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A Lógica do
Conceito
A definição de Conceito – Os
conceitos como os elementos constitutivos do pensamento
O pensamento
desenvolve-se de acordo com três actos fundamentais do nosso
espírito: a conceptualização (ou generalização
representativa), o juízo e o raciocínio. A Lógica
não se preocupa em saber quais as faculdades da mente que estão
na base destes três tipos de operações mentais, isso é uma
tarefa para a Psicologia e para a Gnoseologia. O que lhe
interessa é conhecer as suas características formais e
estabelecer normas que permitam a sua correcta articulação
formal.
Neste capítulo vamos concentrar-nos no resultado da
conceptualização, o conceito, deixando para os capítulos
seguintes a definição e caracterização do juízo e do raciocínio.
Conceptualizar significa criar uma representação mental de uma
classe de objectos ou elementos da realidade externa ou interna.
De uma forma mais rigorosa, podemos afirmar que na
conceptualização estão envolvidos dois actos da mente: em
primeiro lugar, a apreensão das características
distintivas presentes num número significativo de elementos de
uma classe de objectos pertencentes à realidade, seguida da
generalização dessas características, incluindo-as numa
representação abstracta das características comuns a todos os
elementos dessa classe de objectos. Assim, podemos definir o
conceito como: a representação abstracta da essência
(natureza) de uma classe de objectos. Por exemplo, o
enunciado ‘o homem é um animal racional’, é a definição do
conceito de ‘homem’, porque apresenta as características
essenciais da classe dos homens: estas características estão
presentes em todos os indivíduos humanos. Mas atenção: o que
interessa à Lógica não são as realidades a que os conceitos se
referem, mas as propriedades formais dos conceitos, e estas são
duas: a extensão e a compreensão.
Mas antes de definirmos estas propriedades formais do conceito,
devemos esclarecer a distinção lógica entre os actos do
pensamento e a sua expressão em termos de linguagem formal: no
caso do conceito, este é expresso na linguagem natural através
da palavra. Como a Lógica se deve afastar o mais possível
da ambiguidade polissémica da linguagem natural, o conceito
é expresso através do termo. Assim, o termo
corresponde à designação lógica do símbolo, ou conjunto de
símbolos, que se convencionou utilizar para expressar um
conceito. De igual modo, a expressão lógica de um juízo
designa-se proposição, enquanto que a expressão lógica de
um raciocínio tem a designação lógica de argumento. Por
razões práticas, daqui para a frente poderemos referir-nos quer
aos conceitos, juízos e raciocínios, quer aos termos,
proposições e argumentos, ficando estabelecido que, do ponto de
vista prático, é indiferente utilizarmos um ou outro tipo de
designação. Assim, por exemplo, quando falarmos em proposição,
estamos a referir-nos ao juízo, apesar das diferenças que
existem entre eles ao nível teórico. Para que se compreenda esta
correspondência, consulte-se o seguinte quadro:
|
PENSAMENTO
|
EXPRESSÃO DO
PENSAMENTO
(LINGUAGEM FORMAL)
|
|
RACIOCÍNIO |
ARGUMENTO |
|
JUÍZO |
PROPOSIÇÃO |
|
CONCEITO |
TERMO |
Dada a vinculação do pensamento à linguagem, a lógica deve
procurar que a linguagem empregue para expressar o pensamento,
seja a mais rigorosa possível. Embora utilizemos termos que
correspondem a palavras da linguagem natural, devemos, quando os
empregamos, atender ao seu valor lógico e não ao seu significado
linguístico.
TEXTO
“Os homens
inventaram os conceitos para descrever o mundo que os rodeia.
