteriormente, publicada com o título de "Logik der Forschung" (Lógica da Pesquisa, em alemão). Estava aí o cerne do pensamento popperiano."

Shozo Motoyama

 

Actividades:

  1. Descreva o problema da indução apresentado no texto.

  2. Popper apresenta uma solução para o problema da indução. Em que consiste essa solução?

  3. Prove que o pensamento de Popper é uma forma de criticismo, ou seja, ultrapassa a dicotomia empirismo/racionalismo. Deve procurar divergências de Popper em relação a Kant.

SECÇÕES

Fichas 11º Ano

 
 
 
 
 
 
 
 

 

 

Outros recursos:

 

 

 

© www.espanto.info