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"Quando, no início
da década de 1930, o ainda jovem Popper começou a frequentar o famoso
"Círculo de Viena", nem ele próprio poderia imaginar o papel central que
desempenharia posteriormente no campo de filosofia da ciência. Muito
pouca gente esperava um futuro promissor daquele obscuro professor do
secundário. A única coisa que o distinguia dos demais integrantes do
círculo, constituído por filósofos como Moritz Schlick (1882-1936), Otto
Neurath (1882-1945), Rudolph Carnap (1891-1970), Hans Reichenbach
(1891-1953), Herbert Feigl (1902-1988) e outros afamados "positivistas
lógicos" da época, era a sua rejeição da indução como lógica da ciência,
em flagrante oposição aos seus companheiros. De facto, estes defendiam
que o método científico era o indutivo. Em outras palavras, partindo-se
de enunciados singulares, resultantes de descrições de observações ou
de experimentos, chega-se a (induz-se) enunciados universais -hipóteses
ou teorias. Mas, como argumentava Popper, não existe nenhuma garantia
lógica capaz de assegurar a inferência dos enunciados universais a
partir de enunciados singulares, por mais numerosos que fossem estes.
Mesmo observando milhares e milhares de cisnes brancos, não se pode
afirmar que todos os cisnes são brancos, pois, a despeito de serem
raros, também existem cisnes negros. Essa questão sobre a validade e as
condições de inferência indutiva é conhecida como "problema da indução".
Ela remete para o problema acerca da validade e veracidade dos
enunciados universais baseados na experiência. Contudo, a descrição da
experiência é sempre um enunciado singular, não um universal. Portanto,
o problema da indução só pode ser resolvido se existir um "princípio de
indução", capaz de garantir a inferência indutiva. Porém, do ponto de
vista lógico, não existe tal princípio.
Logo, diz Popper,
o método indutivo não é o método da ciência. E não adianta deslocar a
questão, afirmando que a inferência indutiva pode não ser válida
estritamente, mas que tem algum grau de confiabilidade e de
probabilidade, como fizeram os positivistas lógicos, utilizando o
cálculo de probabilidades. Na sua essência, o problema fica inalterado e
o impasse continua.
Então, não tem
sentido falar em lógica da pesquisa científica? Claro que sim, responde
Popper. O que estava errado era a forma da pergunta. Ela queria saber se
existe uma fonte privilegiada, cujos dados garantissem por si o
conhecimento científico, demarcando a fronteira da ciência e da
não-ciência (metafísica) e qual a lógica da demarcação. Tal fonte não
existe. Os dados sensoriais, base da indução, tão caros aos pensadores
do Círculo de Viena, não têm esse "pedigree" capaz de assegurar, pela
origem, o carácter científico do conhecimento. Todavia, eles podem
perfeitamente mostrar a falsidade das hipóteses e teorias que constituem
a ciência, fundamentada numa assimetria da lógica clássica conhecida
como "modus tollens".
Se o enunciado B é deduzido do enunciado A, a sua veracidade não implica
necessariamente a verdade de A, mas da sua falsidade decorre
necessariamente a falsidade de A. De modo semelhante, não é possível
afirmar a validade de um enunciado universal, porém é perfeitamente
possível refutá-lo, ou falseá-lo, segundo o pensamento do austríaco.
Assim, o trabalho do cientista seria fazer conjecturas sobre uma
realidade e depois tentar refutá-las. Na primeira parte do processo, não
há lógica. Esta aparece na segunda parte, no esforço de refutação,
baseado no "modus
tollens". A teoria ou hipótese conjecturada deve, portanto, ter um
formato adequado para ser testado, caracterizado pelo seu conteúdo
empírico.
Essa era a sua
engenhosa proposta, posteriormente, publicada com o título de "Logik der
Forschung" (Lógica da Pesquisa, em alemão). Estava aí o cerne do
pensamento popperiano."
Shozo Motoyama
Actividades:
-
Descreva o
problema da indução apresentado no texto.
-
Popper
apresenta uma solução para o problema da indução. Em que consiste
essa solução?
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Prove que o
pensamento de Popper é uma forma de criticismo, ou seja,
ultrapassa a dicotomia empirismo/racionalismo. Deve procurar
divergências de Popper em relação a Kant.
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