Muito cedo o homem descobriu que certos objectos,
acontecimentos, processos e regiões possuíam características
semelhantes. Então, agrupou os vários fenómenos em termos das
semelhanças descobertas à base de tamanho, peso, localização no
tempo e espaço, proveniência, função, etc. Os conceitos vão
desde ideias sobre coisas muito simples até às abstracções de
alto nível, bastante distanciadas do nível dos objectos
concretos. O pensamento, o progresso e o desenvolvimento em
todos os domínios da actividade humana dependem da exactidão dos
nossos conceitos.
Os homens
inventaram também símbolos para exprimir o significado dos
conceitos. Os símbolos primitivos relacionavam-se de perto com
os objectos originais, tais como os desenhos das cavernas, a
primitiva escrita pictórica, os hieróglifos. Os modernos
sistemas de linguagem vão desde o relativamente simples ao
bastante complexo. O uso extensivo de símbolos é uma
característica predominante das modernas culturas.
Os
conceitos e os símbolos servem para a comunicação, mas são
também vitais para o raciocínio e para a descoberta de novas
relações. Não podemos pensar bem em qualquer campo de
conhecimento sem conhecermos os conceitos sistemáticos em que
esse campo assenta. Os níveis avançados em qualquer disciplina
baseiam-se em conceitos complexos, especializados e muitas vezes
difíceis de compreender.”
Burton, Kimbal
e Wing, Anatomia do pensamento, p. 238-239.
A Extensão e a Compreensão do
Conceito
Designa-se extensão de um conceito, o conjunto de
indivíduos (entidades/objectos) a que o conceito se refere. A
maior ou menor extensão de um conceito corresponde ao seu maior
ou menor grau de generalidade ou à sua maior ou menor
proximidade à singularidade. Assim, atendendo à sua extensão, os
conceitos podem ser singulares, particulares, ou
universais.
Os conceitos singulares, são aqueles que se referem
apenas a um indivíduo. Por exemplo:
v
‘Este homem’.
v
‘Maria’.
v
‘O meu cão’.
v
‘Aquele autocarro’.
Os conceitos particulares, são aqueles que se referem a
parte de uma classe de objectos:
v
‘Alguns homens’.
v
‘Alguns animais’.
v
‘A maioria dos automobilistas’.
v
‘Certas canetas’.
Os conceitos universais, são aqueles que se referem a
todos os membros de uma classe de objectos:
v
‘Todos os homens’.
v
‘Os animais’.
v
‘Todos os cães’.
v
‘Todos os veículos’.
Designa-se compreensão de um conceito, o conjunto de
características (dos objectos por ele denotadas) que nele estão
representadas. Assim a compreensão do conceito de ‘Homem’,
corresponde às características específicas ou essenciais da
classe dos homens, ou seja, simplificando, às características
comuns a todos os homens.
Podemos daqui depreender que quanto maior é a extensão de um
conceito, menor será a sua compreensão: existem mais
características comuns aos europeus do que a todos os homens.
Inversamente, quanto maior a compreensão de um conceito, menor
será a sua extensão, porque à medida que nos aproximamos da
singularidade, mais características dos objectos estão reunidas
nos conceitos: um conceito singular tem uma extensão mínima
(=1), enquanto tem uma compreensão máxima, indefinível, uma vez
que é impossível enumerar todas as características de um ser
individual – para enumerarmos as características de uma mesa em
concreto, por exemplo, teríamos que conhecer todas as suas
características, desde as mais perceptíveis, até às mais
ínfimas: teríamos que ser capazes de descrever os átomos que a
compõem e cada uma das partículas subatómicas, o que é uma
tarefa impossível de realizar. Isto está bem patente na seguinte
figura:

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Podemos
então enunciar a regra da relação entre a compreensão
e da extensão dos conceitos (RC1):
Regra RC1 – À medida que a extensão de um conceito cresce, a sua
compreensão decresce, e inversamente.
Actividades:
1.
O que são e para que servem os conceitos?
Justifique.
2.
Poderia existir pensamento sem conceitos? Porquê?
3.
Distinga a extensão e a compreensão dos
conceitos. |
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