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O
Espírito Científico
O homem é um ser que
faz questionamentos existenciais, e que tem que se interpretar a si e ao
mundo em que vive, atribuindo-lhes significados. Cria representações
significativas da realidade, as quais chamamos conhecimento.
O conhecimento,
dependendo da forma pela qual se chega a essa representação, pode ser
classificado em diversos tipos como, por exemplo, mítico, comum,
dogmático e científico.
O conhecimento
científico é o que é produzido pela investigação científica, através dos
seus métodos. Surge não apenas da necessidade de encontrar soluções para
problemas de ordem prática da vida diária, mas do desejo de fornecer
explicações sistemáticas que possam ser testadas e criticadas através de
provas empíricas.
A investigação
científica inicia-se quando se descobre que os conhecimentos existentes,
originários quer do senso comum, quer do corpo de conhecimentos
existentes na ciência, são insuficientes para explicar os problemas
surgidos. O conhecimento prévio que nos lança de encontro a um problema
pode ser tanto do conhecimento vulgar quanto do científico.
Quando o homem sai de
uma posição meramente passiva, de testemunha dos fenómenos, sem poder de
acção ou controlo dos mesmos, para uma atitude racionalista e lógica,
que busca entender o mundo através de questionamentos, é que surge a
necessidade de se propor um conjunto de métodos que funcionem como uma
ferramenta adequada para essa investigação e compreensão do mundo que o
cerca. O homem quer ir além da realidade imediatamente percebida e
lançar princípios explicativos que sirvam de base para a organização e
classificação que caracteriza o conhecimento.
Através desses
métodos obtêm-se enunciados, teorias, leis, que explicam as condições
que determinam a ocorrência dos factos e dos fenómenos associados a um
problema, sendo possível fazer predições sobre esses fenómenos e
construir um corpo de novos enunciados, quem sabe novas leis e teorias,
fundamentados na verificação dessas predições, e na correspondência
desses enunciados com a realidade fenomenal.
O método científico
permite a construção conceitual de imagens da realidade que sejam
verdadeiras e impessoais, passíveis de serem submetidas a testes de
falsificabilidade.
A ciência exige o
confronto da teoria com os dados empíricos. A teoria deve poder ser
submetida a um exame crítico. Segundo Popper, “um enunciado científico é
objectivo quando, alheio às crenças pessoais, puder ser apresentado à
crítica, à discussão”. Um enunciado científico, construído mediante
hipóteses fundadas em teorias, deve poder ser contrastado com a
realidade, deve poder ser submetido a testes, em qualquer época e lugar,
e por qualquer pessoa.
Isso faz com que a
investigação científica estimule a criar fundamentos mais sólidos e a
testar as suas hipóteses de uma forma mais rígida e controlada.
A ciência vale-se da
crítica persistente que persegue a localização dos erros, através de
procedimentos rigorosos de testagem que a própria comunidade científica
reavalia e aperfeiçoa constantemente. Esse método crítico de constante
localização de dificuldades, contradições e erros de uma teoria, garante
à ciência uma confiabilidade.
Popper afirma que
“uma explicação é algo sempre incompleto; sempre podemos suscitar um
outro porquê, e esse novo porquê talvez leve a uma nova teoria, que não
só explique, mas corrija a anterior”. Essa auto-crítica sistemática da
ciência, que muitas vezes conduz a uma reformulação de teorias, leva os
dogmáticos a afirmações injustas como: “a ciência nunca tem certeza de
nada, o que ontem era verdade para ela hoje já não o é mais”. Estão
certos quanto ao facto de que algumas verdades de ontem não serem mais
aceitas hoje. Mas pecam quando generalizam, dizendo que a ciência nunca
tem certeza de nada, ou vêem aí uma fragilidade. Ao contrário, é
justamente por estar submetida a constantes retomadas de revisões
críticas, que uma teoria científica é aperfeiçoada e corrigida,
garantindo seu enriquecimento e confiabilidade.
O oposto ao espírito
científico é o espírito dogmático, que bloqueia a crítica por se julgar
auto-suficiente e clarividente na sua compreensão do mundo, e acaba por
impedir eventuais correcções e aperfeiçoamentos, muitas vezes induzindo
ao erro, fraudes, ignorância e comportamento intolerante. É, portanto,
erróneo achar que a dogmatização de um conhecimento é superior só porque
é imutável.
O verdadeiro espírito
científico consiste, justamente, em não dogmatizar os resultados de uma
pesquisa, mas em tratá-los como eternas hipóteses que merecem constante
investigação.
Ter espírito
científico é estar, sobretudo, numa busca permanente da verdade, com
consciência da necessidade dessa busca, expondo as suas hipóteses à
constante crítica, livre de crenças e interesses pessoais, conclusões
precipitadas e preconceitos.
Embora não se possa
alcançar todas as respostas, o esforço por conhecer e a busca da verdade
continuam a ser as razões mais fortes da investigação científica.
Francisco Saiz (Texto adaptado).
Actividades:
-
De acordo com
o texto, o que é que caracteriza melhor a ciência? Explicite a sua
resposta.
-
O que é que
caracteriza a verdade científica? Isso é positivo ou negativo?
Justifique.
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O que é a
falsificabilidade do conhecimento científico?
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